Dorothea Lange
e a puríssima luz do silêncio
na solidão das montanhas.
Detinha no rosto cidades interiores
com casas à beira da estrada.
Cumulava nas medas de palha
a espuma de incontrolados desejos.
Da sombra de cada árvore
fazia a sua mesa, a sua cama, a sua morada.
Todos lhe ignoravam o nome.
À sua passagem fugiam as crianças,
ladravam os cães, agitavam-se as mulheres,
escondiam-se os homens.
Um suspeito luzimento lhe invadia o olhar
como se a teimosia dos sonhos o acossasse.
Graça Pires
De A solidão é como o vento, 2020, p. 57
