Seleccionar o ângulo de um rosto, sem lhe macular a luz, como se, a meia voz, pudéssemos reter os múltiplos reflexos do júbilo e das mágoas.
20.6.07
15.6.07
Repara

Senta-te perto de mim, meu filhoNão tenho a tua idade. Eu sei.
Também já tive tanta pressa
de desafiar o vento.
Repara :
não há ninguém à entrada da noite.
Deixa que, do teu peito,
se avistem as estrelas.
e arde numa delas. Arde.
Graça Pires
Também já tive tanta pressa
de desafiar o vento.
Repara :
não há ninguém à entrada da noite.
Deixa que, do teu peito,
se avistem as estrelas.
e arde numa delas. Arde.
Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997
14.6.07
Quem sabe

As ruas têm anjos escuros, ocultos na expressão
das mulheres com ancas de fogo.
Quem sabe, a tristeza seja o rumo dos sonhos,
pesando sobre os olhos, como máscaras
e haja amoras maduras na idade da noite.
Quem sabe, seja a lua a hierofania
com que deuses e demónios preparam
o banquete predilecto dos que amam,
para que os seus corpos se vistam de malícia.
Pouco sei do vocabulário onde se confundem
o delito e a ascese dos encontros marcados.
Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997
12.6.07
Vieram os pássaros
Bates LittlehalesVieram os pássaros, como um poema,
em louca cavalgada por paredes de luz.
Eu ouvi um tumulto de asas.
Ou era a minha própria voz,
enrouquecida pela sede?
Não posso aquietar a boca,
porque me ardem nos pulsos
os escombros de nomes interditos
e o orvalho de meus olhos seca-me a garganta.
Os pássaros, eu sei, voltaram,
e trazem no bico as nascentes do sul.
Graça Pires
De Quando as estevas entraram no poema, 2005
11.6.07
Em seara alheia
OPUS 133
Escreveu-me cartas. Enviou-me
uma roldana de ferro
daquelas que se usam para tirar
água dos poços. Enrolou-lhe um poema
em vez da corda que tem de
suster o balde. Podes falar -
-me de ti: quando estou cansado
eu sou um bom ouvinte.
João Miguel Fernandes Jorge
In Não é certo este dizer. Lisboa, Presença 1997
10.6.07
Os meus olhos doendo nos dela
Balthus
Sem pressa, formulo a urgência
de sombras inquietas
na neblina do olhar,
como se recuperasse um tempo
tão decisivo como a infância.
Circunscrevo recordações sem voz
e perdem-se-me, nas mãos,
os gestos de menina.
Persigo-lhe a imagem,
ou a sombra dessa imagem.
Os meus olhos doendo nos dela.
O meu rosto medindo, no seu rosto,
toda a intensidade da inocência.
Graça Pires
de sombras inquietas
na neblina do olhar,
como se recuperasse um tempo
tão decisivo como a infância.
Circunscrevo recordações sem voz
e perdem-se-me, nas mãos,
os gestos de menina.
Persigo-lhe a imagem,
ou a sombra dessa imagem.
Os meus olhos doendo nos dela.
O meu rosto medindo, no seu rosto,
toda a intensidade da inocência.
Graça Pires
De Não sabia que a noite podia incendiar-se nos meus olhos, 2007
6.6.07
Vamos falar de poesia

