5.9.17

Antonia

Amedeo Modigliani

Em minha infância aflita
usava um inconfessado modo de rezar
as orações que me ensinaram.
Rogava para crescer depressa.

A crença em deus parecia-me converter
o desalento na delicada esperança de uma dádiva.

Agora, quem me dera não ter crescido tanto!
É tudo tão cruel neste tempo loucamente obscuro.
Preciso de palavras inteiras: ecos
na voz dos que não ignoram o sangue,
os gritos, os muros do ódio, a dor.
Preciso de palavras únicas a susterem
os sons da vida, com pétalas adejando na boca.

Quero ir com os viajantes ou com as aves
sem direcção prevista.

Quero decifrar horizontes e habitar
o desmedido quebranto do alvorecer.

Quero esgueirar-me pelo relento das grutas,
pelo lado mais escurecido das estradas e das casas.

E deixar que cada anoitecer me denuncie.

Graça Pires
De Fui quase todas as mulheres de Modigliani, 2017