Seleccionar o ângulo de um rosto, sem lhe macular a luz, como se, a meia voz, pudéssemos reter os múltiplos reflexos do júbilo e das mágoas.
16.11.06
15.11.06
As papoilas secam-me nos olhos

Sem qualquer pudor, deixei a marca,
do meu andar apressado,
em todos os caminhos de esperas decisivas.
Algo envelheceu nos meus pés,
manchados pelo desacerto dos dias.
De tanto percorrer o chão da infância,
as minhas pálpebras encheram-se
da lucidez dos velhos.
Não creio que os dias se revezem,
inevitavelmente, iguais.
As papoilas secam-me nos olhos.
Sinal de sede, ou de um verão antigo
inquietando a boca ?
Graça Pires
De Uma certa forma de errância, 2003
14.11.06
Quero um poema que fale de amor
Na nudez das mãos o poema tarda.
Ébria de um proibido mel recuso
dedilhar, ao acaso, definições simbólicas,
ou românticas entoações, a justificar o ritmo das palavras. Cativa de outras falas,
rodeio-me de letras perturbadas para dizer paixão.
A semente e a seiva, o parto e a morte, a montanha e a vertigem,
incendeiam-me os lábios e fustigam os meus passos em direcção
a todas as madrugadas.
Quero um poema, ainda que imperfeito, mas que fale de amor.
Que diga o corpo inteiro, antevendo o júbilo das mãos.
Que diga a boca adjacente à boca, e os olhos em festa, e a lua
ardendo, atónita, nas veias. Um poema onde doa a ausência
dos abraços, onde se redima
a mendicidade do olhar.
Graça Pires
Ébria de um proibido mel recuso
dedilhar, ao acaso, definições simbólicas,
ou românticas entoações, a justificar o ritmo das palavras. Cativa de outras falas,
rodeio-me de letras perturbadas para dizer paixão.
A semente e a seiva, o parto e a morte, a montanha e a vertigem,
incendeiam-me os lábios e fustigam os meus passos em direcção
a todas as madrugadas.
Quero um poema, ainda que imperfeito, mas que fale de amor.
Que diga o corpo inteiro, antevendo o júbilo das mãos.
Que diga a boca adjacente à boca, e os olhos em festa, e a lua
ardendo, atónita, nas veias. Um poema onde doa a ausência
dos abraços, onde se redima
a mendicidade do olhar.
Graça Pires
De Reino da lua, 2002
13.11.06
Em seara alheia

ORLA MARÍTIMA
O tempo das suaves raparigas
é junto ao mar ao longo da avenida
ao sol dos solitários dias de dezembro
Tudo ali pára como nas fotografias
É a tarde de agosto o rio a música o teu rosto
alegre e jovem hoje ainda quando tudo ia mudar
És tu surges de branco pela rua antigamente
noite iluminada noite de núvens ó melhor mulher
(E nos alpes o cansado humanista canta alegremente)
«Mudança possui tudo»? Nada muda
nem sequer o cultor dos sistemáticos cuidados
levanta a dobra da tragédia nestas brancas horas
Deus anda à beira de água calça arregaçada
como um homem se deita como um homem se levanta
somos crianças feitas para grandes férias
pássaros pedradas de calor
atiradas ao frio em redor
pássaros compêndios de vida
e morte resumida agasalhada em asas
Ali fica o retrato destes dias
gestos e pensamentos tudo fixo
Manhã dos outros não nossa manhã
pagão solar de uma alegria calma
De terra vem a água e da água a alma
o tempo é maré que leva e traz
o mar às praias onde eternamente somos
Sabemos agora em que medida merecemos a vida
Ruy Belo
12.11.06
Uma história quase nossa
DegasEnquanto me dispo, vão-se os teus olhos cobrindo
de perturbado gozo. Vem. Somos jovens de novo.
Podemos colher os medronhos, ainda molhados
pelo orgasmo da manhã e partilhar, palmo a palmo,
a secreta invenção do musgo.
Podemos transgredir o rio da cintura
e reajustar a nau que aporta sobre a boca.
Vem. Podemos roçar a polpa, lamber o suco,
tactear a raízes do fruto ou da fome.
Podemos arriscar as asas, adiar o voo
e, no vértice dos corpos, fruir a paisagem,
lentamente. Vem.
Graça Pires
De Ortografia do olhar, 1996
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