26.10.20

Em seara alheia


Dragão 
a Alcanhões, a minha terra 

Nasci guardado por um dragão antigo. 

Pedi-lhe que me ensinasse a extrair 
todas as profecias do futuro. 
E ele falou-me da seiva e das raízes, 
legado das oliveiras que herdei, 
e de como o azeite nunca cessou nas candeias 
ardendo no altar da minha casa. 

Perguntei-lhe se me cresceriam asas 
para seguir o curso dos rios 
e segurar a eternidade das estrelas. 

Mas não podendo voar 
nem cuspir o fogo que me ardia no peito 
bebi da água de todas as fontes 
para tocar a mesma luz que há nos astros. 

Samuel Pimenta 
In: Ascensão da água. Fafe: Labirinto, 2020, p. 42