
Robert Cattan
Do outro lado dos homens
a memória das sombras e dos mortos
maneja o exílio das palavras
e tece um tempo sem bênçãos
para exorcizar os gritos, as cinzas,
os nomes, a treva do próprio abismo.
É um tempo que só o silêncio mais íntegro redime.
E como se tudo fosse possível
num horizonte cúmplice e fraterno,
há um tumulto no olhar inquieto dos homens
que alentam a coragem,
permutam os abraços,
buscam a senda da liberdade.
Por isso o poeta usa a inteira limpidez da voz para dizer:
ainda há canções para cantar do outro lado dos homens.
Graça Pires
In: A norte do futuro: homenagem
poética a Paul Celan no centenário do seu nascimento. Organização e prefácio de Maria Teresa Dias Furtado. Braga: Poética, 2020, p. 30
Itálicos tirados da antologia poética Sete rosas mais tarde, de Paul Celan , trad. João Barrento e Y. Centeno