Seleccionar o ângulo de um rosto, sem lhe macular a luz, como se, a meia voz, pudéssemos reter os múltiplos reflexos do júbilo e das mágoas.
9.5.16
Em seara alheia
Renasço-te em cada aurora,
nas manhãs voláteis carregadas de abrunhos maduros
das árvores perdidas em searas sem dono.
Preciso de ti,
do silêncio dos teus olhos nas manhãs solidárias
cheias de flores por ti amadurecidas.
Teresa Durães
In: Passos sem rasto. Lisboa; Chiado Editora, 2016, p. 33
30.4.16
Soletro as palavras maternas
Espreito pelos dedos a memória
mais longínqua da infância.
Procuro-a intensamente.
Nas árvores, nas latadas,
nos vãos de escadas,
nos telhados, nos rochedos.
E retalho a pele dos seios.
Rapo o cabelo.
Envolvo-me de fumo.
Soletro as palavras maternas.
Mas um sopro invisível
dispersou o berço e os brinquedos
como um eco sem volta.
Coloco na ara sacrificial
a candura recortada
de um cenário imaginado,
para que me seja paisagem na
lembrança.
Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015
24.4.16
Para sempre ABRIL
Maria Helena Vieira da Silva
um grito abraçou o povo.
E o frágil coração da liberdade
reinventou o sonho.
Para sempre.
18.4.16
Em seara alheia
não foi este o tempo que pedi
bastava-me uma réstia de sol
na ombreira de uma porta habitada
um pouco de mar calmo e
compassivo
e um sopro respirável à luz
de um instante de sossego
não era mais deste sal a escorrer
da nascente onde a água se quer doce
e a corroer as pedras angulares
com que havia de reconstruir as margens
do sonho antes da ruína
do sonho antes da partida
se era para ficar
que houvesse um outro caminho
alto amplo e luminoso
por onde pudesse planar na contemplação
da vida a acontecer
mas se é para ser assim raso o caminho tão raso
que se engrandeça o coração
Rosário Ferreira Alves
In: Lunaris. Macedo de Cavaleiros: Poética, 2016, p. 27
11.4.16
Sorriso
Ferran Quevedo
A melancolia vem açoitar-me as margens
do
sorriso que resta nos meus lábios
quando busco um sulco de água doce
para chegar
ao restolho das palavras
em misteriosas bocas.
Graça Pires
De Caderno de significados, 2013
4.4.16
O delito azul
Helena Almeida
Amo a inquietante beleza
que legitima
o delito azul
colado ao desabrigo dos náufragos.
Atravesso o cabo das tormentas
até encontrar uma índia
a prometer-me a seda,
as especiarias, o espanto.
E só quando os meus lábios
sangram sal e sede
me deixo cegar pelo brilho das vagas
que volteiam a geometria do abismo.
Graça Pires
De Espaço livre com barcos, 2014
28.3.16
Em seara alheia
Evita sonhar, procura não saber
Dos sorrisos que se acendem
Ao longo da rua. Remete-te
À desordem moderada do teu
Coração silencioso, à ausência
De expressão, mesmo nos momentos
De sobressalto. Fecha, devagar
Muito devagar, as mãos e chora
De modo a que ninguém veja.
Há alegria a mais no mundo, há
Demasiado tempo perdido a roubar
A propriedade dos tristes.
Rui Almeida
In: A solidão como um sentido seguido de Desespero. Póvoa de Santa Iria: Lua de Marfim, 2016, p. 22
21.3.16
É Primavera
Amanda Cass
Começou
o ritmo da folhagem
ao
sabor da seiva.
As
árvores escolhem o tom de verde
que
o sol prefere dispersar nos troncos.
É
primavera.
As
aves regressam em bandos
e
os amantes ajustam a paixão
nas
grutas do corpo.
As
crianças trazem no olhar
uma
cintilação quase divina
e
os descrentes procuram um deus
no
claustro da morte.
Os
poetas ofertam-nos as primícias
com
os frutos a gretarem-lhes a boca.
Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015
14.3.16
Guerra
Para se abrigarem dos ventos contrários
o
abraço dos amigos lhes bastava.
