24.8.11

Um espesso pó nos aguarda

Walker Evans

Um espesso pó nos aguarda.
Por isso transformamos a ombreira
da porta num braço de mar.
O soalho de madeira faz da casa um navio
onde as ondas iludem a errância do casco
e a geometria das tábuas repete
a simétrica dimensão dos mastros.
Um remo parado significa uma espera
ou a irremediável secura do olhar.
É então que percorremos a casa
e trancamos as portas para que o vento
não seque os olhos alagados
com que regamos o jardim.

Graça Pires
De A incidência da luz, 2011

17.8.11

Qualquer gesto

Munch

Era quase a manhã a sangrar nos pulsos.
Qualquer gesto seria inútil para entoar
todos os silêncios que enchem a noite.
Eu podia esperar à beira-mar o amanhecer
ou os amigos a quem a errância dos mastros
rodeia a garganta.
Podia adormecer sob as águas onde se escondem
as quilhas seduzidas pela voragem.
Podia, eu sei, abraçar os navios
ou ser a asa e o voo das aves solitárias.

Graça Pires
De O silêncio: lugar habitado, 2009

4.8.11

Em seara alheia


Hoje é o tempo
do renascer vigoroso de deusas primordiais
que dão à paisagem
formas tecidas de folhas
é o tempo
do sol sorrir na transparência da água
ou deitar-se manso
sobre ondulantes lençóis verdes
até adormecer no crepúsculo é o tempo
de sentir o brando acordar da brisa
do sereno canto dobrado das aves
que atravessam o eterno espaço
e de gravar na retina o dócil bailado das mariposas
é o tempo
das palavras florirem mágicas
nas sílabas silenciosas da inspiração
para se oferecerem à poesia
hoje é o tempo
de respirar beber e saborear a essência
na existência do segredo da vida

Teresa Gonçalves

In: Pleno verbo. S. Mamede de Infesta: Edium, 2011

25.7.11

Memórias de Dulcineia XXI

Andrew Wyeth

Era lentura o que me cobria
os olhos quando, ao longo
do meu corpo, te ausentaste.
Um vagaroso luto cercou
todos os nomes que te dei.
É de cinza o meu peito.
É de fumo o teu rosto.

Graça Pires
De Uma extensa mancha de sonhos, 2008

15.7.11

A cor cinza

    De A Incidência da luz, 2011

29.6.11

Quando chegaste

Alvarez Bravo

Como se nada pudesse alterar o percurso de uma paixão,
enfeito os ombros de mimosas e mudo de perfume, para
inquietar quem roce os meus cabelos.

Chegaste: trazias nos olhos toda a claridade 
das manhãs da tua infância
e um sorriso de menino triste no contorno da boca.
Chegaste: o meu olhar propício ao teu olhar. 
A marca da sede nos meus lábios. 
Um frio perturbado, coagulando-me o sangue e o sexo.
Chegaste: lembras-te como, em nossas mãos, 
se insinuou um rio e, sem tréguas, os dedos 
deslizaram, lentamente, adivinhando
o começo da nascente em nossos corpos ?

Graça Pires
De Reino da lua, 2002


ATENÇÃO: Há blogues onde não consigo deixar comentários porque não aceitam a conta do Google. Na selecção do perfil falta o item Nome/URL. Não sei se é possível a correcção. Obrigada. G.P.

22.6.11

Em seara alheia


DOEM BRINQUEDOS NAS VEIAS

Por trás da idade nasce a infância,
os brinquedos enferrujados nas veias doem.
As aves que levantam do coração,
adivinham o tempo escasso.
Trazem nos bicos delírios
que pousam no lodo corporal.

Correm crianças no estuário das mãos.
Mergulham nos dedos
e quando o crepúsculo chega
secam-se às impressões digitais.
Levam nas pálpebras castelos de areia.
Só mais tarde,
quando a idade lhes crava a lua na boca
conhecem a calvície dos dias.

Desarrumados na insónia
sentam-se a espiar a infância.
Sonham uma candura nómada
que lhes adormeça a velhice.

Alberto Pereia

In: Amanhecem nas rugas precípicios. S. Mamede de Infesta: Edium, 2011

15.6.11

Junho é o teu mês, filho






No início da
primavera vou encher-te o jardim de amores-perfeitos.

Assim falou meu filho quando janeiro findava.
Eu guardei junto ao coração estas palavras e pensei:
vão finalmente as rosas púrpuras
incendiar o próximo verão?

