Amedeo Modigliani
Vou
pela noite com borboletas
azuis
afogadas no olhar.
Não
entrevejo a lua,
nem
há vultos indiscretos
assombrando
o espaço à minha volta.
Parece
de sombra, eu sei, este meu gesto
de
segurar, com a mão direita
as
bordas do vestido.
Ignoro
se relembro as noites da infância,
em
que evocava, no escuro, os barcos,
os
piratas, as princesas, emergindo
todos
do contorno das trevas
que
se amontoavam nos meus olhos
até
adormecer.
Não
sei se procuro os avanços e recuos
de
um passado em que o azul das garças
fazia
nos meus olhos a secreta anunciação
do
arco-íris à boca da manhã.
Graça Pires
De Fui quase todas as mulheres de Modigliani, 2017, p.36
