Seleccionar o ângulo de um rosto, sem lhe macular a luz, como se, a meia voz, pudéssemos reter os múltiplos reflexos do júbilo e das mágoas.
17.2.15
Em seara alheia
Depois poderás dizer que a esperança é um rio
que atravessa os pés de quem anda
descalço sobre as pedras
Gisela Gracias Ramos Rosa
In: As palavras mais simples. Macedo de Cavaleiros, 2014, p. 94
8.2.15
Tão longe e tão próximo do teu nome
Amanda Cass
Para a minha irmã Teresa
As
ondas do mar salgado
andam
correndo à vontade.
Levam
barcas de desejo,
trazem
barcas de saudade.
Cantiga de roda.
Tempo de criança: tão longe
e tão próximo do teu nome.
Tempo que já não volta.
Que tiveste de inventar para ser teu.
Como quando o odor dos limos
benzia tuas mãos até à inocência
dos gestos mais discretos
e escondias, debaixo do travesseiro,
o teu olhar verde-mágoa.
Graça Pires
De Espaço livre com barcos, 2014
1.2.15
Um mar a inundar-te o olhar
Katia Chausheva
Para a Marta López Vilar
No ventre da tua mãe começaste a amar as
águas.
E soubeste como se abrem os diques da pele
para jorrarem em litorais onde explodem
as marés assediadas pela lua.
Depois quiseste ser cais e barco,
âncora e vela, abrigo e naufrágio.
Tens agora um mar aberto a inundar-te o
olhar.
Para sempre.
Graça Pires
De Espaço livre com barcos, 2014
24.1.15
Em seara alheia
Chamei-te mar
No mais íntimo da pele
desgrenhei o vento
para te desassossegar os cabelos
escrevi na água
da chuva
para ver
como as palavras
se desmoronam
No mais íntimo da pele
lá estavas azul
tão azul tão azul
que te chamei mar
e já é tanto
18.1.15
Deixaste que o rio te levasse
Falavas
longamente de um rio, mãe.
Um
rio com pedras tão brancas que cegavam.
Para
o encontrares pisaste todos os vales,
doaste
à paisagem a cor dos teus olhos:
tons
de mel, tons de mágoa, tons de chuva.
E
deixaste que o rio te levasse.
Depois
disso, mãe, em todas as margens
se
avistam aves muito brancas
que
atravessam o olhar alarmado das mulheres.
Graça Pires, 2015
8.1.15
A inundar todas as mágoas
The Economist
Só em frente ao mar
posso inquirir e afirmar
ao mesmo tempo a lonjura
da enchente que começa
na cavidade do olhar
e se faz linguagem líquida
a inundar todas as mágoas.
Graça Pires
De Espaço livre com barcos, 2014
3.1.15
Em seara alheia
Geometria
Medir a terra
a régua e esquadro
e traçaria o limite
do justo e da
beleza.
Aos homens a privação
do agir livre, da decisão
de que são senhores.
Medir a terra
a régua e esquadro
é castrar a lonjura
do possível.
Quebrem-se as réguas
os esquadros e as linhas
que nos cercam.
Aos olhos de quem nos mede
a terra não tem medida.
26.12.14
Música
Federica Erra
Falaste-me de Bach com o entusiasmo
de um
menino que conhece um tesouro
e sabe onde está escondido.
É a
juventude da música, me disseste.
É um compositor exímio, repetiste.
Nesse
dia ouvimos Bach.
E foi como se eu o ouvisse pela primeira vez.
Graça Pires
De Caderno de significados, 2013
Desejo a todas as minhas Amigas e a todos os meus Amigos um ano de 2015 MELHOR
15.12.14
Somente porque é Natal
Somente porque é Natal
ele veio nascer à minha porta
como se fora eu a sua mãe.
É de linho o pano que cobre
meus braços,levemente
encurvados, para neles caber
o berço de embalar
o menino sem presépio.
A pausa do vento
a preparar a neve
lembra-me o desamparo
de outras crianças, tantas,
a quem a fome quebranta o choro.
E digo: venham habitar para sempre o meu poema
como se fossem meus filhos.
Graça Pires, Natal 2014
Ao silêncio que guardamos no coração
juntemos um cântico de Luz.
Porque amamos a Vida.
Porque desejamos a Paz.
UM NATAL DE AMOR PARA TODOS!
Pintura de Caravaggio
Fotografia de Joakim Eskildsen
6.12.14
Tempo
Michael Bilotta
Pela fresta de uma luz que nunca se repete
nem se curva no abismo onde pernoitam
as sombras foge-nos o tempo.
É inútil
tentar ouvir o som dos pêndulos
na alucinante respiração das cidades
onde todos
os relógios nos confundem.
