Não há lucidez
nem no percurso
das vítimas, nem no fel dos
carrascos
É essa a
realidade carregada: a compreensão
suicida-se
Quando as frases
correm telegráficas
ou tolhidas pelo
receio de tropeçarem da boca
Não é fácil amar
NÃO É FÁCIL AMAR
Não é fácil amar
depois dos
braços torcidos, das olheiras fundas
ou do marejar de
lágrimas
de quem vê
viscosos vultos
a derramarem
calúnias. não é fácil
que o temor se
despenhe na lama
e disperse todas
as bondades, mesmo aquelas
que ainda
arredam as cortinas das casas
com toda a
delicadeza
Na grande ironia
do sorriso de esguelha
antes de baterem
contra a janela
os corvos saem.
Marília Miranda Lopes
In: Victorianas. Labirinto de Letras, 2015, p. 62-63


























