4.9.23

Uma luz indecifrável

Masha Raymers

Enquanto os meus passos 
tecem a sua teia pelo chão, 
neles se envolve, 
em desacertada simetria, 
o esquivo jeito das mãos, 
como se a febre dos gestos 
habitasse um desorientado tumulto, 
em busca de um silêncio 
que esboça o avanço dos dias 
com agudíssimos dedos. 
Estranha de mim, 
alienada à intuição de um recato, 
dramatizo o mais íntimo som das contradições. 
Subverto a linguagem do assombro 
num conflito insubornável. 
Amarrada às sílabas, 
roço a língua nas pedras 
para inflamar as palavras. 
Utilizo a minha biografia 
para sangrar o subtil veneno 
com que entreteço as sombras. 
Em meu redor, uma luz indecifrável 
alastra sobre os sentidos, 
sobre o interior da voz, 
devassando a vigília dos nomes 
que se me ajustam. 

Graça Pires 
De Antígona passou por aqui, 2021, p. 12