Luísa Henriques
Depois do adeus
- que é palavra que dói como uma espada-
alforriada a noite abriu-se sem pudor ao rio à seiva.
E foi um universo inteiro a abrir-se ao lume e à palavra.
Vieram aos milhares os filhos da madrugada
anunciando ao mundo outra canção.
E de repente, tanto azul, tanto mar aqui e além-mar.
Os barcos desenharam novas rotas
e até os pássaros enlouquecidos pressentiram a mudança
nesse infinito ainda por navegar.
As mães abraçaram os filhos
uma pedra floriu, um cravo sangrou na espingarda
era a vida como um beijo a ser cumprida
sem roleta, sem o medo acantonado a cada esquina.
Não há em verdade nada que apague este rigor no sangue
este clamor de claridade
esta vontade de gritar além do sol: liberdade, liberdade.!
Luísa Henriques, Abril 2023


