24.4.23

Liberdade, liberdade!

Luísa Henriques


À mercê de uma nova rota              

Depois do adeus 
- que é palavra que dói como uma espada- 
alforriada a noite abriu-se sem pudor  ao rio  à seiva. 
E foi um universo inteiro a abrir-se ao lume e à palavra. 
Vieram aos milhares os filhos da madrugada 
anunciando ao mundo outra canção. 
E de repente, tanto azul, tanto mar  aqui e além-mar. 
Os barcos desenharam novas rotas 
e até os pássaros enlouquecidos pressentiram a mudança 
nesse infinito ainda por navegar. 
As mães abraçaram os filhos 
uma pedra floriu, um cravo sangrou na espingarda 
era a vida como um beijo a ser cumprida 
sem roleta, sem o medo acantonado a cada esquina. 
Não há em verdade nada que apague este rigor no sangue 
este clamor de claridade 
esta vontade de gritar além do sol: liberdade, liberdade.! 

Luísa Henriques,  Abril 2023