2.12.06

O meu primeiro livro

Edouard Boubat

Não me lembro da cor dos meus olhos,
quando, em menina, me comovia
com heróis imaginários.
Mas, recordo-me bem, eu fui a princesa
do conto de fadas da minha infância.
Do âmago da emoção a contemplo,

prisioneira do mesmo luar
que me protegia da noite.
Sobre isto, não há lugar
para explicações metafísicas.
Tudo se esgotava naquele
mundo encantado de palavras,
que me apagavam do olhar
todas as sombras.
Depois, perdi a inocência, por descuido,
e deixei de ser princesa.

Blondina era o seu nome.


Graça Pires
De Reino da lua, 2002

1.12.06

Sabe que se pode morrer de solidão?

Dia mundial de luta contra a SIDA


Que mais acrescentar
sem que, nos gestos,
se tornem contraditórias as palavras?
Morrer de solidão.
Ficar exilado neste tempo cercado pelo medo.
As mãos mergulhando o vazio.
As vozes enrouquecendo de cansaço.
Um logro à medida do silêncio,
com nomes adiados sem aviso
e rostos marcados pela angústia :
fisionomias em sangue vivo,
exibindo o solitário instante da morte.
Saber que se pode morrer de solidão
e ficar de luto pela humanidade,
tão frágil e tão desprotegida.


Graça Pires
De Ortografia do olhar, 1996

30.11.06

Do ponto mais alto da minha infância

Karl Soderlund

Do ponto mais alto da minha infância,
talvez se aviste o mar.
Deve haver um lugar,onde os barcos
se encontram para morrer sobre as quilhas.
Quem disse que nunca chega a anoitecer
nos olhos dos que ostentam um grito de aves
no declíneo das pálpebras ?
Com os pés exilados, guardo, no regaço,
os ventos e as sombras, para amparar as dunas:
tão frágeis à hora do poente.

Graça Pires
De Uma certa forma de errância, 2003

29.11.06

É irremediável a solidão

Jean Dieuzaide

Vieram de longe. A pé.
Na hora do sol sem sombra.
E ensandeceram à procura da fonte.
Agora vivem em casas de paredes grosseiras
e vestem-se de luto, à espera da morte.
É irremediável a solidão,
costumam murmurar baixinho.


Graça Pires
De Quando as estevas entraram no poema, 2005

28.11.06

Como se fosse uma dança

Rodin

Como se fosse uma dança, um movimento de valsa,
tomo de assalto a idade do fascínio e dato, com ela,
a cartografia das noites para sempre adiadas.
Sedenta de outras luas, pinto os lábios de mel
e cola-se-me na boca um manifesto poético:
com gestos indizíveis, com mutismos excêntricos,
como se tivesse entre as unhas uma perversão qualquer,
a corromper a forma imprevista das palavras.
A íntima estratégia do olhar exibe, em meus lábios,
um silencioso desafio. Tenho a luz da manhã enrolada
nos olhos, um cheiro a rosmaninho à beira dos dedos
e um pássaro desvairado por dentro do peito.



Graça Pires
De Reino da lua, 2002

27.11.06

Em seara alheia


O jovem mágico

O jovem mágico das mãos de ouro
que a remar não se cansa muito
e olha muito depressa (como se fosse de moto)
veio hoje ficar a minha casa
Vivia longe longe já se sabia
tão longe que era absurdo querer determinar
metade campo metade luz
aí era a sua casa o sítio onde era longe
mesmo de olhos fechados (como ele estava)
e de braços cruzados (como parecia dormir)
o jovem mágico das mãos de ouro
que era todo de empréstimo à minha noite
que falou por acaso que nem se chamava assim
(segundo também contou) tinha vivido há muito
ele, que estava ali, era um falsário
um fugido de outro basta ver os meus olhos
nada sabemos de nós a não ser que chegámos
sem uma luz a esconder-nos o rosto
belos e apavorados de estranhos casacos vestidos
altos de meter medo às aves de longo curso
nem há noites assim não há encontros
ao longo das enseadas
não há corpos amantes não há luzeiros de astros
sob tanto silêncio tão duradoura treva
e não me fales nunca eu sou surdo eu não te oiço
eu vou nascer feliz numa cidade futura
eu sei atravessar as fronteiras das coisas
olha para as minhas mãos que te pareço agora?
No entanto surgiu como simples criança
conseguia sorrir sentar-se verter águas
com as maõs na cintura livre natural
ele que era um fantasma um fugido de outro
um que nem mesmo se chamava assim
o jovem mágico das mãos de ouro
desaparecido nu de todos os sítios da Terra

Mário Cesariny