17.10.07

A fome



Lidar as mais indignadas palavras,
e deixá-las em sangue,
a coberto de qualquer expiação.
A fome é um insulto, longamente
desenhado rente à boca.
O negativo que o peso da história nos legou.
Em nome dela, inventamos, desesperadamente,
uns deuses de estimação, a quem culpamos
dos desacertos do mundo.
E dormimos tranquilos, sem lamentarmos
a nossa própria indiferença.
Os nossos protestos não chegam, sequer,
a ser palavras de ordem para uso caseiro.


Graça Pires
De Ortografia do olhar, 1996

14.10.07

Contra o peito da noite

Christian Hang


Contra o peito da noite me aconchego
sem medo da manhã.
Sei que não sou rival do vento,
nem é minha irmã a lua cheia.
Urgente de viver, simulo o futuro,
como quem saboreia a pureza
no limiar do pecado.
Deitada sobre a terra gravo,
nas paredes côncavas do firmamento,
uma palavra de amor recém-nascida.
E, nem o mais leve movimento das mãos,
abertas sobre a fantasia,
mostrará a dança das sílabas sobre a boca,
onde existe um barco de vidro gritando por um rio.


Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997