10.8.20

Foi numa tarde de maio

Albino Moura


Foi numa tarde de maio que as fontes secaram.
 
O primeiro sinal foi dado pelas pombas 
que voavam espavoridas ao rés das janelas. 
Caladas, as mulheres esperaram a noite 
para se sangrarem como num parto. 
Por dentro dos sonhos dos homens 
escorregavam sequiosas serpentes 
que lhes sugavam as veias. 
Só as crianças, em perfeita nudez, 
espalharam o seu riso de água límpida 
e voaram sobre as casas como anjos.

Graça Pires
De A solidão é como o vento, 2020, p. 19


Se quiserem ouvir o poema podem fazê-lo aqui:
                       https://youtu.be/2Z20pDs1YMY