3.9.18

Inesperadamente jovens

Andre kohn

Já os pássaros marinhos voavam sobre os barcos
e a rebentação das ondas atingia a areia das margens,
quando as nossas mãos, tão próximas,
rondavam tempestades na concha do olhar.
Só nós adivinhávamos a inclinação das âncoras
pelo estremecimento dos mastros
e pela fulguração dos corpos inesperadamente
jovens, incendiando as águas.
Em nossos pulsos abertos às quilhas
conhecíamos os mares incertos onde os naufrágios
faziam dos teus e dos meus braços
o remo e o rumo da viagem.
Havia limos a amaciar-nos a pele.
No relevo dos ombros,
uma lâmina de sal alucinava-nos o sangue.
E a cúmplice respiração de nossas bocas
denunciava o frémito da maré-cheia.

Graça Pires 
In: CONTINUUM: antologia poética. Pinturas de Luís Liberato, fotografias de Soledade Centeno. Braga: Poética, 2018, p. 120