Para a Graça Neto
Deixem-me só. Quero chorar como se me doesse
o joelho esfolado no jogo da bola
quando quase nada mais tinha para chorar.
Quero tapar a cara para rir à gargalhada
do pavor que a escuridão me causava
quando quase nada mais me assustava.
Deixem-me só.
Porque agora não há pássaros silvestres
a conceber em seu gorjeio o colo carinhoso
onde me aninhava na hora da brincadeira
e são de queixume as sombras
que me assustam quando a periferia da noite
declina sobre os meus medos.
Graça Pires
De O improviso de viver, 2023, p. 19
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