Seleccionar o ângulo de um rosto, sem lhe macular a luz, como se, a meia voz, pudéssemos reter os múltiplos reflexos do júbilo e das mágoas.
12.11.15
Em seara alheia
XVII
Este é o delírio que sempre me ronda. Senta-se comigo à mesa
dos cafés. Escorre pelas páginas do que folheio. Dialoga com
as minhas dúvidas, as minhas crenças, as minhas verdades, tão
provisórias e falíveis como todas as verdades. Este é o espectro,
que me acusa e protege, o súplice olhar ante a ganância do
mundo, frente à voracidade cônscia com que nos devoram a
esperança, frente ao frenesim que atravessa a História e com
que os criadores enfeitam a efemeridade da Arte ou com que os
crentes assinalam a sacralidade do princípio. Este é o delírio
que sempre me ronda, o reflexo fiel que nunca parte, o meu
nicho de miséria e grandeza, o estilete com que abro postigos
no breu. Esta é a minha loucura, aquela que defendo com unhas
e dentes, ou seja, a minha lucidez, serena e persistente como na
infância já se me oferecia.
Victor Oliveira Mateus
In: Negro Marfim. Fafe: Labirinto, 2015, p. 31
6.11.15
Regresso
Andre Kertesz
Esperei que viesses.
E chegaste do lado onde as dunas
acrescentam ao vento os sobressaltos da noite
que trazias escondida nos cabelos.
A linha das águas cabia toda nos teus olhos.
Como se as nascentes da montanha
cobrissem a tua sombra.
Escolhi então a face nómada das sílabas
mais incertas para dizer: palavra a palavra
edifiquei a casa.
Pelo silêncio a ocupei no teu olhar.
Graça Pires
De Caderno de significados, 2013
29.10.15
Vivo na ponta da Europa
Vivo na ponta da europa.
E digo: este lugar
é o meu destino e o meu remorso.
Escuto a melopeia do precipício
chamando o meu nome,
mas ignoro a idade da minha imagem
tão dupla de mim.
Ninguém decifrará onde começa e acaba
a aflição do meu olhar,
estrangeiro de todas as infâncias.
Graça Pires
De Espaço livre com barcos, 2014
23.10.15
Ilha
Para sermos ilha nos
bastava a intensidade das mãos
na pedra por esculpir questionando a terra que
rodeia
os alheios silêncios: líquidos como as lágrimas.
Graça Pires
De Caderno de significados, 2013
16.10.15
Escondido no decote
Francesca Woodman
Soletro lentamente a palavra mastro
e no
cesto da gávea pego nos binóculos
para anunciar terra à vista.
A única rota que procuro é a que leva
à ilha coberta de bosques.
Tenho o mapa do tesouro escondido no decote.
Por isso os marinheiros rondam, exasperados,
o meu corpo como se um mar violento os
habitasse.
Graça Pires
De Espaço livre com barcos, 2014
9.10.15
Com gotas de sal
Ana Pires
No rebordo das quilhas, o mar aquieta-se.
Deixa-se adormecer.
Eu, sentada à ré, sei que um barco ancorado
aguarda que as aves pairem sobre a haste
mais alta, em círculo perfeito.
Escuto as sirenes ao longe.
Aproxima-se o nevoeiro.
Traz a silhueta dos barcos puxando
as redes, com homens na proa
a segurar a amarra com gotas de sal.
Graça Pires
De Espaço livre com barcos, 2014
1.10.15
Em seara alheia
CONCERTO PARA VIOLINO E ORQUESTRA DE MAX BRUCH
Das cordas do violino dir-se-á
que não foram feitas
para prender. Nunca
os sons
foram tão soltos, a música
tão livre. Presos,
agrilhoados ao esplendor
do arpão sonoro, apenas
os sentidos.
Albano Martins
In: Divina Música: antologia de poesia sobre música. Org. Amadeu Baptista. Viseu: Conservatório Regional de Música, 2009, p. 9
25.9.15
Mentira
Magritte
Não te detenhas em dissimulados jogos.
A
ruína do olhar enfurece o vento e envenena
a terra onde os homens semeiam o
pão.
As foices podem cortar-te os dedos.
Imponderáveis são as palavras
que se
desfiam em línguas afiadas.
Graça Pires
De Caderno de significados, 2013
18.9.15
Rio
Digo rio com a inevitável respiração de nascer.
Digo mondego pela curva das águas
em deslize para o mar, no chão da casa
onde bradei a vez primeira o grito da vida.
Digo rio. Tão leves os meus dedos sobre a boca!
Graça Pires
De Caderno de significados, 2013
10.9.15
A margem de erro presa à eternidade
Agnieszka Motyka
Antes que as andorinhas em debandada
levem pelo ar o cheiro maduro da fruta,
os homens entoam a colheita do pão
enquanto as mulheres sangram devagar
os segredos do corpo na fissura do ventre.
O calor despenhado sobre os taludes
vai secando as ervas onde se ocultam
as centopeias e as aranhas que as crianças
perseguem com galhos impiedosos.
