17.1.22

A extensão impossível das palavras



No pausado enredo onde absorvo a estranheza 
de uma meninice reinventada, 
irrompem branquíssimos lírios. 
Um tempo inicial inaugura o fulgente esplendor 
da lembrança em aromas de pretérita pureza. 
E vejo-me. Na extensão impossível das palavras. 
Na desmedida e espontânea alegria. 
Na doçura dos dias sem cuidados. 
Na tremenda adolescência dos desejos proibidos. 
E escuto-me para lá de mim, na fragilidade da voz. 

Hoje acordei e voltei a adormecer no teu colo, mãe. 
A manhã inclinada nos teus olhos purificou-me a respiração. 
Tenho o meu rosto tão perto do teu que, da tua ausência, 
apenas sei que é uma estrela a pulsar no firmamento 
e um fio de luz que procuro em momentos sombrios. 

Graça Pires 
De Antígona passou por aqui, 2021, p. 19