Mas a guerra cercou-os
e deixou-lhes no
movimento do olhar
uma pátria ultrajada.
Em suas bocas pisadas de silêncio
sangram agora todos os afectos.
Graça Pires
De Caderno de significados, 2013
3.3.16
Convite - Figueira da Foz: Volto à memória do mar
Muito obrigada a todos os que partilharam comigo mais esta festa da poesia.
Gostava de contar com a presença de todas as minhas amigas e de todos os meus amigos que moram por perto da Figueira da Foz - a terra onde nasci.
Gostava de contar com a presença de todas as minhas amigas e de todos os meus amigos que moram por perto da Figueira da Foz - a terra onde nasci.
Volto à memória do mar,
ao fundo salgado do abismo,
ao sepulcro das cinzas,
ao meu chão de múltiplas névoas.
Muito longe serei ilha, ou rochedo,
ou pérola na fenda da concha.
Uma litania, um cântico,
um grito ao vento serei ainda.
Amarrando os barcos.
Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015
22.2.16
Em seara alheia
POEMA PARA UM VERSO DE FERNANDO ASSIS PACHECO
Se fosse Deus parava o sol sobre Lisboa
No instante da sua força ao meio-dia
Como se a cidade fosse uma pessoa
A entrar na eternidade da fotografia.
A preto e branco como são as colinas
No coração de quem amou esta cidade
Em encontros e mensagens clandestinas
Para o sonho que se perdeu e é saudade.
Este prédio já foi o Palácio Galvão Mexia
Ficaram os alicerces da antiga construção
As paredes contam a história de cada dia
A quem as souber escutar com atenção.
Depois é o ruído da água em surdina
Na fonte onde o garoto vende jornais
Descalço e de barrete chega à esquina
Duma vida feita de horas sempre iguais.
José do Carmo Francisco
In: Poemas de Lisboa e Borda de Água, Lisboa: Apenas Livros, 2014, p.59
15.2.16
A caligrafia do silêncio
E. O. Hoppe
Ando
pelas ruas desta incerta cidade.
Deixo
que o meu olhar
se
ajuste ao olhar dos outros.
Entre
ruas e rostos há fragmentos de solidão
que
denunciam a trágica expressão da vida.
Todos
conhecem a oralidade da mudez,
a
vigília da revolta, a senha do desdém,
a
estranheza de golpes imolando os sonhos.
Eu,
com uma fala colada na língua,
somente me consinto
a áspera
caligrafia do silêncio.
Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015
8.2.16
Um pássaro alucinado
Ana Pires
Quando em minhas mãos dança
a nudez de um rosto,
há um pássaro alucinado
que voa de costa a costa
até encontrar um búzio verde
para se aninhar
e aí desfalecer de paixão.
Graça Pires
De Espaço livre com barcos, 2014
1.2.16
Em seara alheia
Junto ao muro
do nosso quintal cresciam
junquilhos. As galinhas
subiam as escadas da
varanda e catavam caruncho
e formigas. Uma nespereira
à beira do poço olhava
as águas paradas no fundo
do tempo. Os
pessegueiros eram tão delicados
que bastava soprar para
que os pêssegos nos
caíssem nas mãos. As
galinhas eram livres até
serem degoladas ao domingo
antes da missa. E o
milagre das manhãs era a luz clara dos junquilhos
o ardor dos pêssegos na
palma das mãos, a água
fresca do poço. Talvez por
serem assim delicados
há muito que os
pessegueiros morreram. Mas a
nespereira era eterna
e também já não existe.
Quando alguém mandou tapar
a boca do poço já as
galinhas tinham perdido a
liberdade. Aparecem
agora depenadas
embrulhadas em película nas
prateleiras do hipermercado
do outro lado do quintal.
A nossa casa caiu para
dentro de si própria. À beira
da estrada de alcatrão entre telhas e barrotes
ainda
crescem junquilhos. Não
deve tardar de certeza um
qualquer decreto
a corrigir tão ostensivo
anacronismo. O céu anda
baixo e o tempo não está
para bucólicas poesias: há
muito que nos abandonaram
os deuses às ímpias
sombras.
Rui Miguel Fragas
In: Não sei se o vento.