A fascinação pela poesia tem sido, até hoje, uma das constantes da situação humana. Seria, contudo, um erro supor por detrás dessa fascinação um sentido e uma significação sem ambiguidade. O amor pela poesia, como todo o amor, é a história dum equívoco. Para a maioria dos homens o convívio com a poesia é a forma simples de ter ao alcance das mãos um mundo cómodo, mais tranquilo que o mundo de todos os dias, ou então a maneira de se alienarem num universo brilhante e raro, equivalente do sonho e do desejo. Pérola de imagens segregada pelo entusiasmo, o terror ou a esperança, a poesia oferece a cada homem o céu e o inferno portáteis de que precisam para iludir a necessidade de buscar no inferno real o céu possível. O amor que os homens lhe manifestam é esse amor aos céus ou infernos particulares, refinamento de um egoísmo inalterável. Adorno ou cócega da alma a poesia suscita em todos os homens, nem que seja uma só vez na vida, um começo de metamorfose semelhante à do autêntico amor, mas é raro que esse instante seja outra coisa do que a promoção de um último egoísmo. É mais a exaltação do mais radical dos nossos desejos que a sua destruição, a morte do «eu» e a ressurreição no «outro» de todos os amores reais. Amando na poesia o pior ou o melhor do que se é, vive-se a ilusão de um amor que não é senão o confortável amor de nós. É desta espécie o entusiasmo e a fascinação que a poesia exerce sobre o comum dos homens, quer dizer sobre todos os homens, pois ninguém pode supor-se permanentemente ao abrigo de ser como o comum dos homens [...].
Eduardo Lourenço
In Tempo e Poesia. Lisboa, Relógio d'Água 1987
5.6.07
Uma ilha escondida na memória
Ansel Adams
Rodeada de mar, convoco o límpido diálogo
dos abismos, para gritar, com Ulisses,
o desejo de ser livre e mortal.
Havia , assim o dizem, uma tempestade em sua boca.
As sereias tomavam-lhe o pulso dos sentidos,
como sulcos de aves no contorno da luz.
A música das marés enfurecia seu sexo.
Contra os rochedos, morriam as gaivotas
enlouquecidas de prazer.
Mas, os deuses fixaram-se no litoral da eternidade,
para lhe indicarem o caminho da morte,
porque ele era, apenas, um homem,
com uma ilha escondida na memória.
Graça Pires
dos abismos, para gritar, com Ulisses,
o desejo de ser livre e mortal.
Havia , assim o dizem, uma tempestade em sua boca.
As sereias tomavam-lhe o pulso dos sentidos,
como sulcos de aves no contorno da luz.
A música das marés enfurecia seu sexo.
Contra os rochedos, morriam as gaivotas
enlouquecidas de prazer.
Mas, os deuses fixaram-se no litoral da eternidade,
para lhe indicarem o caminho da morte,
porque ele era, apenas, um homem,
com uma ilha escondida na memória.
Graça Pires
De Uma certa forma de errância, 2003
4.6.07
Em seara alheia

