16.1.09

Em seara alheia


UMA CASA EM PEDRA
Uma casa em pedra é um lugar onde se fabricam
os utensílios mais fraternos, talvez o lugar próprio
para descobrir a nossa vocação para plantar lírios
à beira das veredas, no caminho interior do lar.

Nela se redescobre a teimosa mão do poder das cinzas
à lareira, um jarro de água sobre a mesa, o pão amassado
na véspera, ante o alvoroço anónimo das crianças
ao odor das leveduras ainda frescas, transfiguradas.

Dentro das pedras se erguem as vozes vindas da planície
como se viessem da própria casa, do mais íntimo da terra,
misturando-se o apelo das águas e as narrativas
de animais nocturnos, obscuros, na fronte das montanhas.

E é daí que se lê a premonição das estrelas circundando
o destino de ervas e bichos que se fundem aos processos
por onde o vento soa, geométrico, um tempo sem data,
uma verdadeira abstracção de objectos nus, imaginários.


Vieira Calado aqui

In: Itinerário. S. Mamede de Infesta: Edium, 2008

12.1.09

Memórias de Dulcineia XI

André Kertész

Com as árvores e com as águas
partilho os meus pensamentos.
Manuseio estas palavras
como se fossem minhas
para as usar como protesto,
como absolvição: a boca
devorando a própria fome.
Aguardo um sinal que decifre
o nomadismo da memória
e rompa a cumplicidade do tempo.


Graça Pires
De Uma extensa mancha de sonhos, 2008