Tão pouco foi o que mudou.
A porta ainda a mesma, com seu chiar nos gonzos, seu gemer de cansaços.
O céu semeia oiro ou água ou vento, a entontecer donzelas, a agoniar os velhos.
Bem vês, pequena é a mudança.
A farinha ainda é pão e o pão é corpo e o corpo é alimento da vontade.
Os sonhos continuam, mais imprecisos, mais voláteis, e as vigílias mais longas, a segurar a terra na encosta.
Se queres saber do sobressalto dos pardais, posso dizer-te que já não bato palmas, que aprendi o sossego das ramadas.
Solto os braços, embrulho-me na tarde, abro o livro.
Um novo conto há-de começar.
Licínia Quitério
In: O livro dos cansaços: textos poéticos. Ed. da autora, 2015, p. 22
