7.12.20

Em seara alheia



A Queda Oca no Silêncio 

Ignoro a vida 
das coisas quando 
o olhar me dói, 
apressada que vou 
para chegar a tempo 
do nascimento das sombras. 
Cantam e esvoaçam os pássaros, 
espreguiçam-se no verde as ondas 
ou adormece o mar, cansado 
de incestuosos arremessos 
na inocência da areia? 
Não sei. 
Ai, como queria permanecer 
no meu lado de dentro 
sempre que de ti me ausento, 
abeto sem mácula, 
poema, 
casa à beira das chuvas 
de amoras no silvado. 
Explica-me a queda oca 
no silêncio provável do nada. 
Como é o grito da árvore?

Lília Tavares
In: A timidez das árvores. Modocromia, 2020, p. 66. Col. Mãos de Semear. Livros Lília Tavares, v. 1