25.11.06

Conta-se

Jean Dieuzaide


Falava de barcos e naufrágios,
da luz incerta das cidades,
de mulheres de longos e húmidos cabelos.
Cabia em sua boca a mudez dos outros
e, por isso, lhe escorria dos lábios
um visível silêncio.
O mar fascinava-o tanto como a lua,
ou como o cais onde amarrava o barco,
quando o vento exercitava
o seu modo desavindo de lhe afagar o corpo.
Conta-se que as ondas lhe rebentavam nos olhos
sempre que entristecia.

Graça Pires
De Reino da lua, 2002

24.11.06

Sempre um sonho nos arrasta

Manuel Fazenda Lourenço


Por todas as razões que definem o rumo
do vento, ou o tornam cativo nas velas
de um barco sem destino,
sempre um sonho nos arrasta.
Não, não quero ser salva de previsíveis
transgressões a um código de rotinas impostas.
Sou jovem. Hei-de sobreviver ao meu próprio caos,
antes que a noite seja mágoa no poente

e, por dentro das manhãs,morram os pássaros
sufocados de tristeza.
Hei-de sobreviver, antes que, de boca em boca,
circulem as palavras prisioneiras da ilusão,
ou o rio que me corre nos olhos

esgote o seu caudal em litígio com a nascente.
Hei-de sobreviver, porque existe um outro tempo:
livre, povoado de rostos que antecipam
o percurso da esperança.
Existe, sim, um continente soalheiro,
ao alcance do mais íntimo pressentimento da vida,
onde, em asas de gaivota, nascem os homens

reconciliados com a morte.

Graça Pires
De Reino da lua, 2002

23.11.06

A surpresa de olhar-te

Alvarez Bravo

Tu, que vieste sem eu te procurar, vem comigo.
Se souberes de cor a cor do vento

e quiseres decifrar, nas minhas mãos,
os gestos sem memória, vem comigo.
Como um recado quero explicar-te

por que motivo trago dentro de mim
uma longa praia, às vezes deserta,
outras vezes sufocada de gente.
É em mim que as ondas se quebram
quando o mar, intranquilo,
penetra o sossego das dunas.
É em mim que ecoam os gritos fúnebres
das mulheres, sempre que os barcos não regressam.
É em mim que nascem os lenços brancos do adeus.
É em mim que os búzios ressoam 
os segredos das marés.
É em mim.
Depois, a areia aquece as veias

e a respiração de quem chora amores impossíveis
e o corpo é um sacrário sem liturgia
a renegar o seu próprio destino.
Por isso, a surpresa de olhar-te.
Contigo permanece a alegria do riso,

branco de açucenas e de luar,
como uma festa de nascer.
Mas repara em nós : que brilho é este

que nos brinca nos olhos como se fossem lágrimas?

Graça Pires
De Outono: lugar frágil, 1993

22.11.06

Dia de anos

Matisse


Se os pássaros sobrevoam as palavras
para saudar o dia, é porque há festa
nos olhos de quem nasce quantas vezes é preciso.
Quase se adivinha um tempo de lembranças
como um pretexto, uma fuga, um alibi
para escapar à fadiga dos sonhos minguados.
É então que os amigos trazem afectos
que o tempo não corrompe
e o vento se torna solidário das manhãs
por onde se regressa à infância.


Graça Pires
De Ortografia do olhar, 1996