Antigamente havia sempre aquela música
tu sabes. Era a música feita à beira da seara
o cântico da sede e das ceifeiras. E nosso
era o direito a entrar na casa onde
tínhamos o fresco dos lençóis, o púcaro
de barro de água fresca, o livro de
palavras feitas verso, o gato persa, o ruído
que provoca o silêncio quando excessivo
a um ouvido surdo, uma maçã de
estio cujo sumo escorre sobre o peito
se trincamos a polpa e entre os dentes
se ilumina um sentido, entre os
dedos um frémito súbito se instala.
Porque a brisa nem sempre é um rumor
às vezes é também parte de um
verso. Antigamente havia sempre a
música do sono que chegava sem pressa e
sem vagar, porque tudo acontecia nessa casa.
Lá dentro havia o corpo à sombra espessa.
Nuno de Figueiredo
tu sabes. Era a música feita à beira da seara
o cântico da sede e das ceifeiras. E nosso
era o direito a entrar na casa onde
tínhamos o fresco dos lençóis, o púcaro
de barro de água fresca, o livro de
palavras feitas verso, o gato persa, o ruído
que provoca o silêncio quando excessivo
a um ouvido surdo, uma maçã de
estio cujo sumo escorre sobre o peito
se trincamos a polpa e entre os dentes
se ilumina um sentido, entre os
dedos um frémito súbito se instala.
Porque a brisa nem sempre é um rumor
às vezes é também parte de um
verso. Antigamente havia sempre a
música do sono que chegava sem pressa e
sem vagar, porque tudo acontecia nessa casa.
Lá dentro havia o corpo à sombra espessa.
Nuno de Figueiredo
In Amargas Cores do Tempo. V. N. Famalicão: Quasi, 2006
3.6.07
Era o tempo das colheitas
Manuel Alvarez Bravo
Era o tempo das colheitas.
Coroada de silvas, uma mulher
dançava, nua, no meio do trigo.
Tão líquida, a luz, contornava-lhe o olhar,
num movimento lento, quase discreto,
como se lhe pusesse, nos olhos,
o improvisado voo das estrelas.
Nunca se soube o que lhe aconteceu.
Mas, às vezes, de noite, ainda um rumor
de solidão se confunde com o vento.
Graça Pires
Coroada de silvas, uma mulher
dançava, nua, no meio do trigo.
Tão líquida, a luz, contornava-lhe o olhar,
num movimento lento, quase discreto,
como se lhe pusesse, nos olhos,
o improvisado voo das estrelas.
Nunca se soube o que lhe aconteceu.
Mas, às vezes, de noite, ainda um rumor
de solidão se confunde com o vento.
Graça Pires
De Quando as estevas entraram no poema, 2005
2.6.07
Conjugar afectos
Menez
Regresso ao modo e ao tempo
de conjugar afectos por instinto.
Distorço a forma, do lado controverso dos fonemas
e não me excluo das palavras mais ousadas,
ou inesperadamente sóbrias,
denunciando vertigens e sossegos.
Nos meus olhos prevalece a morfologia íntima
dos nomes que revestem a garganta dos amantes
quando desatam o silêncio no contorno das bocas.
No meu peito cresce um poema desmedido, peregrino,
que pode ser um rosto, ou uma fonte,
ou, apenas, um barco que se afasta.
Sublinho, então, deliberadamente, as sílabas
do meu nome em tudo quanto leio.
Um vazio de jade molda, em mim, um útero
que se auto-destrói, como uma dádiva
Distorço a forma, do lado controverso dos fonemas
e não me excluo das palavras mais ousadas,
ou inesperadamente sóbrias,
denunciando vertigens e sossegos.
Nos meus olhos prevalece a morfologia íntima
dos nomes que revestem a garganta dos amantes
quando desatam o silêncio no contorno das bocas.
No meu peito cresce um poema desmedido, peregrino,
que pode ser um rosto, ou uma fonte,
ou, apenas, um barco que se afasta.
Sublinho, então, deliberadamente, as sílabas
do meu nome em tudo quanto leio.
Um vazio de jade molda, em mim, um útero
que se auto-destrói, como uma dádiva
a ignoradas divindades.
Estou a oriente do porvir
Estou a oriente do porvir
e tenho, amarrada aos pulsos,
a disponibilidade dos pontos cardeais.
Graça Pires
a disponibilidade dos pontos cardeais.
Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997
31.5.07
Crianças
Gotthard Schuh
Mansamente aprendendo o tempo,
têm o espanto no rosto
e querem saber as sílabas encantadas,
o som dos barcos, os ninhos, o carrocel,
as cantigas de roda.
Com que sonhos lhes daremos
uma casa sem sustos,
ou a dispobibilidade das searas,
ou, tão só, uma palavra de amor,
que lhes permaneça na voz
pela vida fora?
Graça Pires
têm o espanto no rosto
e querem saber as sílabas encantadas,
o som dos barcos, os ninhos, o carrocel,
as cantigas de roda.
Com que sonhos lhes daremos
uma casa sem sustos,
ou a dispobibilidade das searas,
ou, tão só, uma palavra de amor,
que lhes permaneça na voz
pela vida fora?
Graça Pires
De Ortografia do olhar, 1996
30.5.07
O coração não tem margens
Robert Adams
Como se todas as coisas fossem possíveis,
mesmo o milagre de vozes solidárias e cúmplices
na teimosia de quem acredita na magia
de qualquer lonjura, sei, de súbito,
que o coração não tem margens:
é um mar frágil que submerge
os olhos desprevenidos do homem.
Graça Pires
mesmo o milagre de vozes solidárias e cúmplices
na teimosia de quem acredita na magia
de qualquer lonjura, sei, de súbito,
que o coração não tem margens:
é um mar frágil que submerge
os olhos desprevenidos do homem.
Graça Pires
De Outono: lugar frágil, 1993
29.5.07
Vem comigo
Robert Doisneau
Empurro, com gestos clandestinos,
o intervalo existente entre mim
e a sombra das tuas mãos.
