13.6.22

Escrevo água



Tremem-me os dedos ao separar retratos antigos, 
ao anotar os nomes, ao deixar que cada rosto 
se insinue no meu âmago, 
nos degraus de uma interminável espera. 
Escrevo água para alagar o útero maternal 
e distingo ao longe a minha sombra, 
com o coração inclinado sobre o meu ventre 
duplamente fecundado. 
Um abraço é o íntimo afago em que me reconheço. 
O embalo consentido na plenitude do desejo 
que ao corpo apetece e a alma confirma. 
A perturbação presente na memória 
como um horizonte 
para sempre visível na bênção das mães. 

Graça Pires 
De Antígona passou por aqui, 2021, p. 36