23.10.08

Memórias de Dulcineia VIII

Balthus
Repito as palavras.
Lentamente as pronuncio.
Tão límpidas que me dói dizê-las:
Ela batalha em mim
e vence em mim
e eu vivo e respiro nela.

Guardo as palavras,
secretamente,
como quem esconde,
com pudor, o lado
mais sensual do corpo.
Guardo as palavras.
Assombro-me com elas.
E choro a meio da noite
com os olhos carregados
de inocência.
Como se fora uma criança.


Graça Pires
De Uma extensa mancha de sonhos, 2008

20.10.08

Em seara alheia


tinha a sopa a arrefecer e a mãe chamava.
tremiam-me as pernas no complicado anseio
de saber se ela estava. já não me lembrava do nome.
rosalina seria. era quase um instante quando o lençol
era aconchegado no pescoço. eu não sabia.
poderia ser maria ou carmo ou antónia.
mas não. acho que era rosalina e de mãos atadas
no silêncio da mesa, eu achava que era morna
a lembrança. sabia que o momento não era próprio.
e eu ainda com as meias até ao joelho
e uma fita nos cabelos. descia a mão
até ao princípio do dia.
e a luz chegava para cegar de medo o meu sono.
e os dedos aconchegavam as pernas.
e as mãos no destino húmido do desejo.

Maria Quintans
aqui
In: Apoplexia da ideia, il. João Concha. Lisboa: Papiro, 2008

16.10.08

Sabor a romãs

Manuel Fazenda Lourenço

Fico à entrada do outono cativa de hábitos estivais.
A palidez do sol arde nos beijos dos adolescentes
e tem um acentuado sabor a romãs.
Apetece cantar até à extenuante cor
dos campos lavrados e nenhum calendário
mudará o clima que os meus olhos reclamam.
Sei hoje que o amor e a morte são a matéria
preferida dos que pernoitam debaixo
de roseiras bravas e sabem
que tanto as garças como os papagaios de papel
voam sempre mais alto no outono.
Vou no vértice desses bandos
numa migração de risos transparentes.


Graça Pires
De Outono: lugar frágil, 1993

13.10.08

Alguns apontamentos

Paul Strand


Antes que a memória me apanhe desprevenida,
tomo alguns apontamentos de lavoura:
os cestos de vime escondem os sobressaltos
do vento de outono, no meio do azinho
cortado no verão;
os sulcos de trigo inquietam-se
com as chuvas estivais, quando os guizos
das cabras soam de nordeste;
um temporal pode explodir no bico dos melros,
se o tempo das cerejas sair do calendário,
ou o sol não brilhar no mês de março;
na próxima floração acenderemos o forno
e o pão que comermos será caseiro.


Graça Pires
De Quando as estevas entraram no poema, 2005

9.10.08

É possível

António Carneiro

É possível que já não haja pássaros
a esvoaçar em torno das palavras
com que calei
o desespero das manhãs
quando tinha do cosmos
uma visão romântica.
Hoje nasce-me no olhar
uma luz quase cruel
com que ilumino
a linha de sombra
que me cerca as mãos.


Graça Pires
De Uma extensa mancha de sonhos, 2008

6.10.08

A cidade

André Kertész

A cidade designa-se pelo desassossego
impregnado de histórias errantes.
Multidão anónima, individual, insondável.
Geografia de uma orfandade interior.
Paradoxal labirinto de aves migratórias.
Nenhum caminhante se esquiva à nitidez
da noite sitiada pela própria sombra.
Pé ante pé, a intimidade refugia-se
nos olhares povoados de afeição
e desdiz o rumor do medo
com um gesto de aconchegar palavras.
A cidade é o epicentro de uma confidência
partilhada por quem sabe manipular o silêncio.


Graça Pires
De Labirintos, 1997

2.10.08

Em seara alheia



ARCANO

As altíssimas torres
foram trespassadas por pássaros
alucinados. Um deus ofendido
pelos povos terem inventado
os dicionários, para fugir
ao castigo de Babel,
fez explodir essas formas
de arranhar o céu, sacrificando
milhares de vítimas. Algumas lançaram-se
das alturas, na fuga às chamas
para a enganosa respiração
da manhã. Consta que deus,
disfarçado de mortal
se escondeu nas montanhas.

