5.5.07

A mãe

Balthus

Adivinhar, no teu rosto, o rio da infância
e deslizar, em deslumbradas canoas,
pelo sal dos teus olhos.

Afaga os meus cabelos, mãe
para que, a palavra
crescer,
não doa, de novo, nos meus passos.
Deixa-me ver, na tua pele,
as linhas do silêncio,
com que teceste a coragem
e os sonhos : a parte da tua herança
que, legitimamente, me cabe.


Graça Pires
De Ortografia do olhar, 1996

4.5.07

O nomadismo dos afectos

Donna Geissler

Articulo-me nas convenções quotidianas.
Nota-se, no meu andar,
o nomadismo dos afectos.
Dédalo construíu o labirinto ao meu redor,
como um anel de silêncios.
Agora, tenho nos pés
o fantasma de um marinheiro

enlouquecido pelo som dos búzios.

Graça Pires
De Labirintos, 1997

3.5.07

Vamos falar de poesia




Não podemos saltar por cima da nossa própria sombra.
Poderá fazê-lo a poesia?

George Steiner
In Gramáticas da Criação.Lisboa:Relógio d'Água, 2002

2.5.07

Exausta de esperar



Exausta de esperar, descanso o olhar
na silhueta de veleiros pintados de negro.
Depois, desenho, em minha insónia, um pássaro,
que me sobrevoe a infância, hasteando,
bem por dentro da meninice, um rosto paterno,
para que a boca me não sangre de orfandade.

Naufragaste numa noite
em que o brilho da lua adormeceu
e deixaste-me uma ilha por herança.


Graça Pires
De Uma certa forma de errância, 2003

1.5.07

Ninguém me viu

Alfredo Cunha
Ninguém me viu
mas, na multidão,
era indelével
o meu vulto
atento à vida
como um sonho aceso
e no meu rosto
havia uma bandeira colorida
mas ninguém me viu,
muda de mágoa,
placenta das palavras que gerei
no aceno dos meus braços.
Ninguém me viu
e os meus passos
soavam a loucura
ao ritmo de um verso
e no meu olhar
estava impressa a solidão
mas ninguém me viu.

Graça Pires
De Poemas, 1990

30.4.07

Em seara alheia


PENÉLOPE, MEIO DIA

Está na cozinha, a sopa ao lume, os pratos na
mesa, talheres para dois, como se ele viesse. Hoje.
Ele não volta, anda embarcado há muitos anos num
navio com sal e ferrugem nos porões. Mas ela espera,
sabe que ele pode chegar a qualquer momento. Às
vezes espreita a telenovela ou as ervas a crescer junto
ao muro do quintal. No resto do tempo, faz e desfaz
o mesmo naperon, para enganar as horas, o frio,
a solidão e um corpo esquecido do que é o amor.
José Mário Silva
In: Nuvens & Labirintos. Lisboa: Gótica, 2001

29.4.07

De múltiplas cores



Encosto a cara às quimeras da infância,
para exorcizar a inocência perdida
e rodopiar, sobre os sonhos, a valsa
solitária da criança que fui,
quando as minhas mãos, nativas do sol,
eram aves de múltiplas cores.
Páro todos os relógios, para escutar
a respiração dos dias.
E, como um actor que se esgota na personagem,
rasgo o cenário e danço, como um louco, em redor
de malogros entralaçados nos meus pulsos.
Tenho, em volta do pescoço, uma lua

transparente que me enrouquece a voz.


Graça Pires
De Reino da lua, 2002