No vínculo indelével do futuro ignoramos,
contudo, a validade do tempo que se esquiva
da morte atravessando a boca dos dias
com a margem de erro presa à eternidade.
Graça Pires
In: Clepsydra: antologia poética. Coord. Gisela Gracias Ramos Rosa. Lisboa: Coisas de Ler, 2014
3.9.15
Poderão perdoar a nossa ausência?
Vêm de todos os
lugares, por caminhos
que fervem sangue e
luto.
Aos milhares, saem
dos túneis da noite e do medo.
Não trazem bandeiras.
Um ardil cavado na
lonjura enjeita-lhes a idade.
E chegam extenuados,
traídos, indefesos.
Procuram um chão e um
abraço.
As sombras coladas
aos muros
são a morada da
esperança que lhes resta.
Poderão perdoar a
nossa ausência?
Graça Pires, 2015
27.8.15
O fim e o começo de múltiplas evasões
Vou pela irregularidade das pedras
de uma aldeia envelhecida.
Há casas vazias com manchas de verdete
no trinco das
portas e muros caídos
que são o fim e o começo de múltiplas evasões.
Os líquenes cobrem aleatoriamente
os degraus de granito e é lodoso o fio de água
vertido pela fonte de outras sedes.
Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2012
21.8.15
No centro das sombras mais belas
Georgette Douwma
Em direcção a um horizonte de bonança
mergulho até ao recife dos corais.
Sinto a lenta valsa dos peixes.
Recupero a inocência, o espanto,
a volúpia, o deleite.
Adivinho as formas, as cores,
a incisão luminosa.
E sei que é aqui o lugar
onde todas as conchas preferem morrer:
no centro das sombras mais belas.
Graça Pires
De Espaço livre com barcos, 2014
14.8.15
A negra cicatriz
Conhecemos a obscuridade dos quintais
onde se escuta o rumor das figueiras ardidas
quando o pólen secou sobre as flores
e a vegetação se ocultou para desvairar
os insectos agarrados à ruína dos muros.
Sem qualquer aviso extinguiu-se a precisão
das sombras na planura desolada dos prados.
Quem rasgou sobre eles a negra cicatriz
que exilou os pássaros e as árvores?
Por quem tocam os sinos a rebate
quando estremecemos voltados para a terra?
Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2012
7.8.15
Xenofobia
Havia cordas de aço
a amarrar-lhe os dias pouco a pouco.
Era estrangeiro.
E nenhuma infusão
o livraria da forma cruel
com que o condenavam
a um premeditado exílio.
Graça Pires
De Caderno de significados, 2013
31.7.15
Compromisso
Ana Pires
Se algum dia o eco do tempo nos ensurdecer
atravessaremos a nervura dos dias
até encontrarmos o caminho dos barcos.
Os
marinheiros conhecem de cor os sons do mar.
Graça Pires
De Caderno de significados, 2013
24.7.15
Um manso estribilho
Foi com a sonância do oceano
que aprendi a amar a música.
As ondas, bradando, respiram um hino
prodigioso e medonho
que ouço rente às fragas.
Os barcos dançam no ancoradouro dos olhos
sorvendo-me o pranto onde há um mar
exilado há muitos séculos.
E sobre os meus ombros as aves nocturnas
vêm entoar o manso estribilho da vazante.
Graça Pires
De Espaço livre com barcos, 2014
17.7.15
Traição
Katia Chausheva
Primeiro enrolam-nos os louros
na cabeça como
se fossemos heróis.
Depois amarram o hábil pulso da traição
às pontas do
chicote com que nos cingiram.
Graça Pires
De Caderno de significados, 2013
10.7.15
Em seara alheia
As palavras
asfixiadas,
as mãos
irrequietas,
tremem os dedos
com medo do som perdido.
Tremo temendo-me.
Quero a
libertação,
3.7.15
Todas as memórias
Dorothea Lange
Para o Manel
Encostado à amurada de um navio
recordas viagens inacabadas.
Vêm de muito longe todas as memórias.
Eras Ismael e amavas a baleia branca.
Quando entraste na baleeira
tinhas uma dor derramada no peito.
Querias apenas vê-la de perto.
Tão perto que não te importavas de morrer.
Graça Pires
De Espaço livre com barcos, 2014
25.6.15
Regresso
Sem mais nem menos
surgiu o passado,
corpo intranquilo
feito de sons semelhantes
aos rostos que amei,
universo donde me excluí,
mar desprovido de cais
na obliquidade dos contrastes.
Esta noite voltei à minha infância:
menina rosada de sonhos nos bolsos,
bailarina de corda na caixinha de som.
À infância regressa-se solitariamente,
subindo um rio sem margens,
até ao lugar em que a nascente
se confunde com o tempo
e o tempo se transforma em espanto.
Procuro, teimosamente,
o rasto da brisa
que me invade o corpo
e apenas sei que o sonho
é um risco inquietante,
quando a solidão tem rosto
e se conhece a posição das estrelas
no âmago das palavras.
Graça Pires
De Poemas, 1990
15.6.15
Brinca à beira-mar
Para o meu filho Pedro
Recua no tempo.
