25.1.08

Um olhar

Menez



Deslaço o nó da garganta
na orla quase obscena da pressa
com que passo pelos outros.
Demoro o olhar nos sonhos alheios
que nunca foram ditos
e, neles reconheço, um por um,
o esboço dos meus.
Posso endereçar um verso
para estancar o sangue nas mãos
fracturadas de tanta ausência.
Posso repetir um nome fraterno
que levede os afectos.
Posso desfraldar, no peito, as tréguas
de uma vida rente à inquietação.
Posso?


Graça Pires
De Ortografia do olhar, 1996
Atenção: no blog Sons da Escrita podem ouvir poemas meus num programa feito por José-António Moreira

21.1.08

Chove perto dos olhos

Whilhelm Leisten


Chove perto dos olhos manchados de errância.
Um dilúvio começa ao largo do desespero.
Pensámos que, de noite, a mendicidade
das mãos passava despercebida.
Partilhámos enigmas e abismos,
procurando uma margem, um horizonte,
ou apenas uma sede
tão imediata como as lágrimas.
Porém, a cidade não consente vadios
à porta do futuro.
Por isso nos abrigámos nos indícios
da casa ou do caos.
Hoje não lamentamos a brevidade dos desejos
porque somos personagens
de uma parábola em sangue.

Graça Pires
De Labirintos, 1997