Macedo de Cavaleiros: Poética, 2015, p.14
25.1.16
Os números
Andy Warhol
Aprendi a dizer os números
quando era criança.
Como toda a gente.
Contava tudo: as pedras, os barcos,
os frutos, os degraus,
os pássaros, as pessoas.
Contava pelos dedos.
Do princípio ao fim.
Do fim para o princípio.
Mas, desde sempre, preferi
os números ímpares:
únicos, solitários, caprichosos.
Não, não é superstição.
Fascina-me aquela exactidão assimétrica
a corromper a ordem dupla.
Como se ficasse assim anulado
o intuito de atingir uma forma definitiva.
“Os números ímpares agradam
aos deuses”, terá dito virgílio.
Tão oculto, o valor simbólico da razão!
Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015
Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015
18.1.16
Recordo as mãos da minha mãe
Pode
parecer absurdo
este
cantar de dor a meia voz,
este
cantar de amor em grito mudo.
Recordo
as mãos da minha mãe: o sabor
do
pão quente, do leite, do mel;
as
memórias, a coragem, o amor;
uma
canção de embalar
que
em luz se transfigura,
e
se faz puro afago no meu peito.
Sei agora que a terra é menos árida
nos
lugares onde as mulheres
não
morrem por terem as mãos
presas à
pele dos filhos.
Graça
Pires, 2016
11.1.16
Em seara alheia
As asas
Ícaro falou-me da urgência do vôo
da construção das asas
e do salto.
Falou-me da visão
do ar
e fez-me acreditar no invisível.
As asas estão prontas
à espera do momento da
ruptura.
Samuel Pimenta
In: Ágora. Livros de Ontem, 2015, p. 33
3.1.16
Um recomeço
Turner
Hesitantes, as palavras
procuram um ponto de partida,
um recomeço.
Manejo a corda de amarrar
as dobras do tempo
diluindo os nós de sangue
no recuo dos lábios.
Quero descobrir, num vinco de texto,
a caligrafia ajustada ao barro
que molda um favo de puríssima luz
só visível em gramáticas de espanto.Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015
21.12.15
Kyrie
Christophe Boisvieux
Em nome dos que choram,
Dos que sofrem,
Dos que acendem na noite o facho da revolta
E que de noite morrem,
Com a esperança nos olhos e arames em volta.
Em nome dos que sonham com palavras
De amor e paz que nunca foram ditas,
Em nome dos que rezam em silêncio
E estendem em silêncio as duas mãos aflitas.
Em nome dos que pedem em segredo
A esmola que os humilha e os destrói
E devoram as lágrimas e o medo
Quando a fome lhes dói.
Em nome dos que dormem ao relento
Numa cama de chuva com lençóis de vento
O sono da miséria, terrível e profundo.
Em nome dos teus filhos que esqueceste,
Filho de Deus que nunca mais nasceste,
Volta outra vez ao mundo!
José Carlos Ary dos Santos
In: Vinte Anos de Poesia, 1963-1983. Lisboa: Distri, 1983, p. 21
Com uma prece ou um cântico de Natal preso na voz desejo-vos
BOAS FESTAS.
15.12.15
Lado a lado com os poemas
Alfredo Cunha
Lado a lado com os poemas desenrolo
nas entrelinhas um glossário reticente
para dizer o que dói neste país de mar
onde se sobrevive amarrando
os pulsos às fragas.
Pesa-me no peito a fadiga das mãos
enrugadas e o choro silencioso
das mães com a fome no colo.
Ferem-me a boca os gritos mudos
em que se desfazem os sonhos
adolescentes previstos no destino.
Há por todo o lado palcos improvisados
onde, em bocas distorcidas, se
anunciam
perigos e presságios, ameaças e
avisos.
Este é um país de sombras tão baldias
que magoa.
Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015
7.12.15
Em seara alheia
Folhas secas
E quando os meninos da escola
atraídos pela luz inconfundível do outono
vierem procurar folhas secas,
encontrarão palavras.
Umas baloiçando em meios círculos
bêbadas de prazer,
outras tapetes de cores estendidas ao sol
umas vendaval outras brisa, umas lume outras água.