Ajusta a areia aos teus dedos de criança.
Brinca à beira-mar, o teu espaço mais
cúmplice.
Já sobre ti rolam as algas e tu, de olhos
fechados, reténs esse prazer apetecido.
As conchas vêm brincar contigo.
Falam do sussurro dos peixes escondidos
nas ervas marinhas, da ancoragem dos barcos
e da lisura das quilhas submersas.
Um bando de pássaros abre-te no peito
um estuário onde as marés se abraçam.
Graça Pires
De Espaço livre com barcos, 2014
Graça Pires
De Espaço livre com barcos, 2014
7.6.15
Em seara alheia
XV
Este silêncio que à noite se infiltra como presença
há muito esperada. Este silêncio que a brisa
aconchega e pelos claustros sobrevoa o negrume
da vida. É um bater de asas nas copas das árvores,
uma doçura a escorrer pelas cornijas
tão pelo tempo esbeiçadas
e é também o reflexo da minha sede.
tão pelo tempo esbeiçadas
e é também o reflexo da minha sede.
Uma sede sem limites nem fim e onde uma ânsia
de Amor me antecipa visões e êxtases.
Este é o silêncio que sempre quis,
aquele que à noite atravessa
corredores e celas desenhando nas lajes
aquele que à noite atravessa
corredores e celas desenhando nas lajes
as minhas Moradas - caminhos que nunca cedo,
como se num antiquíssimo sonho uma nítida mão
a mim me salvasse.
31.5.15
Logro
Como se tivessem aves afogadas no olhar,
os
meninos desenham com cinza
as flores do jardim.
Cresceram. Os berlindes
perderam a cor.
As fadas que lhes embalavam o sono
desapareceram dos livros.
Os
navios dos piratas seguiram outros rumos.
Um fuso imaginário alterou certeiro
o
pulsar dos segundos no lastro dos dias.
Graça Pires
De Caderno de significados, 2013
24.5.15
Antes de anteciparmos o futuro
Ansel Adams
Antes de anteciparmos o futuro acrescentemos
à voz da terra o sobressalto das fontes
refugiando a
sede.
Nenhuma nascente escapa à exigência,
tão vulnerável, da secura do barro
que nos separa das nuvens.
Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2012
17.5.15
Em seara alheia
Não há lucidez
nem no percurso
das vítimas, nem no fel dos
carrascos
É essa a
realidade carregada: a compreensão
suicida-se
Quando as frases
correm telegráficas
ou tolhidas pelo
receio de tropeçarem da boca
Não é fácil amar
NÃO É FÁCIL AMAR
Não é fácil amar
depois dos
braços torcidos, das olheiras fundas
ou do marejar de
lágrimas
de quem vê
viscosos vultos
a derramarem
calúnias. não é fácil
que o temor se
despenhe na lama
e disperse todas
as bondades, mesmo aquelas
que ainda
arredam as cortinas das casas
com toda a
delicadeza
Na grande ironia
do sorriso de esguelha
antes de baterem
contra a janela
os corvos saem.
Marília Miranda Lopes
In: Victorianas. Labirinto de Letras, 2015, p. 62-63
11.5.15
Nome
Cristin Atria
Interpelamos as palavras à procura
de um nome
para a casa onde moramos.
Um nome que se ajuste inteiro
à memória do olhar e do
silêncio.
Um nome tão secreto como as cantigas
que as mães cantam baixinho
enquanto embalam nos braços os filhos e a noite
para não perderem o poder de
repartir a sede.
Graça Pires
De Caderno de significados, 2013
5.5.15
Para incendiar o vento
Para a minha filha Ana
Junto ao cais não digas adeus ao teu amado.
Esquece a vastidão dos campos,
o toque dos sinos, as montanhas,
as cidades, a infância.
Pega nos remos.
Do outro lado da margem ele estará lá,
à espera do teu aroma para incendiar o
vento.
Graça Pires
De Espaço livre com barcos, 2014
29.4.15
Bailarinos: o gesto e a leveza
Não usam máscara.
Têm a cara marcada
pelo fogo-preso
do corpo prestes a
incendiar o chão
onde rastejam, se
desmoronam e se rasgam
até ao abraço mais
feroz de quem os cerca.
Não usam sapatilhas.
Têm, nos pés
descalços, o ritmo
inocente e perverso
dos movimentos
que a dança lhes
consente
e os torna possessos
de volúpia.
Não usam cenário.
Têm a envolver-lhes a
cintura, o reflexo
das sombras que os
desliga do palco
com a intimidade de
um impulso,
mesmo quando fincam
as unhas
na madeira à procura
de equilíbrio.
Querem a música. Sim,
a música.
Uma sonoridade que
lhes perturba o gesto e a leveza.
Que os desnuda.
Que arrasta o rio que
lhes rebenta no olhar.
Graça Pires
In: CNB e os poetas, 2014, p. 3
Poema feito na sequência de ter assistido ao bailado "Orpheu e Eurídice", a convite da direcção da CNB, através de João Costa. Bem hajam pelo convite.
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