2.3.07

Atravesso a noite na curva das dunas

LensEnvy
Não é fácil esquecer as praias
em que se desdobram cenas de algas e navios.
Em qualquer parte da suspeita
há uma ilha encantada com castelos de areia,
um litoral de silêncios para além das metáforas,
uma insónia entreaberta a todos os mares.
Atravesso a noite na curva das dunas.
Amanhã, o cais será o coração dos homens,
e as pedras perguntarão por que motivo
é mais soluçado o bater das ondas.
Então, celebrarei a brevidade
do êxtase que não cabe no poema.

Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

1.3.07

Vamos falar de poesia


ARTE POÉTICA – II

A poesia não me pede propriamente uma especialização pois a sua arte é uma arte do ser. Também não é tempo ou trabalho o que a poesia me pede. Nem me pede uma ciência nem uma estética nem uma teoria. Pede-me antes a inteireza do meu ser, uma consciência mais funda do que a minha inteligência, uma fidelidade mais pura do que aquela que eu posso controlar. Pede-me uma intransigência sem lacuna. Pede-me que arranque da minha vida que se quebra, gasta, corrompe e dilui uma túnica sem costura. Pede-me que viva atenta como uma antena, pede-me que viva sempre, que nunca me esqueça. Pede-me uma obstinação sem tréguas, densa e compacta.
Pois a poesia é a minha explicação com o universo, a minha convivência com as coisas, a minha participação no real, o meu encontro com as vozes e as imagens. Por isso o poema não fala duma vida real mas sim duma vida concreta: ângulo da janela, ressonância das ruas, das cidades e dos quartos, sombra dos muros, aparição dos rostos, silêncio, distância e brilho das estrelas, respiração da noite, perfume da tília e do orégão.
É esta relação com o universo que define o poema como poema, como obra de criação poética. Quando há apenas relação com uma matéria há apenas artesanato.
É o artesanato que pede especialização, ciência, trabalho, tempo e uma estética. Todo o poeta, todo o artista é artesão de uma linguagem. Mas o artesanato das artes poéticas não nasce de si mesmo, isto é da relação com uma matéria, como nas artes artesanais. O artesanato das artes poéticas nasce da própria poesia à qual está consubstancialmente unido. Se um poeta diz «obscuro», «amplo», «barco», «pedra» é porque estas palavras nomeiam a sua visão do mundo, a sua ligação com as coisas. Não foram escolhidas esteticamente pela sua beleza, foram escolhidas pela sua realidade, pela sua necessidade, pelo seu poder poético de estabelecer uma aliança. E é da obstinação sem tréguas que a poesia exige que nasce o «obstinado rigor» do poema. O verso é denso, tenso como um arco, exactamente dito, porque os dias foram densos, tensos como arcos, exactamente vividos. O equilíbrio das palavras entre si é o equilíbrio dos momentos entre si.
E no quadro sensível do poema vejo para onde vou, reconheço o meu caminho, o meu reino, a minha vida.


Sophia de Mello Breyner Andresen
In: Geografia, Lisboa: Salamandra, 1990

28.2.07

Cúmplice do tempo

Amedeo Modigliani

Cúmplice do tempo, fixo no calendário
o instante de ser jovem e as minhas mãos
enchem-se de barcos, disponíveis
para viagens à terra prometida.
Se não fosse o excessivo luto
nas linhas do meu rosto,
viriam marinheiros de todos os portos,
oferecer-me o sextante e a bússola,
para que, em rotas a oriente da noite,
testemunhasse a dupla mendicidade

dos que sonham.
Sei, hoje, onde o mar adormece
descuidado: tão próximo da sombra
dos navios, que torna irremediável
o júbilo das ondas.

Graça Pires
De Reino da lua, 2002

27.2.07

Novamente um mar

Pascal Renoux

Novamente um mar. O entardecer
é a praia onde morremos juntos,
quando as nossas mãos se transformam
em veleiros que partem com o vento
e nós somos, apenas, o fruir
deslumbrado do silêncio.
Moramos entre pinheiros altos

e, do chão, apenas a relva vermelha
nos pode resgatar.
Aquilo que dizemos coincide

com a terra renovada.
Por isso, as searas hão-de vir
rodear-nos a cintura
e escreverão no pão a nossa fome.

Graça Pires
De Outono: lugar frágil, 1994

26.2.07

Todas as noites me despeço de ti

Salvador Dali

Todas as noites me despeço de ti,
como se existisses nos meus gestos.
Construíste, pedra a pedra,
o circuito fechado de um pretexto ausente.
Agora, já não és senão o falso alarme do meu corpo.
Ocorrem-me, até, palavras de um sossego
de pétalas e penso no amor
como se de uma fraude se tratasse.
Sou o pão e o vinho num festim de contradições.
Tenho, no sangue, um ciúme liquefeito
que transtorna os caminhos de exígua claridade
onde as palavras perdem o sentido.


Graça Pires
De Labirintos, 1997

25.2.07

A noite

Ansel Adams

À altura de todas as estrelas
coloco as mãos para tocar o vento.
A lua é um fascínio que deixa atónito
o meu corpo, e lhe dá um cheiro
de fêmea fecundada ; um fogo posto
a deixar um luar, pleno, detido nos meus olhos.
Passeio-me, longamente,
pelo lado mais insensato das palavras
e digo o nome do último pássaro nocturno,
como se nele repetisse um primeiro adeus,
tão súplice, tão magoado.
Um tango exausto sobe-me pelas pernas.
Há, na minha boca, uma rua silenciosa,
por onde se chega à fragilidade dos lábios.


Graça Pires
De Ortografia do olhar, 1996