Hão de querer colecioná-las, os meninos,
hão de querer colá-las em forma de poema
numa página do caderno.
Hão de ficar espantados
quando os pássaros vierem
fazer ninho na folhagem dos poemas
ali plantados.
30.11.15
Sempre em novembro
Obrigada a todas as amigas e a todos os amigos pelo caloroso acolhimento no Porto.
Isenta
de mim estarei pronta para riscar
os
dias no pó que será barro de oleiro,
em mãos
que talham enredos.
Prendo
no pescoço um friso
de
alecrim e sigo, por atalhos,
a
linhagem das árvores de troncos espessos.
É
agora meu o tempo acutilante do silêncio.
Faço
o inventário inexplicável
dos
pássaros que morrem todos os anos,
sempre
em novembro,
sempre
no fundo de meus olhos,
sempre
ao som das primeiras chuvas.
E
morro também, de morte lenta,
no
cetim das flores desfolhadas
sobre
o musgo dos sentidos.
Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015
Fico à espera dos meus amigos mais a Norte para o lançamento do livro no dia 4 de Dezembro, na Livraria Unicepe, às 18.30 h.
Aproveito para informar a 12 de Março de 2016 haverá o lançamento do mesmo livro na Biblioteca Municipal da Figueira da Foz.
Fico à espera dos meus amigos mais a Norte para o lançamento do livro no dia 4 de Dezembro, na Livraria Unicepe, às 18.30 h.
Aproveito para informar a 12 de Março de 2016 haverá o lançamento do mesmo livro na Biblioteca Municipal da Figueira da Foz.
19.11.15
Uma claridade que cega - Convites
Foi uma festa linda!
Obrigada a todos os que a partilharam comigo.
Obrigada também aos que quiseram estar e não puderam. Agora conto com os meus amigos do Norte para o dia 4 de Dezembro...
Aproveito para informar em Março de 2016 haverá o lançamento do mesmo livro na Biblioteca Municipal da Figueira da Foz.
Neste ano, em que comemoro 25 anos de edição, gostava de contar com a presença de todas as minhas amigas e de todos os meus amigos: os meus leitores, que dão sentido ao meu lugar de poeta
Impossível
encontrar o esteio certo
para
entrelaçar a subtil anuência da fala.
As
palavras, essas
são
arrastadas pelo vento
que
geme nas montanhas
onde
se pode olhar de frente
o
imponderável declive da neve
que
rasga no peito
uma
claridade que cega.
Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015
Aproveito para informar em Março de 2016 haverá o lançamento do mesmo livro na Biblioteca Municipal da Figueira da Foz.
12.11.15
Em seara alheia
XVII
Este é o delírio que sempre me ronda. Senta-se comigo à mesa
dos cafés. Escorre pelas páginas do que folheio. Dialoga com
as minhas dúvidas, as minhas crenças, as minhas verdades, tão
provisórias e falíveis como todas as verdades. Este é o espectro,
que me acusa e protege, o súplice olhar ante a ganância do
mundo, frente à voracidade cônscia com que nos devoram a
esperança, frente ao frenesim que atravessa a História e com
que os criadores enfeitam a efemeridade da Arte ou com que os
crentes assinalam a sacralidade do princípio. Este é o delírio
que sempre me ronda, o reflexo fiel que nunca parte, o meu
nicho de miséria e grandeza, o estilete com que abro postigos
no breu. Esta é a minha loucura, aquela que defendo com unhas
e dentes, ou seja, a minha lucidez, serena e persistente como na
infância já se me oferecia.
Victor Oliveira Mateus
In: Negro Marfim. Fafe: Labirinto, 2015, p. 31
6.11.15
Regresso
Andre Kertesz
Esperei que viesses.
E chegaste do lado onde as dunas
acrescentam ao vento os sobressaltos da noite
que trazias escondida nos cabelos.
A linha das águas cabia toda nos teus olhos.
Como se as nascentes da montanha
cobrissem a tua sombra.
Escolhi então a face nómada das sílabas
mais incertas para dizer: palavra a palavra
edifiquei a casa.
Pelo silêncio a ocupei no teu olhar.
Graça Pires
De Caderno de significados, 2013
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