7.3.22

As mãos das mulheres

Lourdes Castro

Tão atarefadas sempre, as mãos das mulheres 
ficam por vezes vazias de afagos, 
quase ausentes e indecisas 
no esboço de desejos sem retorno. 
É então que aprendem a atear o fogo 
com a benevolência debaixo da língua 
e inventam um alfabeto transparente 
para descreverem com detalhe 
as madrugadas silenciosas. 
Aquelas que colocam no olhar 
um estremecimento sagrado 
e permitem adivinhar a perfeita simetria de aves 
a rasarem a silhueta das casas. 
Por isso esperam, ansiosas, de olhos colados na janela, 
o regresso dos bandos de estorninhos no fim do verão.

Graça Pires
De Antígona passou por aqui, 2021, p. 35