20.10.06

O rio

Norbert Rosing




Onde estivermos, a madrugada
será íntima de veleiros
que transportam a voz do rio,
contemporânea de todos os silêncios.
Porém, não acredites na excessiva
vertigem da corrente.
Tanto azul, só pode ser a cor
dos pássaros marinhos,
improvisando a foz, tão devagar,
que o mar se agita rente aos ventos.


Graça Pires
De Ortografia do olhar, 1996

19.10.06

Não presto contas a ninguém


Peter Wileman



Não presto contas a ninguém. As frases, já velhas,
suspendem intrigas de circunstância. Com algas
plantadas à cintura para equivocar os navios,
assinalo no mapa o lugar onde o sol, ao nascer,
torna visível qualquer sinal de ausência. E vou por aí,
ao sabor do vento, com a lua a pique nos sentidos.
Aconteça o que acontecer, amor, protege a minha fuga
com o teu olhar. Um sonho não se toma sem luta.
Sabem-no as tuas mãos inquietas de ternura.


Graça Pires
De Uma certa forma de errância, 2003

17.10.06

Quero uma casa com paredes azuis


William G. Hartshorn
Quero uma casa com paredes azuis,
com varandas vidradas sobre a noite.
Um abrigado lugar no eixo do silêncio.
Um espaço intemporal. Sagrado.
Ancorado perto de um signo lunar,
ou preso a um verão inesperado.
Quero dançar dentro das palavras líquidas:
água, rio, mar, lágrimas,
talvez o orvalho que escorre 

pelas árvores de madrugada.
Quero atravessar uma crónica de viagem,
conspirando contra os profetas 

de marés sobressaltadas,
para não morrer sufocada 

na engrenagem do medo.
Quero ficar seduzida de uma espera,
no imaginário dos que sonham
e gritar a idade circular de qualquer afecto.
Quero amar o pretexto branco dos meus olhos,
sem precipitar a cor translúcida das raízes
que prendem a noite à palidez do sol, 

na sedução do amanhecer
e deixar, depois, que um azul 

extenuado me denuncie.

Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

16.10.06

Em seara alheia


Não fomos donos da terra. Nem eu nem o meu pai.
Talvez apenas se quiserdes agricultores de estrelas.
Meu pai enchia um bornal de astros
e só por levar-me pela mão
o trigo crescia a nosso lado.
Construíramos um rio
que corria por dentro da nossa casa.
Era aí que minha mãe
(que tinha olhos de algas)
plantava os nenúfares do silêncio.
Vinham à tarde os pássaros
à eira
debicar as migalhas de alegria
que minha irmã transportava
nos seus passos (serenamente) trémulos.
E então
os três
donos de todos os mundos da terra
e de todas as palavras que fazem crescer os rios
entreolhavamo-nos.
Minha mãe essa
pacientemente semeava
novos nenúfares de silêncio
a dobar tão devagar os gestos
que as mãos esquecidas do seu húmus
adormeciam.
Meu pai morreu antes de termos plantado
os cravos.
Estava magro
não pôde carregar o seu cantil de estrelas.
E para quê pergunto se ia conversar com elas?
Também minha irmã
não soube aguardar o seu quinhão.
A terra estava dura explicaram
a chuva tardara muitos muitos anos
como esperar assim
boa colheita?
Penso que se encontraram no caminho
cansados ambos e sorrindo
meu pai e minha irmã
agricultores de pássaros e astros vos repito.
Imagino-os agora
sentados num almofadão de nuvens
de mãos dadas
tão mansa e serenamente se olhando
que se doem.
Uma broa de silêncio me ficou
por herança de meu pai.
Minha mãe continuou bordando seu enxoval
de longes
entre os nenúfares da casa.
Vieram hoje buscá-la
no primeiro dia deste novo ano.
O rio da nossa casa secou subitamente.
Um nenúfar ou outro amedrontado resiste.
Não fomos donos da terra repito.
Semeámos estrelas até onde nos bastou o sonho
e a coragem
ou até onde as mãos se não cansaram
de alheado pão que nos restou.
Vou amanhã visitar o meu canteiro de cravos.
Adubá-los duma qualquer palavra
dum qualquer sorriso.
Talvez meu pai minha irmã e minha mãe
sejam hoje donos da chuva.

Hugo Santos

15.10.06

Pelo riso dos lábios

Manuel Alvarez Bravo



Com as precauções a que habituaram suas mãos,
as raparigas tiram os brincos das orelhas
e estendem-se na cama. Depois, é a lua
que lhes enfeita o corpo todo.
E pelo riso dos lábios se adivinha
que há trepadeiras lambendo suas ancas.


Graça Pires
De Quando as estevas entraram no poema, 2005