Inês Lourenço
In: A Enganosa Respiração da Manhã. Porto: Asa, 2002

29.9.08

Memórias de Dulcineia VII

Goya

Quero que me devolvam o meu riso.
Inocente ou perverso, pertence-me.
Ouço-o, ainda, pela infância
fora quando ecoa na remota
memória da alegria.
Ouço-o na hora
de desocultar segredos,
golpeando palavras
ou inesperados silêncios.
Ouço-o, mesmo sabendo
que já não é possível
forjar, na voz, o breve instante
que vai do espanto
à original pureza do olhar.


Graça Pires
De Uma extensa mancha de sonhos, 2008

25.9.08

À míngua de um abraço

Henri Cartier-Bresson

Como por aqui se afirma os rouxinóis saltitam
de árvore em árvore com medo da morte
dissimulada nos ramos das figueiras mais estéreis.
Persigno-me ajoelhada no restolho entretecido
pela meia-luz do poente.
A fonte que me atravessa a boca
confina, agora, com a mágoa das mulheres
que, à míngua de um abraço, envelheceram.


Graça Pires
De Quando as estevas entaram no poema, 2005

22.9.08

Reencontro com o Outono

Gérard Castello Lopes

Reencontro-me com o estado primitivo
do outono e deixo-me seduzir
pelo paradoxal destino das gaivotas.
Dentro das minhas mãos ávidas de ter
encalham navios vindos de todos os mares.
Depois exibo nos pulsos as marcas
de naufrágios inexplicáveis
enquanto percorro um cenário vazio
no mutismo de árvores que se despem
lentamente com o sopro magoado do poente.

Graça Pires
De Outono: lugar frágil, 1993

18.9.08

Apesar da sede

Picasso
Tudo podia ser mais simples.
Mas a infância fica tão longe
e os espelhos começaram
a gritar-me uma inocência
que deixou de ser minha
para sempre.
O que quero dizer
acompanha, devagar,
o movimento do sol.
E são cada vez mais lentos
os passos que me levam
na direcção das nascentes.
Apesar da sede.


Graça Pires
De Uma extensa mancha de sonhos, 2008

15.9.08

Em nome do teu nome

Alvarez Bravo

Em nome do teu nome, invoco o sul do silêncio
e arrimo o corpo ao vagar dos teus dedos.
Depois, deixo que me invadas, poro a poro,
que me cerques, me sacies e que a luz ilícita
dos teus olhos me ajuste ao teu abraço.


Graça Pires
De Quando as estevas entraram no poema, 2005

12.9.08

Em seara alheia



Não sei como dizer-te que a minha voz te procura
e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
esplêndida e vasta.
Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos
se enchem de um brilho precioso
e estremeces como um pensamento chegado. Quando,
iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado
pelo pressentir de um tempo distante,
e na terra crescida os homens entoam a vindima
– eu não sei como dizer-te que cem ideias,
dentro de mim, te procuram.

Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros
ao lado do espaço
e o coração é uma semente inventada
em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia,
tu arrebatas os caminhos da minha solidão
como se toda a casa ardesse pousada na noite.
– E então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.
Quando as crianças acordam nas luas espantadas
que às vezes se despenham no meio do tempo
– não sei como dizer-te que a pureza,
dentro de mim, te procura.

Durante a primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto
correr do espaço –
e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra cai da curva sôfrega
dos meus lábios, sinto que me faltam
um girassol, uma pedra, uma ave – qualquer
coisa extraordinária.
Porque não sei dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,
o amor, que te procuram.

Herberto HelderIn: Ou o poema contínuo. Lisboa, Assírio & Alvim, 2004

8.9.08

Memórias de Dulcineia VI


Não vislumbro
qualquer sinal de enleio
nos meus ombros.
Ao longe envelhecem,
em mim, as planícies
cobertas de giestas.
E lembro os dias
em que ouvia falar
de um homem:
quase um peregrino,
quase um nómada,
quase um louco.
Um homem deambulando
no rumo dos animais bravios
que povoavam sua mente.
Uma vasta mancha de sonhos
me perturbou para sempre.


Graça Pires
De Uma extensa mancha de sonhos, 2008

5.9.08

Nenhum tumulto

Rachel Giese
Nenhum tumulto denuncia a hesitação
das mãos colhendo os frutos.
Apenas o restolhar das folhas
no extremo do estio, chora,
em surdina, a privação do sumo
e da polpa, no bico dos pássaros.

