27.3.22

Em seara alheia



A Casa 

Faz uma casa de areia e conchas.
Pinta-a de cor nenhuma,  
nenhuma porta, nenhuma janela, 
Vivemos na transparência do sonho
Encosto-me à luz quando 
deixamos porções de nós 
coladas, suspensas, 
rentes à pele fina das memórias, 
como mares e instantes. 
Como se tu ainda fosses luz 
em cada degrau, cada aresta, 
cada palavra. 
São rumores de existir. 
Ecos do coração. Retalhos. 
Perdas. Silêncios. Mãos dadas. 
Noites. 
Beijos que o coração devolve.

Lília Tavares.
In: Casa de conchas. Prefácio de José António Falcão. Modocromia, 2022, p. 64