Graça Pires
De: A incidência da luz, 2011

3.6.11

Há máscaras de lama

                                                                  István Kerekes

Há máscaras de lama cobrindo a astúcia
no focinho das feras sem sono.
Há a ferrugem inflexível dos martelos
na ira dos deuses distantes dos homens.
Há o ostracismo que se vislumbra
nos muros da cidade
onde a ácida solidão das letras
exprime e trai gestos de raiva
queimando os dedos.
A tinta escorre pelas paredes
como se fosse sangue seco
a corroer um percurso de medo
que nenhuma fuga altera.
Depois só resta a sujidade cicatrizada
no tédio de quem passa.

Graça Pires
De A incidência da luz, 2011


ATENÇÃO: Há blogues onde não consigo deixar comentários porque não aceitam a conta do Google. Na selecção do perfil falta o item Nome/URL. Não sei se é possível a correcção. Obrigada. G.P.

27.5.11

Lentíssimo sonho

Manuel Fazenda Lourenço


As flores da macieira ocultam as abelhas
em seu minucioso trabalho.
Espesso é o pólen que a luz da manhã
derrama sobre a terra: lentíssimo sonho
de um pomar antigo.

Graça Pires
De O silêncio: lugar habitado, 2009

20.5.11

Vou no barco de Conrad

Hiroshi Yamazaki

A indiferença das molduras fende,
em minha boca, o asfalto dos dias
e o feixe dos gritos dilatados na garganta.
Um veludo negro atado nos pulsos
lembra-me que o mar não se vê na escuridão.
Por isso vou no barco de Conrad
ao Coração das Trevas na demanda
iniciática das ilhas naufragadas.
Ouço com assombro o narrador.
E sobre o chão da página
me debruço e me procuro.
Um sulco salgado na ponta dos dedos
toca harpas de lodo em minha voz.

Graça Pires
De A incidência da luz, 2011

13.5.11

Em seara alheia



POR VEZES


Por vezes tudo se confunde. As minhas mãos
são sol dentro das tuas e há cintilações nos campos
do Outono onde se guardam nuvens e esmeraldas.
Por vezes tudo se transforma. O céu cansado
mergulha na película dos lagos e adormece
em sono leve rente aos limos e às memórias.
Há um rumor de passos de ninguém e um lamento
de aves sem canto nem asilo. Há um fim de tarde
suspenso nas ramagens das árvores do Verão.
Por vezes sou o Verão a suportar a casa.
Por vezes sou a casa e acolho a sombra.
Por vezes tudo se confunde e sou a sombra.
Por vezes.

Licínia Quitério 
In: Poemas do Tempo Breve, 2011

7.5.11

Maio é o teu mês, filha

Maio é o teu mês, filha.
Teu e das cerejas vermelhas.
Cresceste com o assombro
dos cravos entrelaçados no sonho.
Por isso é de fogo a sede dos teus olhos.

Graça Pires
De A incidência da luz, 2011

29.4.11

Emudecemos

Dorothea Lange

Emudecemos com a noite calada entre os olhos.
Ao alcance dos espelhos colocamos a luz coada
das janelas para que os filhos não busquem
em vão o rosto da palavra, a primeira,
que lhes quebrou os dentes
quando a inocência em plena boca se desfez.

Graça Pires
De O silêncio: lugar habitado, 2009

24.4.11

Voz activa










Canta, poeta, canta!



Violenta o silêncio conformado.
Cega com outra luz a luz do dia.
Desassossega o mundo sossegado.
Ensina a cada alma a sua rebeldia.
                                                  
                                            Miguel Torga



20.4.11

Da paixão e da morte



Só os lírios roxos me são próximos
no lado mais comovido da manhã
quando a luz margina a solidão
dos meus olhos e dos ardis da memória
irrompe o penitente jogo da paixão e da morte.
Vejo uma cruz. Um homem. Uma túnica rasgada.
Uma coroa de espinhos.
Um rosto com sangue pisado.
O suplício das mãos amarradas ao madeiro.
Vejo-me criança assustada.
Os santos cobertos com pano roxo
na obscuridade da igreja.
O soar das matracas na procissão.
O chicote nas trevas da lembrança.
E eu, criança assustada,
a escolher as palavras certas
para rasgar as sombras com minhas mãos aflitas
e quebrar o cristal onde me serviam o medo.
Expia os teus pecados me diziam,
a mim criança assustada pelas chamas do inferno
que perpetuavam todas as culpas.
Agora tenho a voz estranha aos salmos fúnebres.
Ouço Bach em acordes de incenso,
em cantata e requiem. Esconjuro os sustos.

