O coração bate em todas as paredes.
Acolhes a intimidade da penumbra,
o cheiro da lavanda em cada canto,
a pulsação do passado.
Quase tocas as faces familiares presas
ao inquietamento das janelas fechadas.
O desvio arbitrário dos dedos
contorna a trama tecida na memória,
sobre os nomes sem voz, afeiçoados à morte.
Insinuada na linguagem do sangue, a casa permanece.
Esta, onde entras para te reencontrares.
Olhas os
móveis. Fitas os olhos no chão
e o soalho range com o aperto do olhar,
como um eco dos teus passos.
Demoras-te. Entregas-te à irrealidade
de pretéritos rumores, ao alarme
de uma distância que não alcanças.
E recuperas o deslumbramento de seres criança
e de saberes que de qualquer janela se pode ver o mar.
Graça Pires
De Antígona passou por aqui, 2021, p. 44
Se alguém quiser ouvir o poema pode fazê-lo aqui:
https://youtu.be/jR7-CMOf1RY