Diz-me palavras insensatas,
para que eu percorra os segredos
escondidos no silêncio da tua voz.
Toca-me com lábios enlouquecidos.
Vem comigo.
Verás o halo inconfundível da poesia
celebrando paixões, arrasando nomes,
vigiando o começo da febre
nas terras onde maio é manso.
Deixa-me ser um peixe verde
Diz-me palavras insensatas,
para que eu percorra os segredos
escondidos no silêncio da tua voz.
Toca-me com lábios enlouquecidos.
Vem comigo.
Verás o halo inconfundível da poesia
celebrando paixões, arrasando nomes,
vigiando o começo da febre
nas terras onde maio é manso.
Deixa-me ser um peixe verde
no aquário, sem dimensões, do teu olhar.
Graça Pires
Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997
28.5.07
Em seara alheia
era apenas um retrato
que um fotógrafo de ocasião nos tirou
e tinha a história de não ter
história nenhuma
(já li uma frase assim no Alberto Caeiro
desculpa)
lembro-me: nem sequer olhávamos um para o outro
embora o fotógrafo se tivesse esforçado muito
em nos mostrar felizes
mas ele não podia adivinhar que a hora da partida
se desenhava no fumo dos cafés que bebíamos
ao som triste da Anne van der Lowe no jukebox
das gares onde adiávamos diariamente
os funestos rumores do esquecimento
talvez tivéssemos estremecido um pouco
e por isso os nossos rostos ficaram
levemente desfocados
como se naquele momento tivéssemos encontrado
a mais eficaz palavra
de despedida.
Alice Vieira
In: Dois corpos tombando na água. Lisboa : Caminho, 2007
que um fotógrafo de ocasião nos tirou
e tinha a história de não ter
história nenhuma
(já li uma frase assim no Alberto Caeiro
desculpa)
lembro-me: nem sequer olhávamos um para o outro
embora o fotógrafo se tivesse esforçado muito
em nos mostrar felizes
mas ele não podia adivinhar que a hora da partida
se desenhava no fumo dos cafés que bebíamos
ao som triste da Anne van der Lowe no jukebox
das gares onde adiávamos diariamente
os funestos rumores do esquecimento
talvez tivéssemos estremecido um pouco
e por isso os nossos rostos ficaram
levemente desfocados
como se naquele momento tivéssemos encontrado
a mais eficaz palavra
de despedida.
Alice Vieira
In: Dois corpos tombando na água. Lisboa : Caminho, 2007
27.5.07
25.5.07
O colo côncavo de afectos
Antecipo o sobressalto de um estio antigo.
Vislumbro uma casa para agasalhar a infância.
As paredes repletas de lembranças.
A mãe : o colo côncavo de afectos.
Labirinto alagado de ternura
no alvoroço da memória.
Águia azul na linguagem dos precipícios.
Limite entre a sede
e a limpidez de qualquer fonte.
Graça Pires
Vislumbro uma casa para agasalhar a infância.
As paredes repletas de lembranças.
A mãe : o colo côncavo de afectos.
Labirinto alagado de ternura
no alvoroço da memória.
Águia azul na linguagem dos precipícios.
Limite entre a sede
e a limpidez de qualquer fonte.
Graça Pires
De Labirintos, 1997
24.5.07
No meio das palavras
Luciana Abait
Quando, nos lábios, começa um continente,
suspenso no apelo líquido dos beijos,
há um barco que cresce nos meus olhos
e, entre búzios verdes, escrevo água.
Nunca a brisa se demora entre as dunas,
onde os barcos navegam sobre a espuma.
Tudo é secreto, se maio se repete
nas marcas da pureza recusada.
Um rosto ou um rio me fascinam,
quando a raiva e o sossego
me revelam a nascente
e, no meio das palavras,
procuro apenas um gesto
ou uma sombra.
suspenso no apelo líquido dos beijos,
há um barco que cresce nos meus olhos
e, entre búzios verdes, escrevo água.
Nunca a brisa se demora entre as dunas,
onde os barcos navegam sobre a espuma.
Tudo é secreto, se maio se repete
nas marcas da pureza recusada.
Um rosto ou um rio me fascinam,
quando a raiva e o sossego
me revelam a nascente
e, no meio das palavras,
procuro apenas um gesto
ou uma sombra.
De Poemas, 1990
23.5.07
Meme (*)
A felicidade é um projecto de inconformismo.
Fernando Savater
Este desafio foi-me colocado pela Menina Marota
(*) Um "meme" é um "gen ou gene cultural" que envolve algum conhecimento que passas a outros contemporâneos ou a teus descendentes. Os memes podem ser ideias ou partes de ideias, línguas, sons, desenhos, capacidades, valores estéticos e morais, ou qualquer outra coisa que possa ser aprendida facilmente e transmitida enquanto unidade autónoma. Simplificando: é um comentário, uma frase, uma ideia que rapidamente é propagada pela Web, usualmente por meio de blogues. O neologismo "memes" foi criado por Richard Dawkins, autor de O Gene Egoísta, dada a sua semelhança fonética com o termo "genes".
22.5.07
Pelo interior do mito
Duncan C. Clark
Os veleiros aproximam-se dos portos
pelo interior do mito. Um perfume nocturno,
impregnado de limos, devolve-me as palavras
que sobrevivem ao desapego dos braços.
Quando os barcos, fatigados das marés,
já me adormeciam no olhar, falaste-me
do mar intranquilo no teu peito e dos veleiros
amarrados nos teus pulsos.
pelo interior do mito. Um perfume nocturno,
impregnado de limos, devolve-me as palavras
que sobrevivem ao desapego dos braços.
Quando os barcos, fatigados das marés,
já me adormeciam no olhar, falaste-me
do mar intranquilo no teu peito e dos veleiros
amarrados nos teus pulsos.
De Uma certa forma de errância, 2003
21.5.07
Em seara alheia

