3.2.07

A memória da ternura

Marc Chagall

A memória da ternura sobre o teu peito,
como um mel exótico.
Havemos de voltar à polifonia dos pássaros
com olhos de musgo e nenhum rumor
trairá em nós o silêncio das palavras
maduras, porque temos, rente ao rosto,
a límpida inclinação de um lago.
Morreremos apenas quando o amor
nos assustar mais do que a morte.
Agora, abrirei as mãos, para que possas ver
a passagem que vai dar ao rio da tua infância.
Mas, tem cuidado, amor,
porque não há nenhum deus dentro da lua cheia.


Graça Pires
De Outono: lugar frágil, 1993

2.2.07

Ignoro quantos navios partiram

Claude Monet


Ignoro quantos navios partiram,
ao primeiro sinal da estrela d’alba,
presos ao derradeiro sonho.
Venho de lugares onde me corrompi,
para tornar de pedra qualquer culpa.
Quero captar o brilho da sombra,
ou entender, apenas, a indecisão da luz,
com os olhos alagados de paixão.


Graça Pires
De Uma certa forma de errância, 2003

1.2.07

Vamos falar de poesia



POESÍA Y POEMA


La poesía es conocimiento, salvación, poder, abandono. Operación capaz de cambiar al mundo, la actividad poética es revolucionaria por naturaleza; ejercicio espiritual, es un método de liberación interior. La poesía revela este mundo; crea outro. Pan de los elegidos; alimento maldito. Aísla; une. Invitación al viage; regreso a la tierra natal. Inspiración, respiración, ejercício muscular. Plegaria al vacío, diálogo con la ausencia: el tedio, la angustia y la desesperación la alimentan. Oración, letanía, epifanía, presencia. Exorcismo, conjuro, magia. Sublimación, compensación, condensación del inconsciente. Expresión histórica de razas, naciones, clases. Niega a la historia: en su seno se resuelven todos los conflictos objetivos y el hombre adquiere al fin consciencia de ser algo más que tránsito. Experiencia, sentimiento, emoción, intuición, pensamiento no-dirigido. Hija del azar; fruto del cálculo, Arte de hablar en una forma superior; lenguage primitivo. Obediencia a las reglas; creación de otras. Imitación de los antiguos, copia de lo real, copia de una copia de la Idea..Locura, éxtasis, logos. Regreso a la infancia, coito, nostalgia del paraíso, del infierno, del limbo. Juego, trabajo, actividad ascética. Confésion. Experiencia innata. Visión, música, símbolo. Analogía: el poema es un caracol en donde resuena la música del mundo y metros y rimas no son sino correspondencias, ecos de la armonía universal. Enseñanza, moral, ejemplo, revelación, danza, diálogo, monólogo. Voz del pueblo, lengua de los escogidos, palabra del solitario. Pura e impura, sagrada y maldita, popular y minoritaria, colectiva y personal, desnuda y vestida, hablada, pintada, escrita, ostenta todos los rostos pero hay quien afirma que no posee ninguno: el poema es una careta que oculta el vacío, prueba hermosa de la superflua grandeza de toda obra humana!
[...]

Octavio PazIn: El arco y la lira, México: Fondo de Cultura Economica, 1992

31.1.07

Um novelo de rimas imperfeitas

Bea Danckaert

De rosto em rosto, a caligrafia do amor
implorou a memória das palavras encantadas
e, como se houvesse uma linguagem
de atravessar o tempo, acenderam,
sobre os dias, constelações sonoras.
Mas eu, que não adiro aos calendários,
nem acredito em vogais prometidas,
eu parti, de punhos febris,
enlaçando nos braços
um futuro marginal a qualquer lógica.
A posse da noite, onde me quero lua
em todas as fases, leva-me a glosar os medos
num novelo de rimas imperfeitas.
A cidade tem pombas
que me perseguem sem eu dar por isso.
Tenho um aqueduto modelado nos olhos
e um dilúvio vermelho no desenho do peito.


Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

30.1.07

Em silêncio

Manuel Alvarez Bravo

Em silêncio, sempre em silêncio,
as mulheres refazem o penteado,
que as mãos forasteiras
da noite desmancharam.
É a hora do romper do dia.
A cor da madrugada
quase que dói por dentro da pele.
E não fora a urdidura de mágoas
antigas, elas dariam, à paisagem,
o nome de um deus solar.


Graça Pires
De Quando as estevas entraram no poema, 2005

29.1.07

Em seara alheia



Estendo o braço até tocar
a sombra da tarde
- não quero outro exercício
enquanto fragmento de poema –
e é provável que as flores azuis,
que não sei identificar na berma
da estrada, amanhã já lá não
estejam, tão frágil é o meu
entendimento do mundo.
Sandra CostaIn: A Vocação dos Homens Silenciosos. Maia : Cosmorama, 2006

28.1.07

Entre um rosto e um nome

Stephen Alvarez


Entre um rosto e um nome
há bandos de pássaros em ascensão.
Exagero, quase sempre, a morfologia da noite,
no olhar mais que perfeito dos que têm no sangue
o país secreto das paixões.
Coexisto com a vertigem
de tocar a metamorfose da realidade visível.
Dou-lhe a forma de um tempo
que virá configurar o espaço iluminado do silêncio
e exorcizar a intimidade das palavras.


Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997