Os horários vão-nos queimando na memória
outra idade
em que as pálpebras
não se encharcavam ainda com a secura da boca.
Graça Pires
De Caderno de significados, 2013
29.11.14
Com devoção ou descrença
Para o José d'Ângelo
Passas vagarosamente sobre um areal.
A carga dos navios pesa-te nas costas.
A boca com iodo e sal
suspende a raiz de um grito.
Fatigado, ajoelhas e benzes-te
com a devoção ou a descrença
de quem pressente o desamparo
das palavras ou apenas o instante
em que há aves trémulas
voando no teu peito.
Graça Pires
De: Espaço livre com barcos, 2014
22.11.14
Em seara alheia
Não sei
Não sei dizer-te,
se o rio corre para o mar
se a ponte encurta o caminho
se o mar está em maré vaza.
Não sei dizer-te, amor,
se o amor é a palavra certa
para te dizer,
se o meu coração parou
ou o tempo parou para nós.
Não sei dizer-te, amor,
se o amor é a palavra certa para te dizer,
se o meu coração parou
ou o tempo parou para nós.
A textura da tua pele
sente o arrepio
que diz a sede
da tua boca,
que diz a sede
da tua boca,
o orgasmo falhado dos
sentidos,
a fome que no teu
corpo espreita?
a fome que no teu
corpo espreita?
Não sei dizer-te
se o medo de perder-te
te fez perder-me,
te fez perder-me,
se os beijos que guardei para ti
já no tempo os perdi,
se foi a saudade que nos matou
ou matámos a saudade
se foi a saudade que nos matou
ou matámos a saudade
dentro de nós.
Não sei dizer-te
Não sei...
16.11.14
Ainda me causa espanto a madrugada
Claude Monet
Entre mim e o mar
ainda me causa espanto a madrugada.
Sempre diferente. Sempre idêntica.
Tons de mel, de romã,
de diamante, de milho seco.
Sopro de sal, de sangue, de limos.
E, por trás das dunas,
a respiração dos amantes
sobressaltando as aves.
Graça Pires
De: Espaço livre com barcos, 2014
8.11.14
Em seara alheia
nunca
fales no exílio
na
pedra in-disposta
perante
o olhar branco
de
quem a colocou
perante
o corpo
há
só um lugar assumido:
paraíso
seiva-geradora-de-
tempestade,
o
agora tempo
o
agora olhar de início,
na
vida de todos nós
na
vida sempre vida
que
é matéria de toda
a
linguagem
[mesmo
que dela
se
aproxime o inumano].
In: Teoria do Movimento. Ed. Autor, 2014, p. 43
2.11.14
Declínio
Jim Wehtje
Achego o corpo à terra
para antever a cor dos
lírios
na hora derradeira.
É o momento de aparar as arestas
na engrenagem do
declínio.
Falta-me nas mãos a haste
que enviesa a sombra
até que a treva se
cumpra.
Graça Pires
De Caderno de significados, 2013
26.10.14
Fome
Gordon Parks
Voraz é a fome que, em fúria,
devora os
cardos onde o som do trigo
afunda o grito da escassez
que em volta da boca é
ferida e dor.
Graça Pires
De Caderno de significados, 2013
19.10.14
Em seara alheia
Nascer
Talvez nascer seja isto: abrir o corpo em pétalas de
lágrimas e depois derramar suspiros como quem beija
o chão que nos leva à alegria. Deitar o peito sobre as
estrelas como se tal pudesse ser e aí esperar uma
alvorada a que dar o nome.
E uma vez nascidos, talvez existir seja isto: tocar a
vida com a boca em cada canto como se fôssemos
palavras.
Virgínia do Carmo
In: Relevos. Macedo de Cavaleiros, Poética, 2014, p. 37
11.10.14
Convite - Figueira da Foz: Da casa que me separa da infância
Foi também uma festa linda!
Obrigada a todos os que a partilharam comigo.
Gostava de contar com a presença de todas as minhas amigas e de todos os meus amigos que moram por perto da Figueira da Foz - a terra onde nasci.
Obrigada a todos os que a partilharam comigo.
Gostava de contar com a presença de todas as minhas amigas e de todos os meus amigos que moram por perto da Figueira da Foz - a terra onde nasci.
Da casa que me separa da infância
avistava-se o lugar onde as águas
mais espessas do rio se juntam ao mar.
A foz. A ondulação crescente
desafiando as areias.
As marés tão altas que faziam brilhar
os peixes
e assinalavam, no farol,
o lugar onde as gaivotas
podiam começar a enlouquecer.
Era aí a casa que me separa da infância.
Graça Pires
De Espaço livre com barcos, 2014
5.10.14
O perfil silente dos barcos
Maria de São Pedro
Hoje, que tenho o mar todo
nos meus olhos, subo à torre do farol
para avistar o perfil silente dos barcos
e adivinhar a indecisa linha
que separa a noite da madrugada.