turvam-se os olhos no amor
como se turvam
na morte
há uma luz
que treme
e que se apaga
rendida à sensação
mais forte
ama-se
morre-se
tão simplesmente
no amor
como na morte
é tudo
uma questão de tempo
uma questão de sorte
Y. K. Centeno
In Perto da terra. Lisboa, Presença, 1984
como se turvam
na morte
há uma luz
que treme
e que se apaga
rendida à sensação
mais forte
ama-se
morre-se
tão simplesmente
no amor
como na morte
é tudo
uma questão de tempo
uma questão de sorte
Y. K. Centeno
In Perto da terra. Lisboa, Presença, 1984
20.5.07
Apenas um momento

Quando a véspera
do mais prolongado sossego
me fere a solidão da infância
quero um momento,
apenas um momento,
para que o excesso de luz a prumo
amotine as palavras nos meus lábios
e as confunda com a quietude
urgente da paisagem.
De pulsos iluminados
poiso a voz no fundo da tristeza,
para expor a voz de outrora:
do mais prolongado sossego
me fere a solidão da infância
quero um momento,
apenas um momento,
para que o excesso de luz a prumo
amotine as palavras nos meus lábios
e as confunda com a quietude
urgente da paisagem.
De pulsos iluminados
poiso a voz no fundo da tristeza,
para expor a voz de outrora:
no dia mais bonito que vier irei,
sem rumo algum, ao deus-dará,
procurar um lugar para morrer,
as vezes que eu quiser, até nascer sem dor.
as vezes que eu quiser, até nascer sem dor.
De Não sabia que a noite podia incendiar-se nos meus olhos, 2007
16.5.07
Tão plural como o silêncio
Amedeo Modigliani
Jejuei sob o nome das coisas desejadas,
com a boca presa aos resíduos do medo
na secura dos olhos.
Herdei a nomenclatura dos vadios
e fico onde não sei,
à procura de tudo e de nada.
Apátrida. Sem rota. Terra ocupada.
O meu poema não cabe nesta angústia
de ter nos pés o funambulismo
litigioso dos sonhos.
Sobrevivo a todas as memórias,
mesmo às que definham no rosto dos velhos.
E a minha voz tornou-se tão plural como o silêncio.
com a boca presa aos resíduos do medo
na secura dos olhos.
Herdei a nomenclatura dos vadios
e fico onde não sei,
à procura de tudo e de nada.
Apátrida. Sem rota. Terra ocupada.
O meu poema não cabe nesta angústia
de ter nos pés o funambulismo
litigioso dos sonhos.
Sobrevivo a todas as memórias,
mesmo às que definham no rosto dos velhos.
E a minha voz tornou-se tão plural como o silêncio.
De Labirintos, 1997
15.5.07
A noite é a sombra de um pássaro
Duncan C. Clark
A noite é a sombra de um pássaro
que procura o mar em voo raso.
Às vezes, rasga as margens do pudor,
em erótica incursão, e me deslumbra,
e me perturba, e se transforma na porta aberta,
por onde deserto de uma guerrilha interior,
para exorcizar a ruína da lua nos meus braços.
Graça Pires
De Conjugar afectos, 1977
que procura o mar em voo raso.
Às vezes, rasga as margens do pudor,
em erótica incursão, e me deslumbra,
e me perturba, e se transforma na porta aberta,
por onde deserto de uma guerrilha interior,
para exorcizar a ruína da lua nos meus braços.
Graça Pires
De Conjugar afectos, 1977
14.5.07
13.5.07
Uma história com ondas e marés

Na concha mais débil se adivinha
uma história com ondas e marés,
quando a sombra de um mar
perturba a cor dos olhos
e povoa de barcos a respiração.
A voz, agrafada na revolta íntima
uma história com ondas e marés,
quando a sombra de um mar
perturba a cor dos olhos
e povoa de barcos a respiração.
A voz, agrafada na revolta íntima
das fragas, estende uma paisagem
para o lado liberto da noite,
onde as luas se pressentem,
onde as luas se pressentem,
excessivas como as paixões.
Graça Pires
De Conjugar afectos, 1977
Graça Pires
De Conjugar afectos, 1977
10.5.07
Como silenciar as mãos?
André Kertész
Perturbada pelo desacato das emoções,
utilizo um roteiro de artifícios
utilizo um roteiro de artifícios
para simular, em cada madrugada,
a cumplicidade dos deuses.
Mas, como silenciar as mãos que dobam
a brisa da manhã, no vórtice do tempo ?
Não iludo a distância.
Mas, como silenciar as mãos que dobam
a brisa da manhã, no vórtice do tempo ?
Não iludo a distância.
É devagar que olho para trás,
à procura de mim.
Cada vinco do rosto, é um caminho
onde a angústia se deteve.
Graça Pires
De Uma certa forma de errância, 2003
Graça Pires
De Uma certa forma de errância, 2003
9.5.07
8.5.07
Aquela rosa branca

Escuta estes cânticos de maio
a espreitar a cidade
e traz-me, outra vez,
a espreitar a cidade
e traz-me, outra vez,
aquela rosa branca
desenhada nos teus ombros,
para que eu a exiba no penteado.
O prazer perturba os deuses
e devolve-nos um aroma da infância:
leite morno vertido sobre a pele.
Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997
desenhada nos teus ombros,
para que eu a exiba no penteado.
O prazer perturba os deuses
e devolve-nos um aroma da infância:
leite morno vertido sobre a pele.
Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997
7.5.07
Em seara alheia

