23.10.08

Memórias de Dulcineia VIII

Balthus
Repito as palavras.
Lentamente as pronuncio.
Tão límpidas que me dói dizê-las:
Ela batalha em mim
e vence em mim
e eu vivo e respiro nela.

Guardo as palavras,
secretamente,
como quem esconde,
com pudor, o lado
mais sensual do corpo.
Guardo as palavras.
Assombro-me com elas.
E choro a meio da noite
com os olhos carregados
de inocência.
Como se fora uma criança.


Graça Pires
De Uma extensa mancha de sonhos, 2008

20.10.08

Em seara alheia


tinha a sopa a arrefecer e a mãe chamava.
tremiam-me as pernas no complicado anseio
de saber se ela estava. já não me lembrava do nome.
rosalina seria. era quase um instante quando o lençol
era aconchegado no pescoço. eu não sabia.
poderia ser maria ou carmo ou antónia.
mas não. acho que era rosalina e de mãos atadas
no silêncio da mesa, eu achava que era morna
a lembrança. sabia que o momento não era próprio.
e eu ainda com as meias até ao joelho
e uma fita nos cabelos. descia a mão
até ao princípio do dia.
e a luz chegava para cegar de medo o meu sono.
e os dedos aconchegavam as pernas.
e as mãos no destino húmido do desejo.

Maria Quintans
aqui
In: Apoplexia da ideia, il. João Concha. Lisboa: Papiro, 2008