tecem a sua teia pelo chão,
neles se envolve,
em desacertada simetria,
o esquivo jeito das mãos,
como se a febre dos gestos
habitasse um desorientado tumulto,
em busca de um silêncio
que esboça o avanço dos dias
com agudíssimos dedos.
Estranha de mim,
alienada à intuição de um recato,
dramatizo o mais íntimo som das contradições.
Subverto a linguagem do assombro
num conflito insubornável.
Amarrada às sílabas,
roço a língua nas pedras
para inflamar as palavras.
Utilizo a minha biografia
para sangrar o subtil veneno
com que entreteço as sombras.
Em meu redor, uma luz indecifrável
alastra sobre os sentidos,
sobre o interior da voz,
devassando a vigília dos nomes
que se me ajustam.
Graça Pires
De Antígona passou por aqui, 2021, p. 12