A navegação costeira faz-se ao mar.
Reparo então que os pescadores
não precisam de mapas para a faina.
Têm talhado no rosto o rumo dos cardumes
e uma rosa-dos-ventos engastada em cada mão.
Graça Pires
De Espaço livre com barcos, 2014
28.9.14
Eu te baptizo em nome do mar
Ana Pires
Eu te
baptizo em nome do mar,
disse minha mãe com barcos na voz.
E as ondas enlearam nas águas o meu nome,
abrindo nas fendas do corpo um impulso
salgado que me brandiu o sangue.
Sei agora que há âncoras afogadas
nos meus olhos: nítido eco de todas as
demandas.
Graça Pires
De Espaço livre com barcos, 2014
De Espaço livre com barcos, 2014
18.9.14
Convite
Foi uma festa linda!
Obrigada a todos os que a partilharam comigo.
Obrigada também aos que quiseram estar e não puderam.
Gostava de contar com a presença de todas as minhas amigas e de todos os meus amigos.
Aproveito para informar que no dia 18 de Outubro haverá o lançamento do mesmo livro na Biblioteca Municipal da Figueira da Foz pelas 16 horas.
Em data a confirmar irei a Trás-os-Montes.
Obrigada a todos os que a partilharam comigo.
Obrigada também aos que quiseram estar e não puderam.
Gostava de contar com a presença de todas as minhas amigas e de todos os meus amigos.
Aproveito para informar que no dia 18 de Outubro haverá o lançamento do mesmo livro na Biblioteca Municipal da Figueira da Foz pelas 16 horas.
Em data a confirmar irei a Trás-os-Montes.
10.9.14
Coragem
Jean Dieuzaide
Escutar
o rumor da morte
na rotina dos dias,
no sangue das palavras,
na dor, na perda,
no tédio.
E renascer a toda a hora
com a inocente respiração da vida.
Serenamente.
Graça Pires
De Caderno de significados, 2013
3.9.14
Campo
Ana Pires
Voltamos sempre à casa de campo.
Quando não
estamos as plantas
crescem de modo irregular e o pó
acumula-se nos móveis e nos
livros.
Não importa.
Nós voltamos apenas para regar a sede,
beber a terra,
colher a paisagem,
mastigar o silêncio, partilhar a fome
e tornar depois a ir
embora
com o corpo a doer da própria ausência.
Graça Pires
De Caderno de significados, 2013
27.8.14
Em seara alheia
11.
neste silêncio em que
te rezo. guerreira de um cântico sem tréguas. mendiga da luz.
entrego-te a palavra
assim simplesmente. simplesmente a recorrência de um silêncio a que nos
entrego. profeta e veneno mel sumptuoso. tudo o que é voraz e ao mesmo tempo
quieto. tão quieto
que pode ser dádiva. uma
e outra vez. todas em que seremos chão.
Isabel Mendes
Ferreira
In: O tempo é renda.
Lisboa: Labirinto de Letras, 2014, p. 028
20.8.14
Prazer
Edouard Boubat
Agora que regressaram os meses
em que a
encosta dos medronheiros
se encheu de frutos vamos correr
ribanceira abaixo
como quando éramos
meninos imortais e sem recato.
Talvez mais tarde os
medronhos
e a lascívia nos embriaguem e,
enquanto os pólenes se vão acoitando
nas flores, haja um inesperado mel
a extasiar-nos os lábios.
Graça Pires
De Caderno de significados, 2013
13.8.14
Vento
Richard Avedon
Entro
no poema através do vento que no verão
litoral deste país parece
enlouquecido.
Agora o vento já não é tão atrevido como dantes,
quando as
mulheres usavam saias rodadas.
É que a moda ludibriou o vento.
Trouxe calças e
calções. Ajustou os vestidos.
O vento, esse, aprendeu a brincar com os piercings
que as meninas prendem no
umbigo.
Às vezes dança também nos meus cabelos.
Graça Pires
De Caderno de significados, 2013
De Caderno de significados, 2013
6.8.14
Em seara alheia
Infinita conversa com as nuvens
Antes de partir para as montanhas espalharei os
poemas pelo chão como quem abre um mapa pela
última vez. Como quem relembra o extenso areal dos
dias, a incansável rotina dos comboios, a infinita
conversa com as nuvens.
Quando partir para as montanhas deixarei os poemas
pelo chão como quem renega todos os mapas. Levarei
apenas o meu corpo para que ele me fale do teu.
Rui Miguel Fragas
In: O nome das árvores. Macedo de Cavaleiros: Poética Edições, 2014, p. 38
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