Graça Pires
De A incidência da luz, 2011

13.4.11

Todas as palavras são adequadas


Obrigada, Cátia Azenha


Todas as palavras são adequadas
para evocar os dias
para sempre agarrados
à cal da casa onde nascemos.
Quase nada sei a meu respeito
desse tempo tão claro
em que as sombras eram apenas
a antecipação da noite.
Tento imitar aquela inocência
próxima da brancura dos lírios
e do frémito do rio
abraçando o mar.
Torna-se difícil encontrar os sinais
sobreviventes da memória:
a prata do chocolate
pacientemente alisada,
as velas dos moinhos,
as cerejas carnudas,
a roupa a corar sobre a erva,
a claridade das mãos da minha mãe
carregadas de tarefas e de presságios.

 Graça Pires
 De A incidência da luz, 2011

6.4.11

Em seara alheia



BILHETE-POSTAL


Voltei aos jardins mas nem sombra de nós vi
na face das coisas - somos filhos do instante.
E no entanto que longos me vão os dias.


Por aqui tudo arde. Secretamente.
Uma raposa desceu das terras altas
e morde-me os dedos se tento afagá-la.

Soledade Santos
In: Sob os teus pés a terra, Lisboa: Artefacto, 2010

28.3.11

Acerco-me de Gauguin



Como se uma quimera dobasse
o desalinho dos desejos
acerco-me de Gauguin
para que me cubra o corpo
com o tom terroso dos países
onde a água e o fogo anunciam a sede.
Quero que molde as minhas mãos
com o barro com que se regressa às fontes.
Quero amarrar os pulsos às palmeiras
e deixar que os barcos
fiquem à deriva em meu olhar.
Será imponderável o biográfico equívoco
em que me instalei com olhos de abismo.


Graça Pires
De A incidência da luz, 2011

20.3.11

Talvez existam anjos com olhos de musgo

Manet


Caminhamos por entre as árvores
com a boca a saber a menta e a malvas.
Trazemos nas mãos um herbário
de tão fugaz esperança
que nenhuma outra se tece sem desvios
na dobra do peito.
Talvez existam anjos com olhos de musgo
à beira dos abismos por onde se esgueiram
os dias que nos roubam a eternidade.
Talvez a turbulência verde na borda dos ribeiros
unja de seiva a passagem do tempo.

Graça Pires
De A incidência da luz, 2011

Agradeço a todas as amigas e a todos os amigos que estiveram na minha Festa. Agradeço também a todos os que queriam estar e não puderam.
Bem hajam !

10.3.11

CONVITE

Para ler, clicar (uma vez) em cima da convite
Gostava de vos ver por lá, se quiserem e puderem.

2.3.11

Círculo de mulheres



Veio primeiro o tempo
em que, pela boca das mães,
se conhecia o aroma do leite
e os filhos, de lábios atravessados
pelo mel, moldavam com sangue
o próprio rosto.
Agora, como num feitiço,
as mulheres rodam em círculo
de mãos dadas.
Dentro da roda permanecem os filhos
que elas protegem com o olhar
para que não venha cegá-los a lua cheia.

Graça Pires
De O silêncio: lugar habitado, 2009

22.2.11

No sal de seus olhos

Isidore Pils



Nenhum caminho é acessível
à tremenda brancura da espuma
que as marés enfurecidas enrolam
nos rochedos enquanto os marinheiros
sussurram, entre eles, a demência
das mãos pregadas ao leme,
antecipando a posição das estrelas
no sal de seus olhos.

Graça Pires
De O silêncio: lugar habitado, 2009

15.2.11

Em seara alheia

Seguiam-se momentos obscuros
decifrados nas docas e nos cais.
Os andantes da noite
procuram prazeres mundanos
e instantes propícios às palavras
palavras indizíveis, sem nome
que atravessam o próprio rosto
e circundam as mulheres de fogo.
Atam as mãos em noites de lua cheia
e despem as noites de breu.
Pisam as areias molhadas e rasgam as sombras
com que percorrem lado a lado
o ponto mais alto do silêncio.
Transformando as palavras em navios.

José M. Silva
In: As sombras. Edição de autor, 2010

9.2.11

Tão hábeis os teus dedos



Talvez não seja inútil
colher, ao fim da tarde,
os miosótis plantados
nos teus pulsos: tão hábeis
os teus dedos manejando afagos.

Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

2.2.11

Memórias de Dulcineia XX

Katia Chausheva



Ao longo dos anos conservei
uma inesperada tristeza reflectida
em meus olhos cor da sede.
Pedra a pedra, casa a casa,
sombra a sombra vagueio
pelas sensações e aguardo
que se repitam os sonhos
que resistiram à violência do tempo.
Podia escrever com sangue
o instante, sem amparo,
onde reclinei a cabeça
para aguardar a morte
dos desejos.

Graça Pires
De Uma extensa mancha de sonhos, 2008

26.1.11

Nas casas abandonadas

Ana Pires



Nas casas abandonadas, as silvas
vão tecendo as rédeas do tempo.
A terra inquieta fende o cimento
afagado, desfaz a cal das paredes,
contamina alvenarias.
Um declínio de pássaros na poeira
da tarde, desfoca as mãos
dos que morreram com as árvores.

Graça Pires
De Quando as estevas entraram no poema, 2005

18.1.11

Em seara alheia


Partida


Quando parti ninguém apareceu à beira da pista.
Quando parti as viagens eram coisa simples e banal,
e não este desejo de procurar um sentido para
a mágoa, uma clareira para a ausência, uma fonte
- minúscula que fosse – para saciar aquilo que
se mantém ininterrupta sede. Quando parti estavam

todos atarefados a viajar, mas de outro modo –
voracidade de prestamistas, esbugalhados olhos
onde o tempo é tão transacionável, quanto um futuro
hipotecado ou uma mera jante enferrujada. Quando
parti tiveram logo o cuidado de me avisar que a poesia
nunca salvara ninguém, que a procura das raízes

(bem como o entendimento de um passado não
acontecido) era coisa tão ridícula quanto obsoleta
para o riso alvar de muitos. Quando parti a buganvília
da moradia em frente estava esplendorosa e havia
um gato a furar a rede. Quando parti uma mulher
no prédio ao lado sacudia um pequeno tapete.

Acenou-me. Sorri. Quando parti imaginei
o escárnio deles, os telefonemas duns para os outros,
as conversas. Quando parti ninguém apareceu
para se despedir, havia apenas: eu, um objectivo
incerto, o teu rosto a reflectir-se ao longe
e o sol a dar de chapa nas vidraças.

Victor Oliveira Mateus
In: Regresso. Fafe: Labirinto, 2010

12.1.11

Gosto de objectos geométricos

Manuel Fazenda Lourenço


Gosto de objectos geométricos desenhados
a compasso por mãos intransigentes.
A multiplicidade dos traços povoa
e despovoa a beleza dos lugares
que nos prendem como se fossemos árvores.
Preciso e exacto será também o momento
em que regressaremos ao silêncio
com passos de cinza.
Calados nos hão-de vigiar os deuses e os homens.


Graça Pires
De O silêncio: lugar habitado, 2009

3.1.11

Em litorais longínquos

Paul Cézanne


Em litorais longínquos
as mulheres deitam-se sobre a areia
junto à rebentação das ondas.
Com os braços em cruz
afastam as embarcações costeiras
e aguardam que a lua inteira
inicie um inesperado bailado
perto de suas bocas.
E não há âncora nem cais
que emudeça o júbilo dos mastros.

Graça Pires
De O silêncio: lugar habitado, 2009

22.12.10

De uma memória tão antiga

Gaudiol


dizer Dezembro como se o mar tocasse a voz
ou dizer uma rosa rubra atravessada
por lábios de luz.
dizer o oriente de uma estrela
e vestir a pele de um poema.
mas a palavra é uma criança tolhida de frio
nos cabelos nevrálgicos que a árvore segura.
e assim amanhecemos, tardios e ébrios
no carrossel que orquestra a cidade
com tambores de solidão.

dizer corpo e ser ponte sábia para o outro lado
e a vida ser tão simples como a mão
que toca a pele da sílaba
de uma memória tão antiga

como as solas de uma infância gasta.
dizer amor, esse fósforo que incendeia
e ser fogueira na nervura da palavra.

despir o olhar desta erosão de distância.
agasalhar os pés e resguardar
o dorso lírico do sangue
como se a um poema de Natal bastasse
o verde inflamado de um arbusto:
o labor inteiro do meu coração de terra.


Luísa Henriques


Um Natal de Luz.
Um ano de Amor.

