3.1.22

A casa permanece




Colhes uma braçada de alecrim e entras em casa. 
O coração bate em todas as paredes. 
Acolhes a intimidade da penumbra, 
o cheiro da lavanda em cada canto, 
a pulsação do passado. 
Quase tocas as faces familiares presas 
ao inquietamento das janelas fechadas. 
O desvio arbitrário dos dedos 
contorna a trama tecida na memória, 
sobre os nomes sem voz, afeiçoados à morte. 
Insinuada na linguagem do sangue, a casa permanece. 
Esta, onde entras para te reencontrares. 
Olhas os móveis. Fitas os olhos no chão 
e o soalho range com o aperto do olhar, 
como um eco dos teus passos. 
Demoras-te. Entregas-te à irrealidade 
de pretéritos rumores, ao alarme 
de uma distância que não alcanças. 
E recuperas o deslumbramento de seres criança 
e de saberes que de qualquer janela se pode ver o mar.

Graça Pires
De Antígona passou por aqui, 2021, p. 44


Se alguém quiser ouvir o poema pode fazê-lo aqui:
                                            
                                                                    https://youtu.be/jR7-CMOf1RY