Seleccionar o ângulo de um rosto, sem lhe macular a luz, como se, a meia voz, pudéssemos reter os múltiplos reflexos do júbilo e das mágoas.
8.8.13
Um brilho quase fatigado
Anda uma claridade esquiva
a rondar-nos a casa.
De encontro às vidraças,
um brilho quase fatigado
vai abrindo a noite
à transparência do olhar.
Graça Pires
De A incidência da luz, 2011
31.7.13
Na estiagem
Tão íntimo das nascentes, o verde das veredas
desfaz-se em cinza quando as serranias
ondulam o lume sobre o chão.
Na estiagem há-de ouvir-se o murmúrio
agonizante dos rios já perdidos do mar.
E quando o inverno chegar, os caudais galgarão
as margens se o excesso de cimento consentir às
águas
que firam as casas e a estreiteza dos caminhos.
Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2012
23.7.13
Com o silêncio emboscado na voz
Com o silêncio emboscado na voz
uma mulher atravessou um impossível retorno
rente a horários sem sentido.
Na linha das marés o magoado vértice das sombras
desenhava a solidão dos barcos destruídos.
Como se um frio de aço mutilasse todas as esperas.
Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2012
14.7.13
Pressinto a hora dos naufrágios
Joakim Eskildsen
Sobre a linha do horizonte sulco
a tristeza que se apodera da noite
pela extrema possibilidade da mudez.
Pressinto a hora dos naufrágios
em meus lábios onde rangem
os cascos dos barcos sem rota.
Tenho nos joelhos a turbulência das marés.
E fico com os dedos arroxeados
como se remasse dias a fio
até amainarem os ventos.
Quando a cegueira me exigir,
posso olhar a minha sombra sem medo do luto.
Graça Pires
De A incidência da luz, 2011
7.7.13
Segredo
Manuel Fazenda Lourenço
Sem horas. Sem coordenadas.
Sem pontos de referência.
Sem pressa nem vagar.
Diz só onde me esperas
na véspera do verão que inventaste
para clandestinamente nos amarmos.
Graça Pires
De Cadernos de significados, 2013
29.6.13
Um lugar para morrer
Naquele mês espalhara-se a insólita
notícia
da vinda de andorinhas brancas
trazidas pelos ventos do deserto.
Todas as mulheres subiram às colinas
mais íngremes abandonando as casas,
dias a fio, com o corpo envolto em panos
negros.
Tinham pressentido,
no lentíssimo movimento do voo, que cada
ave
procurava apenas um lugar para morrer.
Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2012
14.6.13
Não falo da importância do brilho
Duane Michals
Nem sempre as janelas oferecem às casas
todas as possibilidades da luz.
Não falo da importância do brilho coado
nas traves, ou do vento espreitando as frestas.
Refiro a transparência consentida às aves
na pressa das cidades onde o voo se faz fuga.
Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2012
8.6.13
A eternidade dos abismos
Menez
Possuímos uma nudez que sangra
no barro da encosta mais íngreme
por onde rastejamos a catástrofe da secura,
tão propícia à perturbação das mãos,
quando no coração do tempo nascer
a véspera de um lamento anunciando
a eternidade dos abismos.
A fadiga das mãos pode apressar
a morte dos afectos, me dirás.
Em redor de um barco
apenas os forasteiros desconhecem
quem se salva, hei-de responder-te.
Graça Pires
De A incidência da luz, 2011
1.6.13
Abandono
Johnny Herman
Para a Elisa Cristina
Marcados por todas as violências
eles afiam
as pontas dos dedos
nos subúrbios da noite
para que nenhum medo os surpreenda.
Eles vagueiam por becos
que cheiram a fogo e a sangue
armados de raiva,
privados de sonhos,
cobertos de abandono.
São meninos da rua,
ou pássaros em
fuga
desafiando a própria solidão.
Graça Pires
De Caderno de Significados, 2013
26.5.13
Como se fosse masculino o criador
As
bonecas de trapos
feitas por mãos de meninas
tinham
tranças de lã amarela
para parecerem loiras.
Como se
fosse masculino o criador.
Graça Pires
De A incidência da luz, 2011
19.5.13
Dádiva
Pedro Pires
Diante do mar dissemos:
a nossa casa será um lugar sem desvios
onde os amigos hão-de vir nos dias
de sol intenso em busca de um recanto
de sombra só disponível nas fontes.
Virão, quem sabe, os filhos
avistar da nossa janela
o azul puríssimo das manhãs
e entranhar no hálito o cheiro
dos limos e do pão.
Virão, quem sabe, os filhos
com os filhos que tiveram
para sabermos que não é tão breve
o coração que temos.
Graça Pires
De Caderno de significados, 2013
12.5.13
De tanto chamarem pelos filhos
Di Cavalcanti
A todas as mães a quem desapareceram os filhos
de cabeça erguida,
como se rezassem.
Ficaram frente a frente
mutuamente se chorando.
E tinham a boca inchada
de tanto chamarem pelos filhos.