De Quando as estevas entraram no poema, 2005

2.9.08

Penélope


A pouco e pouco, aloja-se-me
no coração a cicatriz da espera.
Alheio-me da minha cronologia
porque o passado se tornou permanente.
Caminho tão perto do mar,
que Ulisses avalia a direcção
do vento pelos vestígios
do meu respirar, lento ou apressado.

De Uma certa forma de errância, 2003

29.8.08

Neles me reconheço

Menez

Quando identifico os passos
dos que vagueiam sem endereço
e neles me reconheço
entendo por que há aves que cegam
com a transparência do orvalho.

De Uma extensa mancha de sonhos, 2008

26.8.08

Em seara alheia


Precisava de falar-te ao ouvido
De manter sobre a rodilha do silêncio
A escrita.
Precisava dos teus joelhos. Da tua porta aberta.
Da indigência.E da fadiga.
Da tua sombra sobre a minha sombra
E da tua casa.
E do teu chão.

Daniel Faria
In: Poesia. Vila Nova de Famalicão, Quasi, 2003

22.8.08

Ariadne


Ariadne nada sabia da morte.
Quis ter a eterna idade das águas.
Naxos foi o exílio
onde levou aos olhos a curva do luto.
Sobre as rochas desabou a noite,
impregnada de paixões.
E o silêncio a chamou de muito longe.


Graça Pires
De Labirintos, 1997

18.8.08

Poema de amor

Manuel Fazenda Lourenço

Enquanto os meus passos procuram
nos teus a ressonância da alegria
e ambos reconhecemos a luz fascinada
do olhar, dá-me a tua mão.
O nosso caminho não é a tristeza,
nem a raiva, nem o medo.
O rio conhece-nos a voz
porque transportamos no coração
pássaros em chamas e vagueamos lado
a lado, sem tempo, sem idade.
Um desvio de malícia denuncia
a suspeita cumplicidade da brisa
que nos brinca no rosto.
Uma densa névoa lambe,
tumultuada, a pele da noite,
Ao amanhecer, quase inesperadamente,
far-se-à verão em nossas bocas.
O teu nome e o meu nome serão frutos
de esperma e saliva presos à língua.
Os teus olhos : inquietos,
deslumbrados, transparentes.

Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

14.8.08

Na data prevista

Maurício Abreu

Na data prevista, agosto arde
e nem sequer uma sombra indaga
a desolação da terra nos montados.
Os pássaros trancam o verão em suas asas,
acenando à luz coalhada das nascentes.
Um sorriso, ajustado ao abandono,
envelhece nos olhos das crianças.


Graça Pires
De Quando as estevas entraram no poema, 2005

11.8.08

Memórias de Dulcineia V

Alvarez Bravo


Ponho nestas memórias
a íntima clandestinidade
dos amantes.
Hei-de dizer o nome
de quantas aves se perderam
por roçarem o vazio da noite
em vagaroso voo.
Hei-de ocultar a cara
próximo de uma fonte,
para colar a boca
ao trilho das chuvas.
Hei-de cercar com águas
nocturnas o lume dos seios.
Depois, sei que vou estremecer de aflição,
quando o ranger das portas se confundir
com o chamamento da tristeza.


Graça Pires
De Uma extensa mancha de sonhos, 2008

7.8.08

Se viesse do mar

Maicar Förlag
Se viesse do mar o silêncio
transparente desta mágoa,
eu podia desenhar
um barco para fugir,
ou esperar que a maré
levasse a água
que outras sedes me trouxeram.


Graça Pires
De Uma extensa mancha de sonhos, 2008

4.8.08

Em seara alheia


Franz von Suppe:
Poeta e Camponês

A jovem camponesa que faz versos.
Não os passa ao papel porque não sabe escrever,
mas diz que os preserva em cada árvore que vê,
e na chuva que cai,
e no sol que se põe.
Uma pequena erva pode ser um poema,
ou a água que corre no leito de um ribeiro
onde uma luz se esconde ou uma sombra vibra.

Como cuidar da imperfeição
senão sofrendo pelo que é perfeito?

Às vezes – diz ela -, passa-me pela cabeça
uma onda de música que não tem lugar
e eu sei pertencer a um mistério sem nome
que dói no coração muito devagar.