15.12.10

É do mastro mais alto

Claude Simon


Quando, a breve prazo, a caligrafia
transforma as palavras em navio
é do mastro mais alto que o silêncio
adere à pele como um suor salgado
atraindo o golpe de asa onde a língua se fere.


Graça Pires
Em O silêncio: lugar habitado, 2009

8.12.10

Em seara alheia

BARCO

Este é o barco que navega
Muitos mares
Longitudes
Plenitudes
Âmago
Desânimo
É o barco brando verde
Que me sulca
Me cruza
Interpreta
E me devolve ao cais.


Maria Paula Raposo
In: O verbo ser. Lisboa: Apenas Livros, 2010

1.12.10

Insular

Ana Trindade

Entre o outono e a neve
construí uma ilha
e deixei correr nos meus olhos
a véspera de um rio
e a linguagem absurda das ideias
com identidade suspeita.
Na vertente do corpo
havia um lugar frágil,
onde o cheiro das maçãs
se transformava em orvalho
e as mãos escorregavam
pelo lado morno da voz,
até à represa de um chamamento azul.
Vim do lado sul
de todos os caminhos
que vão dar à sede.
Conheci a turbulência
de um verão intacto
e desenhei a curva
incontornável da lua cheia.


Graça Pires
Em Poemas, 1990

24.11.10

A oriente dos sonhos

Dorothea Lange


Aqui já ninguém se comove
com canções românticas.
Noutros lugares talvez.
Não aqui, onde há homens encostados
ao muro do desencanto,
esperando o fuzilamento da sua sombra
a oriente dos sonhos.

Graça Pires
Em Conjugar afectos, 1997

17.11.10

Canções sem palavras

Pouco a pouco desfolharam-se as rosas
em todos os jardins iniciando o enredo
das chuvas sobre as casas.
Estávamos no mês em que os crisântemos
se tornam mais brancos.
Contra a luz não ousávamos quebrar
o silêncio que na música se abrigava.
Schubert e as canções sem palavras.
O arco da voz preso no violoncelo.
O piano e o rumor sublime dos anjos.
Escutávamos a palavra não dita da sonata:
o azul dos lírios em quintais antiquíssimos!

Graça Pires
De O silêncio: lugar habitado, 2009

10.11.10

Pode ser um grito

Gleb Garanich


Às vezes nascem do silêncio os dedos do medo,
com anéis de falso ouro oxidado pelo brilho
do olhar de quem pressente um luto inesperado
ou um pássaro à beira do sangue.
E sabemos que a morte pode ser um nó
ou um grito ou uma trepadeira enroscada
no corpo ou na lápide onde escreverão
o nome que tivemos.

Graça Pires
De O silêncio : lugar habitado, 2009

3.11.10

Em seara alheia


30.

procura o curso da água
se te acercares do rosto
da cidade.

todos os homens
beijarão as tuas preces à
medida que sobrevives ao
ventre do teu vestido dançando
ao som do alaúde.

retomo o silenciar da romaria
sem, ao menos, chorar as ondas.

Jorge Vicente
In: Hierofania dos dedos. Coimbra, Temas Originais, 2009

27.10.10

A velha nespereira

Ana Pires


Em contraluz, a velha nespereira
tem um perfil de vigília.
Quem dela se aproxima pode ver os múltiplos
ângulos do dia explodindo na ramagem
dando à terra um rosto iluminado.
Ao fundo da noite haverá sempre um luar
marginal com que ilustrarei o poema.

Graça Pires
De Quando as estevas entraram no poema, 2005

21.10.10

Habito a deriva dos labirintos

Paul Strand


Habito a deriva dos labirintos,
com vontade de ser cativa de uma presença,
de um nome, de um aceno.
Sou um peregrino.
Recorto nos pés o caminho da terra prometida,
embora um estranho afecto
prenda os meus passos a um rumo incendiado.
Sou Ícaro rasando, imprudente, um amor proibido.
As minhas asas se fundem no absurdo de sensações
que me levam a um qualquer tormento,
abismo do meu próprio imaginário.

Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

14.10.10

Esperou pela mais baixa maré

Friedrich


Seguindo a linha sinuosa do horizonte,
ele estudou o lento esvoaçar dos pássaros
circunscrevendo o mar.
Esperou pela mais baixa maré
para adormecer sobre as rochas.
Agora, todas as manhãs,
é da sua boca que debandam as aves
litorais em direcção aos ventos do deserto.

Graça Pires
De O silêncio:lugar habitado, 2009