5.8.19

Em seara alheia



Incendeias as ruas

Incendeias as ruas e os passos dos homens
E todos os cios. E as mulheres nas soleiras
Murmuram esconjuros
À tua passagem.

Altiva a ti pertences. Tua alma
Apenas os poetas a cativam. Breve em cada estrofe.
Para esvoaçante partires: sina tua de amar
Em cada amor que em teu peito nasce.

Corpo mil vezes profanado. E outras tantas
Deserto. Cada palavra tua é bálsamo
Nunca azedume. Ou acinte.

Guardo de ti o gesto nobre de quem tudo entende
E nada espera. Singela em cada letra
Que em ti arde.

Amizade límpida perfuma-te as manhãs claras
E as noites inquietas - fome de vida e febre -
Que te consomem. Pulsão livre de poema
Que de teu corpo se desprende.

Manuel Veiga
In: Perfil dos dias. Modocromia, 2019, p. 78