Ela levantou o joelho direito por entre as tuas coxas
escreveu-te a boca com o húmido sal da manhã
como se fosse uma deusa inesperada e furiosa
e cercou-te com a noite da última parede do labirinto.
Tu tinhas a dor erguida e os olhos choravam.
Chovia por entre as rochas e explodia-te nos rins
a cegueira que a olhava: dura e trémula.
Se fosses morrer logo a seguir a neve
não cairia dessa forma sobre a praia e o mundo.
mas tu morrias agora, ó amante no escuro do dia então.
Manuel GusmãoIn Mapas o assombro a sombra. Lisboa : Caminho, 2005
escreveu-te a boca com o húmido sal da manhã
como se fosse uma deusa inesperada e furiosa
e cercou-te com a noite da última parede do labirinto.
Tu tinhas a dor erguida e os olhos choravam.
Chovia por entre as rochas e explodia-te nos rins
a cegueira que a olhava: dura e trémula.
Se fosses morrer logo a seguir a neve
não cairia dessa forma sobre a praia e o mundo.
mas tu morrias agora, ó amante no escuro do dia então.
Manuel GusmãoIn Mapas o assombro a sombra. Lisboa : Caminho, 2005
6.5.07
Quando maio chegou contigo

Para a minha filha Ana Isabel
Queres saber o quê, minha filha?
É que não encontro respostas
para as tuas questões.
Uma mãe não hesita. Não é negligente.
Usa sábias e vigilantes palavras.
Isto deve ser verdade.
Mas quando maio chegou contigo,
nenhuma sombra me avisou
do ansioso brilho dos teus olhos.
E agora ?
Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997
É que não encontro respostas
para as tuas questões.
Uma mãe não hesita. Não é negligente.
Usa sábias e vigilantes palavras.
Isto deve ser verdade.
Mas quando maio chegou contigo,
nenhuma sombra me avisou
do ansioso brilho dos teus olhos.
E agora ?
Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997
5.5.07
A mãe
Balthus
Adivinhar, no teu rosto, o rio da infância
e deslizar, em deslumbradas canoas,
pelo sal dos teus olhos.
Afaga os meus cabelos, mãe
para que, a palavra crescer,
não doa, de novo, nos meus passos.
Deixa-me ver, na tua pele,
as linhas do silêncio,
com que teceste a coragem
e os sonhos : a parte da tua herança
que, legitimamente, me cabe.
Graça Pires
De Ortografia do olhar, 1996
e deslizar, em deslumbradas canoas,
pelo sal dos teus olhos.
Afaga os meus cabelos, mãe
para que, a palavra crescer,
não doa, de novo, nos meus passos.
Deixa-me ver, na tua pele,
as linhas do silêncio,
com que teceste a coragem
e os sonhos : a parte da tua herança
que, legitimamente, me cabe.
Graça Pires
De Ortografia do olhar, 1996
4.5.07
3.5.07
Vamos falar de poesia

Não podemos saltar por cima da nossa própria sombra.
Poderá fazê-lo a poesia?
George Steiner
In Gramáticas da Criação.Lisboa:Relógio d'Água, 2002
2.5.07
Exausta de esperar

Exausta de esperar, descanso o olhar
na silhueta de veleiros pintados de negro.
Depois, desenho, em minha insónia, um pássaro,
que me sobrevoe a infância, hasteando,
bem por dentro da meninice, um rosto paterno,
para que a boca me não sangre de orfandade.
Naufragaste numa noite
em que o brilho da lua adormeceu
e deixaste-me uma ilha por herança.
Graça Pires
e deixaste-me uma ilha por herança.
Graça Pires
De Uma certa forma de errância, 2003
1.5.07
Ninguém me viu
Alfredo Cunha
Ninguém me viu
mas, na multidão,
era indelével
o meu vulto
atento à vida
como um sonho aceso
e no meu rosto
havia uma bandeira colorida
mas ninguém me viu,
muda de mágoa,
placenta das palavras que gerei
no aceno dos meus braços.
Ninguém me viu
e os meus passos
soavam a loucura
ao ritmo de um verso
e no meu olhar
estava impressa a solidão
mas, na multidão,
era indelével
o meu vulto
atento à vida
como um sonho aceso
e no meu rosto
havia uma bandeira colorida
mas ninguém me viu,
muda de mágoa,
placenta das palavras que gerei
no aceno dos meus braços.
Ninguém me viu
e os meus passos
soavam a loucura
ao ritmo de um verso
e no meu olhar
estava impressa a solidão
mas ninguém me viu.
Graça Pires
Graça Pires
De Poemas, 1990
30.4.07
Em seara alheia

