7.11.22

Memórias de Isadora XXI




Tenho na lembrança um dia frio 
 na costa azul de frança. 

Recordo o uivo dos cães, o cantar dos melros, 
o quebranto que me tolhia os dedos, 
 as folhas do outono terrivelmente belas. 

Meus olhos procuravam e achavam 
uma fatalidade qualquer. 
Como uma premonição, 
um acto sacrificial, 
um chão movediço. 

Pelas sombras possuída 
procurava o inacabado gesto 
de aprisionar a luz em meu olhar, 
quando cobri meus ombros 
com o xaile vermelho 
para enfeitar a vida, 
agora em mim tão extenuada. 

Os sons que se ouviam eram de um tempo 
 nunca mais lembrado, nunca mais esquecido. 

Os cavalos, gritando, vieram no seu trote. 
De meu brilho se tomaram. 
Cavalgaram as ruínas do meu peito 
e meu silêncio sustiveram na garganta. 
O coração, tão breve, ficou suspenso 
por uma névoa que, num instante, se dissipou. 

Devagar bailando. 
Devagar morrendo. 

Graça Pires 
De Jogo sensual no chão do peito, 2020, p. 53-54