19.9.16

No outono

Susan Deerges

No outono a lentura entretece os dias.
Cada uva mordida é um crivo do vinho
escorrendo nas gargantas mais sôfregas.
As aves sublimam a profecia das distâncias
com asas ansiosas de desertos e montanhas.
O mar, inclemente, afoga os navios e ama,
de madrugada, a bruma salgada
que alarma o eco iluminado de um farol.
Há uma espécie de desamparo
em cada árvore, abraçando
o vento rendida e desnuda.
As pessoas envolvem o desconforto da pele
em panos de tecelagem grossa
e vigiam de perto a febre dos filhos.

Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015