Amadeu Baptista
In: O bosque cintilante, Maia: Cosmorama, 2008

30.7.08

Do lado do rio

Carlos Botelho

Escrevo trovas no vértice de uma dança.
Sulco toadas, verso a verso,
no eixo dos meus pés.
A manhã começa do lado do rio.
Imperceptível. Tangível ao fascínio.
Olho os outros com a ritualidade
de quem permuta o sorriso e o risco de viver.


Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

25.7.08

Memórias de Dulcineia IV

Vermeer
Indecisa, seguro entre as mãos
a carta que um dia recebi:
sem remetente, sem data,
sem perfume.
Com uma haste de fogo
a queimar-me as pálpebras,
eu leio:
dia da minha noite,
prazer da minha mágoa,
norte dos meus caminhos,
estrela da minha ventura.

Os meus lábios, lentamente,
tocando as letras, lambendo
o sonho impresso no papel.
Um aroma de jasmim
devassando o ar.


Graça Pires
De Uma extensa mancha de sonhos, 2008

21.7.08

O mais secreto brilho do verão

Rachel Giese


Acordei assustada: tinha cortado
os pulsos para matar a sede.
Agora que a sede sangra nos meus lábios,
devoro, gota a gota, o hálito da terra,
ou o cheiro dos morangos,
ou, apenas, o sangue das palavras.
E arrasto o dia pelas sombras,
bebendo, devagar, o mais secreto
brilho do verão.


Graça Pires
De Quando as estevas entraram no poema, 2005

16.7.08

Memórias de Dulcineia III



Quando fui ao teu encontro
levei no decote
um rebento de alecrim
para que me avistasses
pelo aroma.


Graça Pires
De Uma extensa mancha de sonhos, 2008

12.7.08

Em seara alheia



Nau de sonho

Quase roçando a areia, tão beijada
pelas ondas do mar, serenamente,
à luz avermelhada e fulva do poente,
eu paro... passa a minha nau doirada.

É nau forte a errar no mar fulgente,
coberta de luzes a amurada...
Pelo sopro das ondas embalada
parece o amor no coração da gente.

É nau de sonhos, um sonho enorme em flor,
buscando as horas mágicas de cor
em que o sol morre e sente-se a verdade.

Oh minha nau doirada espera um pouco
levas ao leme um timoneiro louco
e fica meu coração doendo de saudade.

Otília Martel
In: Menina Marota : um desnudar de alma. Lisboa, Papiro, 2008

7.7.08

Um rio nasce perto dos lábios

Edouard Boubat


Um rio nasce perto dos lábios
de quem improvisa a sede,
ou sabe usar as mãos para colher
as primeiras amoras do verão.
Às vezes, os frutos derretem-se
na boca, queimando a língua de prazer.
É assim que os amantes se redimem
de consentidos silêncios.


Graça Pires
De Quando as estevas entraram no poema, 2005

3.7.08

Retrato improvisado

Picasso

Por dentro da tua voz, posso adivinhar
a cidade longínqua que te perturba o rosto.
Vieste de todos os lugares onde as emoções
se expõem do lado da desordem,
e chegaste com os pássaros transparentes
que, agora, repousam nos teus olhos:
água ou mágoa, a juntar os pedaços da tua sombra,
repartida por quantos silêncios te cercaram?
Não. Não te ausentes ainda.
Deixa-me reaver todo o júbilo das mãos,
na curva do teu peito, onde vejo uma pátria
cor de trigo, que me aquieta o corpo.


Graça Pires
De Ortografia do olhar, 1996

30.6.08

Em seara alheia

QUE FORMALISMO?

De lamber as palavras como se
rasas de silêncio elas fingissem
e não se trucidassem contra o vento
e não voassem fundo
e não ferissem?

De afagar as palavras como se
um aguçado arame não
nos arranhasse
e não despisse em nós
a veste que se cola,
a casca da aparência?

De alisar as palavras como se
não fosse duro e fundo
o solo de onde partiram
e o lancinante grito
que lá mora?

É sempre um homem que
por elas fala,
é sempre um coração
que aí adeja!

João Rui de Sousa
In: Quarteto para as próximas chuvas. Lisboa: Dom Quixote, 2008

26.6.08

É um verso

Claude Monet


É um verso, toda a luz filtrada pelo olhar,
quando me surge, das mãos, um barco desvairado.
Vozes longínquas me interrogam sobre a tinta
azul impressa nos meus dedos: são os mares
da Odisseia a inundar-me a garganta ;
são citações de Homero oscilando
em meus lábios; são, não sei que aves
marinhas, no estuário das mãos.
Como quem usa a luz para esconder as sombras.


