Seleccionar o ângulo de um rosto, sem lhe macular a luz, como se, a meia voz, pudéssemos reter os múltiplos reflexos do júbilo e das mágoas.
12.4.07
11.4.07
Uma canção de roda na lembrança
No círculo das nascentes,está o enigma materno
da disponibilidade das mãos.
Toca-se um rosto
e há campos ondeando a sede e o trigo,
na pulsação das manhãs.
Embala-se um corpo
e a infância recomeça com múltiplas formas.
Uma canção de roda na lembrança.
Graça Pires
De Labirintos, 1997
10.4.07
A cidade
J.A.HamptonImprovisamos a palavra adequada
para dizer a cidade, alheia e imprevisível.
Todas as histórias do dia a dia se precipitam,
gradualmente, na estrangulada identidade
dos habitantes urbanos.
É por comodidade que saltamos por cima
dos odores, do lixo, da multidão, da indiferença
e contornamos a evasão de um tempo arruinado,
onde nos dizemos ecológicos e solidários,
e nos indignamos, e coleccionamos protestos
com que nos agredimos nas horas de ponta.
Somos, na cidade, os viciados
de um pseudo-conforto que nos inibe de sonhar.
Graça Pires
De Ortografia do olhar, 1996
9.4.07
Em seara alheia

A VARANDA DE JULIETA
Uma vez, entrei em verona para não entrar
em veneza. Entre o vê de verona e o vê
de veneza optei por ver verona. Gostei da
coincidência das consoantes na janela
de julieta; e sei que em veneza não ouviria
o vento da vingança, nem provaria o veneno
de uma volúpia que só em verona se
desvenece com a vida. Não há canais em
verona, como em veneza; nem há janelas
em veneza, como em verona; mas julieta
espreita a rua, da janela que é sua, e se
ninguém diz a senha que só ela sabe, agita
o lenço molhado pelas lágrimas que as
nuvens bebem, levando-as de verona até
veneza, onde a chuva as deita nos canais.
Nuno Júdice
In Pedro, Lembrando Inês, Lisboa, Dom Quixote 2001
8.4.07
O rumo das aves litorais
Jeff GreenbergNos meus lábios, tão subitamente
comprometidos com a noite,
existe um mar alto, onde sulco
remotas lembranças, como se navegasse
todos os oceanos do mundo.
Amanhã serei eu a manejar as velas,
sem que me doam as mãos.
sem que me doam as mãos.
Seguirei o rumo das aves litorais,
como quem troca abraços
para subverter emoções.
Esta noite vi o teu nome estampado
Esta noite vi o teu nome estampado
nas velas de um barco em fuga.
Graça Pires
Graça Pires
De Uma certa forma de errância, 2003
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