4.1.21

Do outro lado dos homens


Robert Cattan


Do outro lado dos homens 
a memória das sombras e dos mortos 
maneja o exílio das palavras 
e tece um tempo sem bênçãos 
para exorcizar os gritos, as cinzas, 
os nomes, a treva do próprio abismo.

É um tempo que só o silêncio mais íntegro redime.

E como se tudo fosse possível
num horizonte cúmplice e fraterno, 
há um tumulto no olhar inquieto dos homens
que alentam a coragem, 
permutam os abraços, 
buscam a senda da liberdade.

Por isso o poeta usa a inteira limpidez da voz para dizer:
ainda há canções para cantar do outro lado dos homens.

Graça Pires

In: A norte do futuro: homenagem poética a Paul Celan no centenário do seu nascimento. Organização e prefácio de Maria Teresa Dias Furtado. Braga: Poética, 2020, p. 30

 



Itálicos tirados da antologia poética Sete rosas mais tarde, de Paul Celan , trad. João Barrento e Y. Centeno