Seleccionar o ângulo de um rosto, sem lhe macular a luz, como se, a meia voz, pudéssemos reter os múltiplos reflexos do júbilo e das mágoas.
8.12.06
7.12.06
De forma ambígua
Alfred Gockel
De forma ambígua, avoluma-se no chão
a silhueta de uma sedução nunca relatada.
Fixo no espelho uma imagem múltipla de mim.
Comparo-me com quem sou.
Ensaio afectações, até à primordial aparência:
audaciosa, desnuda, porta vidrada
a silhueta de uma sedução nunca relatada.
Fixo no espelho uma imagem múltipla de mim.
Comparo-me com quem sou.
Ensaio afectações, até à primordial aparência:
audaciosa, desnuda, porta vidrada
a todas as intimidades.
Através dos meus poros deslizam enigmas,
cujo fascínio não tem retorno.
Moro num nocturno simbolismo,
porque infrinjo todas as utopias
que me apontam signos luminosos.
É de noite que me sinto orfã de todas as mães.
Graça Pires
Através dos meus poros deslizam enigmas,
cujo fascínio não tem retorno.
Moro num nocturno simbolismo,
porque infrinjo todas as utopias
que me apontam signos luminosos.
É de noite que me sinto orfã de todas as mães.
Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997
6.12.06
A encenação do mito
Picasso
Um pretexto entrelaçado nos dedos
desemboca, concêntrico, na encenação do mito.
Parecia imortal o Minotauro.
Um homem e uma mulher o debelaram.
Entre eles, um fio de fogo a iluminar-lhes
os corpos: terra virgem irrigada de volúpia,
ou bando de pássaros no topo da língua,
reacendendo a noite na alquimia das sombras.
Graça Pires
desemboca, concêntrico, na encenação do mito.
Parecia imortal o Minotauro.
Um homem e uma mulher o debelaram.
Entre eles, um fio de fogo a iluminar-lhes
os corpos: terra virgem irrigada de volúpia,
ou bando de pássaros no topo da língua,
reacendendo a noite na alquimia das sombras.
Graça Pires
De Labirintos, 1997
5.12.06
No deserto nascem os feiticeiros da sede
John BeattyNo deserto nascem os feiticeiros da sede.
Não há sombra que nos salve do lume dos lábios,
ou da sacrílega desordem
com que tropeçamos no passado.
Um ângulo raso de sangue afere,
em redor dos olhos,
o percurso atónito do coração.
O olhar despenha-se na alucinação
da madrugada em cio.
A adolescência duplica-se
no labirinto dos contrastes.
Partilhamos com os deuses
o tribal vinho dos desejos.
Graça Pires
De Labirintos, 1997
4.12.06
Em seara alheia

Explicação do sorriso
A mãe disse-lhe escreve-me
De lá de longe para onde vais
E ela disse não é longe casar
E a mãe sorria cega de dor
E parecia de deslumbramento
Daniel Faria
3.12.06
De braços cansados de remar
De braços cansados de remar, optara, um dia,
por desenhar o marinheiro, com quem fugiu
na direcção do vento. Depois, quando a maré
subiu nos confins do corpo, as suas mãos
naufragaram num mar sem vestígios de barcos.
E uma alegria, adiada de muito longe, doeu-lhe
nos pés, duplamente exilados.
Agora, nas margens da lua cheia, há uma mulher,
em cujo rosto se passeia o lado mais claro da noite.
Graça Pires
por desenhar o marinheiro, com quem fugiu
na direcção do vento. Depois, quando a maré
subiu nos confins do corpo, as suas mãos
naufragaram num mar sem vestígios de barcos.
E uma alegria, adiada de muito longe, doeu-lhe
nos pés, duplamente exilados.
Agora, nas margens da lua cheia, há uma mulher,
em cujo rosto se passeia o lado mais claro da noite.
Graça Pires
De Reino da lua, 2002
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