17.4.23

Múltiplas mortes




Não vou falar dos barcos 
que me naufragam no peito 
enrouquecida que fico  
se um rumor azul 
deixa de alagar a minha voz. 

Mas demando o sinistro equívoco 
que inventa todas as fugas 
para se morrer de múltiplas mortes 
a fugir da morte 
em margens que o mundo renega. 

Qual o som do mar me questiono 
qual o som do mar tão saturado de mortos? 
Que sinos soarão por eles? 
Quem fará a oração o sinal da cruz o requiem? 

Guardo dentro de mim ondas alteradas 
como gritos silabando a luz aflita 
cravada na retina de olhos extenuados. 

Graça Pires 
De O improviso de viver, 2023, p. 57