3.11.06

Volto a um lugar gémeo da memória



Volto a um lugar gémeo da memória
e retenho um diálogo a dançar-me nos lábios:
amo-te como no tempo em que o meu corpo
era uma ilha e nenhuma palavra me parecia
intrusa dentro da tua boca.
Amo-te. Vejo na tua face a pátria e o exílio
onde, simultaneamente, me sinto.
Chamo-te a minha fuga,

asas desenhadas no meu riso.

Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

2.11.06

Por detrás das estrelas procuro um amigo

Manet



Por detrás das estrelas procuro um amigo que morreu.
O seu passado pressagiava a subversão
e tomava o pulso da esperança.
Era poeta.
Na sua vida havia um muro branco,

onde cada um de nós podia escrever o nome.
Será a morte, passo a passo,
esta asfixia de recordações
que me torna deliberadamente comovida?
São astutos os mortos
com quem me cruzo na memória todos os dias.
Talvez sejam magos da vida que debitam,
ciumentos, a lembrança da eternidade,
num amor não correspondido.
Tudo é efémero longe dos retratos
que guardo, ao lado de pétalas secas
em forma de coração.
Numa fenda da paisagem
escondem-se as gaivotas
cansadas do ruído do mar.

As gaivotas e os poetas.


Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

1.11.06

O nome de Ariadne




O nome de Ariadne,
guardo-o na alma como se fosse meu.
Póstumo. Reticente.
Bordado na seda do meu sangue.
A desinquietar-me o destino,
como se fora o dote que me coube.
Caminho sobre os cílios de Teseu,
adormecido e exausto como um herói vencido.
Creta é tão próxima da ilha onde me perdi
a exorcizar contradições e remorsos.
Minos, o senhor do meu palácio de cristal,
tornou-me cativa de mim própria.


Graça Pires
De Labirintos, 1997

31.10.06

O improviso de viver

Edouard Boubat



Voltaremos muitas vezes a um jardim de plátanos
com o luar engatilhado nos olhos.
Dir-te-ei nomes de estrelas ao acaso,
como um desvio da fronteira 

desenhada ao redor de nós.
Lado a lado, iremos rever novembro pelas ruas,
devassando vigílias, cantando em surdina
a intimidade de sermos amantes,
neste percurso de pássaros subitamente em fuga.
As árvores são discretas.
Por isso, levar-te-ei para habitares comigo

o improviso de viver.
Estaremos em toda a parte.
Sobrevoaremos os espaços interditos
e seremos a notícia anunciada
pela voz indomável dos que ostentam na boca
a urgência dos beijos e do riso. 

Vem comigo, amor.
No escuro chegaremos à fonte pelo cheiro da sede
e moldaremos na água a transparência 

dos momentos em que a madrugada se comove.

Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

30.10.06

Em seara alheia


BÁRBAROS

Vinham de longe, arrastados pelos ventos, e escondiam
nas mãos um punhado de areia fina para não esquecerem
o cheiro dos desertos. Subiram à montanha e,
com um ramo quebrado,puseram-se a riscar o contorno
do lago e os caminhos tortuosos das primeiras margens.
A água fascinava-os, como os cavalos que traziam
alados e sem crinas para chegarem sempre mais cedo.

Nessa noite acamparam no vale. Assaram um veado.
Beberam às mulheres que haviam de ter.
E adormeceram mais longe do céu.

Sonharam com o fogo para não terem de cortar o trigo.

De manhã, a planície estava ainda mais plana.

Maria do Rosário Pedreira
In: A casa e o cheiro dos livros. Lisboa: Quetzal, 1996

29.10.06

Esta noite irei de vaga em vaga



Na interior travessia do sentimento
sou o remador.
Deixaram de se ouvir
os sinais de tempestade.
Depois das últimas dunas,
a lentidão das ondas
denuncia um esboço de jangadas
a sulcar a página de cima a baixo.
Esta noite irei, de vaga em vaga,
libertar os peixes prisioneiros
nas sílabas de um sonho privado de barcos.
Peregrinação ou exorcismo
no labirinto dos versos?


Graça Pires
De Labirintos, 1997