Ignoro a vida
das coisas quando
o olhar me dói,
apressada que vou
para chegar a tempo
do nascimento das sombras.
Cantam e esvoaçam os pássaros,
espreguiçam-se no verde as ondas
ou adormece o mar, cansado
de incestuosos arremessos
na inocência da areia?
Não sei.
Ai, como queria permanecer
no meu lado de dentro
sempre que de ti me ausento,
abeto sem mácula,
poema,
casa à beira das chuvas
de amoras no silvado.
Explica-me a queda oca
no silêncio provável do nada.
Como é o grito da árvore?
Lília Tavares
In: A timidez das árvores. Modocromia, 2020, p. 66. Col. Mãos de Semear. Livros Lília Tavares, v. 1
