13.7.07

Como um enigma

Édouard Boubat
Rasgo, dentro de mim,
imagens desfocadas
com que encenei obsessões.
Uma linha de luz subverte
a penumbra do olhar,
como um enigma,
ou um remorso sem retorno:
um feitiço quebrado reinventando culpas,
caixa de pandora dispersando sombras.
Exponho-me no disfarce transparente
da linguagem, para que a intimidade
se insinue nos meus dedos.
Apodero-me da malícia das sílabas
a entreter a língua.


Graça Pires
De Não sabia que a noite podia incendiar-se nos meus olhos, 2007

11.7.07

Na lisura da areia

Henri Cartier-Bresson

De mãos a arder, risco uma cruz
na lisura da areia, para confessar
o remoto exercício da tristeza.
Já não sei, se são de asas ou de velas,
os sons que aportam meus ouvidos.


Graça Pires
De Uma certa forma de errância, 2003

10.7.07

Na entrada porosa da noite

Simon Tysko


Na entrada porosa da noite,
uma canção de embalar reconduz-me à inocência,
pela mão de qualquer encantamento.
Um negro perfume exala dos meus cabelos,
ateando-me, na cara, a remissão de todas as culpas.
Sou uma criança receosa
que salta um muro, denso de heras
e procura, por sombras invisíveis,
o caminho de casa.


Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

9.7.07

Em seara alheia


Ambição

Desenhar:
de um pássaro,
o vinco do vôo
no azul.

Sônia Barros
In Mezzo Vôo, São Paulo: Nankin, 2007

8.7.07

Para dizer trigo

Jean Dieuzaide


No fim da primavera, há homens que enchem
as mãos de terra para dizer trigo.
Lendas em desuso esquivam-se-lhes da voz.
No interior da fome, reconstroem a boca,
recuperando todas as expressões de indignação
e raiva. Nas suas queixas, hibernam os deuses
que lhes teceram a intriga do destino: tão efémeros
que resvalam nas palavras que omitem.


Graça Pires
De Quando as estevas entraram no poema, 2005