Perturbadas com a própria sombra
soltam, todas as noites,
os cães e o desespero.
E nunca mais dormiram.
Graça Pires
De O silêncio: lugar habitado, 2009
5.5.13
Canções guardadas na lembrança
À memória da minha mãe e para a minha filha Ana
Há sons que estimulam
todos os
enigmas,
mesmo os mais
antigos,
tumultuando as
violetas
que secam no
verão
e a dor dos filhos
que dura toda a
vida,
mesmo quando as
mães
guardam na
lembrança
as canções de
acalentar o sono
na inquietude
das noites.
Graça Pires
30.4.13
Em manhãs saturadas de sombras
Josef koudelka
Em manhãs saturadas de sombras
ninguém se reconhece no país
onde os castanheiros velhos não suportaram
a secura que martelou os dias em invisível
combustão.
Rastejamos, então, pelo trilho mais húmido
para que a morte não nos perfure a veia precária
do destino com facas de fogo incendiadas.
Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2012
24.4.13
Liberdade
Dir-te-ei: há cavalos verdes nas margens do
vento arrostando a claridade do dia quando a luz se inclina levemente para um
sul inacessível e a palavra mais livre se abre na voz. Haja o que houver a
liberdade é aqui, onde apertamos a esperança contra o peito.
Graça Pires
De Caderno de significados, 2013
15.4.13
Queria prender no cabelo
Robert Coombs
Queria prender no cabelo
uma haste de sol ou um pássaro,
mas ninguém retirou as trepadeiras secas
para que a hora de verão retocasse a cal
dos muros sulcados pela chuva.
Ninguém indagou o brilho deslumbrado do olhar
quando o golpe da noite desafiava o vulto dos
corpos.
Apenas o azul silencioso dos cumes
se abrigou no regaço onde as meninas
escondem o abraço das mães
para que o mel regresse às colmeias silvestres.
Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2012
9.4.13
A rasar-nos o olhar
É indecifrável a mancha de pinheiros
o âmago da sombra
quando a efemeridade do crepúsculo
rasga devagar o coração dos prados.
Aos muros de paredes cruas
agarra-se impetuosamente
uma figueira-brava.
Um punhal de jade a rasar-nos o olhar
golpeia o brilho do trevo ou da trama
na sorte que nos cerca
Apetece colher todo o verde das maçãs
para que não apodreçam nas mãos da chuva
que voa junto ao chão.
Só os salteadores de estrada
conhecem o segredo das ervas rasteiras.
Graça Pires
De A incidência da luz, 2011
1.4.13
Hesitação
Vladimir Clavijo
Não falarei do voo dos insectos em volta das
sécias coloridas. Não falarei das marés que desalojam os barcos do rigor da
corrente. Não falarei da colcha antiga bordada com lilases sombreados no matiz
das cores. Não falarei das palavras que nos cercam de ruídos inúteis. Não
falarei do remorso enrolado no sorriso das mulheres que envelhecem a sonhar um
destino sem medos. Não falarei. Vou apenas inclinar-me sobre o tempo onde
dançam os anjos com as sombras que me procuram.
Graça Pires
De Caderno de significados, 2013
19.3.13
Convite
Foi uma festa linda! Obrigada a todos os que a partilharam comigo.
Obrigada também aos que quiseram estar e não puderam.
Gostava muito da vossa presença, minhas amigas e meus amigos.
Gostava muito da vossa presença, minhas amigas e meus amigos.
13.3.13
Procuro as tuas mãos. Procuro a tua voz
À memória da minha mãe
Viajo com a
respiração do mar
agarrada ao
tecido do peito.
Foi o vento
que rasgou os ombros da noite
e a boca dos
marinheiros alagada de azul.
Procuro as
tuas mãos.
A recolha das
redes prendeu os meus dedos às fragas.
Em contraluz o
voo das gaivotas
encheu-me de
sal os lábios e a língua.
Procuro a tua
voz.
Graça Pires
De A incidência da luz, 2011
7.3.13
Desafiando o medo
Vladimir Clavijo
Desafiando o medo, elas aguçaram as unhas
na própria sombra até fenderem a nudez
dos gestos arriscados.
A
rigidez das escarpas agravada na fuga.
A
flecha e o arco à entrada da boca.
Os
dedos torcidos no bolor do pão.
A
volúpia tangível à desordem do olhar.
Com
as mãos inchadas percorrem
o
corpo todo para que o fogo e as cinzas
se confundam com a solidão.
Conhecem
a inutilidade das facas no veio do pranto.
E
cismam diante dos espelhos onde, no rigor
das noites, vêem definhar os seios e as pernas.
Graça Pires
De A incidência da luz, 2011
24.2.13
Lentamente
Lentamente.
Como se fossem intermináveis os dias e as luas.
Como se o sedentarismo dos antigos nos habitasse.
Como se cavássemos no coração
o milagre das manhãs.
Como se a terra fosse um espelho
de água ou um coração solar.
Lentamente. Muito lentamente.
Porque basta a urgência de um grito
sem contornos para que a pétala mais ilesa
se corrompa, para sempre, em jardins moribundos.
Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2012
17.2.13
O excesso de luar
A lua abriu um
sulco no telhado
e uma estranha
névoa cobriu todas as casas.
As aves
marinhas alteraram seu rumo.
Algumas
mulheres atiraram-se ao mar
e seguiram as
embarcações
até se
transformarem em gaivotas.
Houve homens
que enlouqueceram
com o excesso
de luar e acorrentaram os filhos
com medo de os
perderem.
Os vasos da
varanda alagaram-se de vento
e os gerânios vermelhos secaram.
As crianças
esconderam-se
por trás dos
espelhos para não verem
o rosto
fascinante da morte.
Graça Pires
De A incidência da luz, 2011
Graça Pires
De A incidência da luz, 2011
10.2.13
O grito dos cumes
Quero guardar no interior das mãos
a esquiva
cintilância das manhãs inadiadas.
Quero palavras
com punhais de raiva
a ferir o
grito dos cumes,
a riscar o
ventre da neve com minuciosas unhas.
E viro do
avesso o manto do olhar
para chegar à Montanha
Mágica
quando Hans Castorp fazia um esforço
para
ver e deparava com o nada,
o remoinho branco do nada.
Graça Pires
De A incidência da luz, 2011
Graça Pires
De A incidência da luz, 2011
1.2.13
Escrevemos mar
Ana Pires
Escrevemos
mar
como se fosse a palavra
única
que nos circunda a fala.
Quando
éramos crianças tínhamos os barcos de papel.
E
havia traineiras em que os pescadores manchados
de
sal e sangue enfrentavam a tormenta de cada dia.
Agora, de quilha inquieta, os navios ferem
as entranhas da água e cingem-nos no olhar
o negro das marés e dos limos
que morrem na praia, onda após onda,
num extenuado
adeus ao apelo dos corais.
Graça Pires
De: Uma vara de medir o sol, 2012
24.1.13
Das mais antigas dores
Josef Koudelka
Do lado distante das noites, a lua acesa
sobre os muros ilumina o rosto daqueles
que sempre entenderam o trajecto
escolhido pelos pássaros e pelos rios
e pelos amigos que nunca voltaram.
Os dias foram cerzindo em seu olhar
o caminho esquecido das mais antigas dores,
onde guardam agora o destino de suas mãos
declinadas sobre as estacas.
Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2012
14.1.13
Um barco que agarre a alvorada
Seguro um marcador lilás para desenhar um barco
que agarre a alvorada em seu instante breve.
Como ajustar aos dedos o rumo da proa
quando as mãos precárias
se entregam ao fascínio das vagas?
Há muito que partiram os caminhantes
em busca de locais desconhecidos
deixando para trás a memória da cal sobre as casas.
Há muito que regressaram os barcos incertos
e os homens: aqueles que abrigavam no olhar
o lugar onde nasceram.
Agora todas as noites podemos ouvir
a respiração dos navios
que costeiam as casas recém-pintadas
como se um regozijo lhes roçasse os mastros.
Graça Pires
De A incidência da luz, 2011
7.1.13
A sedução da fuga
Seguimos pela noite indiferentes
a todos os ruídos que rebentam
o rigor do silêncio.
Temos nos punhos a navalha afiada
do tempo rasgando diante de nós
o túnel da eternidade.
Vamos até onde nos leve a sedução da fuga.
Queremos avistar o destino das aves
que trazem a luz das auroras riscada em suas penas.
Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2012
31.12.12
Cantaremos um salmo pela terra
Temos um quebranto no friso do olhar
e demoramo-nos no canteiro dos amores-perfeitos
para que as mãos cobertas de melindre
sintam a pulsação das árvores em prece.
Em redor da cintura enrolaremos
os sonhos do mundo
e cantaremos um salmo pela terra, tão inquieta
pela aflição dos ventos da montanha.
Uma harpa de chuva evocará as pétalas perfeitas
na ponta dos dedos.
Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2012
Um ano de 2013 cheio de Esperança!
26.12.12
Havia algo de sedução
Temos incrustado na língua o sabor das filhós
de abóbora que nos tornavam aguados
quando todo o conforto do natal
começava e terminava em mãos maternas.
Nenhum aceno lateja agora
nos pomares da infância onde os pêssegos
e os damascos nos saciavam a gula
e as laranjas nos enchiam o regaço.
O colorido dos diospireiros gotejava
o orvalho sobre a folhagem.
Havia algo de sedução no desnível do canteiro
das gerbérias mais próximas da claridade.
Ao longe as frésias envaidecidas
derramavam aromas sobre as tardes
estranhamente longas.
Graça Pires
De A incidência da luz, 2011
17.12.12
Nenhum sonho se repete
Nenhum sonho se repete.
Nenhum deus nasce outra vez
na nossa crença,
nem nenhum céu nos promete
a estrela da manhã
para marcar, à nascença,
um amor profundo.
Já nenhum Deus se compromete a vir ao mundo.
Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997
Um Natal de Amor e um ano de 2013 o melhor possível
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