18.4.15

Em seara alheia



Tão pouco foi o que mudou.

A porta ainda a mesma, com seu chiar nos gonzos, seu gemer de cansaços.

O céu semeia oiro ou água ou vento, a entontecer donzelas, a agoniar os velhos.

Bem vês, pequena é a mudança.

A farinha ainda é pão e o pão é corpo e o corpo é alimento da vontade.

Os sonhos continuam, mais imprecisos, mais voláteis, e as vigílias mais longas, a segurar a terra na encosta.

Se queres saber do sobressalto dos pardais, posso dizer-te que já não bato palmas, que aprendi o sossego das ramadas.

Solto os braços, embrulho-me na tarde, abro o livro.

Um novo conto há-de começar.

Licínia Quitério
In: O livro dos cansaços: textos poéticos. Ed. da autora, 2015, p. 22