Graça Pires
De Uma certa forma de errância, 2003

22.6.08

Memórias de Dulcineia II

Daniel Garber
Ninguém imagina
por quantos lugares
a noite me encontrou
em retirada.
Comecei a ler romances de cavalaria
para não temer o peso da saudade
que se me alojava na alma.
Prendi à cintura o cheiro
do feno e da alfazema
e deixei que as minhas ancas
tomassem a forma dos moinhos,
para que o vento se inquietasse
com a minha sombra.


Graça Pires
De Uma extensa mancha de sonhos, 2008

18.6.08

Ganho asas

Yousuf Karsh

Quase tudo é previsível.
O dilema total é escapar
do calendário dos profetas.
Solto-me. Ganho asas.
Estou no século dos abismos,
mas não quero outra idade.
Interpreto todas as parábolas
para encontrar um pormenor
que sancione a minha biografia.
Habituo-me à ideia do jardim
abandonado nas pálpebras
de fisionomias ao acaso.
Um fio de água emoldura
a sombra de Ícaro,
para que permaneça intacta
na memória do sol.
Tão súbito um estribilho de aves no meu riso.


Graça Pires
De Labirintos, 1997

14.6.08

A hora propícia

Picasso

Esta noite, do lado mais encoberto do rio,
acercarei o meu corpo do teu.
A hora é propícia à perturbação dos olhos,
disponíveis para a luxúria.
Basta que a lua respire a via láctea
em nosso hálito e que as estrelas
povoem de luz o céu da nossa boca,
para que nada silencie a erótica festa
do meu riso acostado à tua língua.


Graça Pires
De Quando as estevas entraram no poema, 2005

9.6.08

Memórias de Dulcineia I

André Kertész


Era tanto o alvoroço dos pássaros
nas árvores mais antigas,
que uma inquieta suspeita
se me ajustou ao coração.
Então tive a certeza que morreste.
Só agora descubro
que esteve ao meu alcance
a tua errância,
a viagem que julguei absurda
e sem destino,
o exílio que abrigavas
dentro do olhar.
Da tua, da minha pátria
te direi: tão ausente de alento,
tão ausente de sonhos.


Graça Pires
De Uma extensa mancha de sonhos, 2008

6.6.08

Os dias de Junho

Robert Doisneau


Neste lugar, onde as giestas
derramam o mel junto aos caminhos,
medimos os dias de junho
pelo exacto despertar do horizonte,
quando os homens se levantam
para soltar o gado
e, por dentro dos seus olhos,
a lua se esconde, perturbada.


Graça Pires
De Quando as estevas entraram no poema, 2005

2.6.08

O mar



Sem hora marcada,
os navios passam ao largo das ondas.
Nenhum mar existe sem a silhueta dos mastros,
para chorar os peixes verdes em extinção.
De tão ausentes, as naus esqueceram
o orgasmo das marés
e permanecem, exaustas,
na memória das conchas.


Graça Pires
De Ortografia do olhar, 1996

28.5.08

Os aloendros

Manuel Fazenda Lourenço

Falta, ainda, dimensionar o canteiro
de rosas brancas, frente à porta,
para que se conte, do amor, outros segredos.
Não tenho pressa. Vou abrir as portadas
de madeira, fazer compotas, ajeitar
a dobra do lençol. E deixar alagar,
em tuas águas, os aloendros
que crescem nos meus braços.


Graça Pires
De Quando as estevas entraram no poema, 2005

23.5.08

Escrevo rio



Somente a minha sombra
atravessou comigo
o brilho das manhãs
cativas do meu próprio espanto.
Em meus lábios,
tão repousados de beijos,
ocultei a sede
e nenhum horizonte
me apontou um rumor
de nascente.
Por isso, hoje,
escrevo rio
e um estuário
nasce-me nos olhos:
curso de água
à beira do verão.


Graça Pires
De Uma extensa mancha de sonhos, 2008

18.5.08

Em seara alheia


Debaixo do sigilo

o teu cabelo chove nas minhas mãos. e não vens
ainda sobre a terra. sabes a tempo imóvel e rios
sustenidos. dizes a paisagem como os anjos. as
palavras escorrem da boca uma das outras. e eu
escrevo a tarde que não cai. inscrevo na morte a
nossa eternidade. espero à noite ser uma mulher
por dentro de um homem. um pássaro ancorado
na aorta de deus. que o nervo da morte repugna.