PENÉLOPE, MEIO DIA
Está na cozinha, a sopa ao lume, os pratos na
mesa, talheres para dois, como se ele viesse. Hoje.
Ele não volta, anda embarcado há muitos anos num
navio com sal e ferrugem nos porões. Mas ela espera,
sabe que ele pode chegar a qualquer momento. Às
vezes espreita a telenovela ou as ervas a crescer junto
ao muro do quintal. No resto do tempo, faz e desfaz
o mesmo naperon, para enganar as horas, o frio,
a solidão e um corpo esquecido do que é o amor.
José Mário Silva
In: Nuvens & Labirintos. Lisboa: Gótica, 2001
Está na cozinha, a sopa ao lume, os pratos na
mesa, talheres para dois, como se ele viesse. Hoje.
Ele não volta, anda embarcado há muitos anos num
navio com sal e ferrugem nos porões. Mas ela espera,
sabe que ele pode chegar a qualquer momento. Às
vezes espreita a telenovela ou as ervas a crescer junto
ao muro do quintal. No resto do tempo, faz e desfaz
o mesmo naperon, para enganar as horas, o frio,
a solidão e um corpo esquecido do que é o amor.
José Mário Silva
In: Nuvens & Labirintos. Lisboa: Gótica, 2001
29.4.07
De múltiplas cores

Encosto a cara às quimeras da infância,
para exorcizar a inocência perdida
e rodopiar, sobre os sonhos, a valsa
solitária da criança que fui,
quando as minhas mãos, nativas do sol,
eram aves de múltiplas cores.
Páro todos os relógios, para escutar
a respiração dos dias.
E, como um actor que se esgota na personagem,
rasgo o cenário e danço, como um louco, em redor
de malogros entralaçados nos meus pulsos.
Tenho, em volta do pescoço, uma lua
transparente que me enrouquece a voz.
Graça Pires
De Reino da lua, 2002
26.4.07
A luz mais que perfeita
Richard Nowicki
De pés tumultuados, caminhas pelo anoitecer,
com os lábios viciados de algas azuis.
Uma velhice súbita lateja sobre os teus ombros
e pega-se-te ao rosto uma angústia sem recuo:
um caminho de mágoa nos teus olhos.
Na orla do mar, os deuses organizam tua morte,
enquanto a luz, mais que perfeita, de uma ilha,
soluça no teu peito.
Graça Pires
com os lábios viciados de algas azuis.
Uma velhice súbita lateja sobre os teus ombros
e pega-se-te ao rosto uma angústia sem recuo:
um caminho de mágoa nos teus olhos.
Na orla do mar, os deuses organizam tua morte,
enquanto a luz, mais que perfeita, de uma ilha,
soluça no teu peito.
Graça Pires
De Uma certa forma de errância, 2003
25.4.07
Incendiando o trigo
Tinha chegado o tempo
em que era possível ser livre.
Souberem-no as palavras. E os pássaros.
O voo das gaivotas motivou
em que era possível ser livre.
Souberem-no as palavras. E os pássaros.
O voo das gaivotas motivou
o rumo dos veleiros.
Reconciliaram-se as manhãs.
Tu e eu : de mãos adolescentes
incendiando o trigo.
Graça Pires
Reconciliaram-se as manhãs.
Tu e eu : de mãos adolescentes
incendiando o trigo.
Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997
24.4.07
As minhas mãos se dão

