19.9.22

Uma tempestade no peito

aykut ydogdu

Emigro de mim. 
Nunca ignoro a geometria de agitadas águas 
visível nos seixos mais incertos, 
quando uso um pretexto de fuga 
para percorrer os mares abertos, 
costeiros, ligados à terra. 
Uma tempestade inusitada no peito 
decifra a cor indefinida das marcas digitais 
dos que tacteiam a estranheza dos barcos 
com nomes de mareantes 
impressos com sal e sangue. 
Aves marinhas cantam-me nos lábios 
estranhos sinais. 
Risco então em cartas geográficas 
o delírio dos mastros pressentido 
na minha voz navegante. 
Fixo-me às tábuas com nós de marinheiro 
e a carga do navio tem o peso do meu corpo. 
Depois de eu morrer haverá o rumor do meu olhar 
luzente sobre o mar mais intranquilo. 

Graça Pires 
De Antígona passou por aqui, 2021, p. 43