Alice Macedo Campos
In: O ciclo menstrual da noite. S. Mamede de Infesta: Edium, 2008

15.5.08

Foram embora os pássaros



Foram embora os pássaros.
Foram embora,
procurando um tempo
onde a luz deflagre em suas asas.
O seu inevitável regresso
há-de acompanhar
a rotação dos ventos.
E quando, nos meus ombros,
nenhum excesso de solidão
me mutilar os braços,
eles hão-de chegar, de novo,
como um incêndio.
Os pássaros.


Graça Pires
De Uma extensa mancha de sonhos, 2008

11.5.08

A suspeita de um poema

Imogen Cunningham

Acordei com a suspeita de um poema
a pontuar a manhã.
Quantas vezes a palavra se demora,
e dói, e deixa na voz uma rara ansiedade.
Sei, agora, que esta imensa luz
passa no meu rosto, inesperadamente,
quando deixo que a noite cresça
por dentro do meu corpo,
como se fora fogo posto.

Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

7.5.08

Como se viesse o anjo

Leonardo da Vinci

Fecho-me no quarto.
Há demasiada luz
espalhada nas paredes
como se viesse o anjo
que anuncia a extinção
das sombras.
De meus lábios,
interditos a preces,
sai uma canção antiga,
um chamamento
à flor da boca.
Um fulgor suspenso
de meus olhos
tece, sem limites,
o tempo da infância.
Como se me perseguisse
um sonho intacto.


Graça Pires
De Uma extensa mancha de sonhos, 2008

4.5.08

Todas as mães do mundo

Ansel Adams

Em direcção a um inequívoco conforto,
corro pelos sulcos dos olhos da minha mãe:
planície imensa onde rebolo a infância
e deixo fugir os sonhos enrodilhados na esperança.
A minha mãe: lua cheia de aconchego, rio quente
onde posso albergar o pânico de ter crescido.
Transponho para o coração um tempo mítico,
como uma história de muitos séculos,
perturbadoramente gémea de um futuro
protegido por todas as mães do mundo.

Graça Pires
De Outono: lugar frágil, 1993

1.5.08

Há noites



Há noites em que morremos de tristeza,
à espera que uma estrela nos rebente no olhar.
Depois, pela manhã, amontoam-se-nos, na boca,
gritos de combate, como se tivéssemos, no colo,
uma criança correndo perigo.


Graça Pires
De Quando as estevas entraram no poema, 2005

27.4.08

Lembras-te?

Ruth Burke

Se eu viesse do mar, falaria do vento,
do sol inclinado para o sul,
ou da sombra azulada das gaivotas.
E diria: o teu corpo é um mastro
afundado em minhas águas.
Mas, retenho nas palavras
o lugar da vertigem.
E recordo. E recordando digo:
Foi no princípio do mundo.
De seda se vestiam minhas ancas
De aconchego se tomavam nossas mãos.
Lembras-te?


Graça Pires
De Afectos: amor, 2008

23.4.08

LIBERDADE

Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo


25 de Abril de 1974

Sophia



Conquista

Livre não sou, que nem a própria vida
Mo consente
Mas a minha aguerrida
Teimosia
É quebrar dia a dia
Um grilhão da corrente.
Livre não sou, mas quero a liberdade.

Trago-a dentro de mim como um destino.
E vão lá desdizer o sonho do menino
Que se afogou e flutua
Entre nenúfares de serenidade
Depois de ter a lua!

Miguel Torga

20.4.08

Refaço a espera

Degas

Veio, devagar, um pássaro
sobrevoar minhas mãos
tão adiadas das tuas.
Refaço a espera.
Digo o teu nome para que voltes.
Foi secreto e breve o nosso encontro.
Nenhum registo o mencionou.
Vieste, lembro,
como quem vem por uma noite:
ansioso e clandestino
Esqueci já o lugar.
Não o brilho dos teus olhos.
Uma sensata loucura
me tornou cúmplice
dessa paixão quase marginal.
Nunca se viu uma história
onde se ache um cavaleiro andante
sem amores
, disseste,
como quem justifica
o paradoxo de um amor assim.


Graça Pires
De Uma extensa mancha de sonhos, 2008