Aqui, onde o coração reclama uma pátria melhor,
volto ao lugar das palavras que nunca calei,
por saber que o silêncio se articula na errância
da voz e que nele cabe a solidária multidão
que ama, por inteiro, a liberdade.
A boca sabe-me, inesperadamente, a sangue,
em nome daqueles que desistiram do sonho,
sem remorsos, à margem da esperança.Tardei a encontrar o exótico perfume,
com que alucinei os dias e as noites,
onde, de um trago só, bebi a própria sede,
guardada no barro da memória.
Agora, sou dos que medem o desassossego
dos lábios, pelo silente sobrevoar dos pássaros,
rente à coragem ou às lágrimas.
As minhas mãos se dão, com a inquieta força
de quem vive ancorado ao fascínio de ter no olhar
um horizonte tão livre, tão límpido,
como a luz transfigurada das manhãs.
Graça Pires
De Reino da lua, 2002
volto ao lugar das palavras que nunca calei,
por saber que o silêncio se articula na errância
da voz e que nele cabe a solidária multidão
que ama, por inteiro, a liberdade.
A boca sabe-me, inesperadamente, a sangue,
em nome daqueles que desistiram do sonho,
sem remorsos, à margem da esperança.Tardei a encontrar o exótico perfume,
com que alucinei os dias e as noites,
onde, de um trago só, bebi a própria sede,
guardada no barro da memória.
Agora, sou dos que medem o desassossego
dos lábios, pelo silente sobrevoar dos pássaros,
rente à coragem ou às lágrimas.
As minhas mãos se dão, com a inquieta força
de quem vive ancorado ao fascínio de ter no olhar
um horizonte tão livre, tão límpido,
como a luz transfigurada das manhãs.
Graça Pires
De Reino da lua, 2002
23.4.07
Em seara alheia
LIBERDADE
– Liberdade, que estais no céu...
Rezava o padre nosso que sabia
A pedir-te, humildemente,
O pão de cada dia.
Mas a tua bondade omnipotente
Nem me ouvia.
– Liberdade, que estais na terra...
– Liberdade, que estais na terra...
E a minha voz crescia
De emoção.
Mas um silêncio triste sepultava
A fé que ressumava
Da oração.
Até que um dia, corajosamente,
Até que um dia, corajosamente,
Olhei noutro sentido, e pude, deslumbrado,
Saborear, enfim,
O pão da minha fome.
– Liberdade, que estais em mim,
Santificado seja o vosso nome.
Miguel Torga
Albufeira, 28 de Agosto de 1975
In Diário XII
22.4.07
O corpo do texto
Migdalia Arellano
Em movimento, o manequim desfila
a saga fonética de um tema contraditório.
Como dizer as jóias e as sedas
de um diálogo de amor interrompido?
Com que lantejoulas se enfeitam
as intrigas suspensas no mutismo?
Rodopiante, a prosa é outorgada
no delírio erótico das vogais.
Manufacturam-se réplicas e hábitos.
Especulam-se hipérboles.
Manipulam-se ciladas.
Na palma da mão, monta-se a plateia.
A bailarina confunde a dança
a saga fonética de um tema contraditório.
Como dizer as jóias e as sedas
de um diálogo de amor interrompido?
Com que lantejoulas se enfeitam
as intrigas suspensas no mutismo?
Rodopiante, a prosa é outorgada
no delírio erótico das vogais.
Manufacturam-se réplicas e hábitos.
Especulam-se hipérboles.
Manipulam-se ciladas.
Na palma da mão, monta-se a plateia.
A bailarina confunde a dança
com o corpo do texto.
Transfigura-se na mitológica divindade,
sobre a qual toda a gente se questiona.
O enredo é a insónia onde dorme
Transfigura-se na mitológica divindade,
sobre a qual toda a gente se questiona.
O enredo é a insónia onde dorme
a contrição da memória.
Uns braços, tatuados de ruínas,
anunciam a múltipla morte da inocência.
Anoitece na cidade costeira do cenário.
O poeta tem o mesmo olhar indeciso dos mendigos.
Graça Pires
Uns braços, tatuados de ruínas,
anunciam a múltipla morte da inocência.
Anoitece na cidade costeira do cenário.
O poeta tem o mesmo olhar indeciso dos mendigos.
Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997
21.4.07
Insisto num rosto efémero
Modigliani
Do outro lado do disfarce,
insisto num rosto efémero.
A que punhal ou perigo me insinuo?
Sou o encontro adiado,
neste prenúncio de muros
A que punhal ou perigo me insinuo?
Sou o encontro adiado,
neste prenúncio de muros
ou de mãos indomáveis.
Quero, no reverso da névoa,
onde não dancei os sonhos,
Quero, no reverso da névoa,
onde não dancei os sonhos,
um teatro de papel.
Diante da muralha da noite
ensaio as sombras sob as pálpebras
e altero o nome das cantigas
Diante da muralha da noite
ensaio as sombras sob as pálpebras
e altero o nome das cantigas
que me circulam no sangue, em sobressalto.
Graça Pires
Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997
20.4.07
A quietude de um abraço
Antonio Canova
Há falsos profetas a levante do destino.
É preciso fechar por dentro
as águas furtadas da sorte.
Emparedar os passos.
Não vá haver, por aí, interditos anjos,
a violentar-nos o andar.
Apenas o silêncio é comum às mãos
que acolhem todas as tempestades,
sem desviar os olhos da quietude de um abraço :
labirinto onde aceitamos ser felizes
sem qualquer condição.
Terra natal de todos os desejos.
Sudário das nossas solidões.
Graça Pires
É preciso fechar por dentro
as águas furtadas da sorte.
Emparedar os passos.
Não vá haver, por aí, interditos anjos,
a violentar-nos o andar.
Apenas o silêncio é comum às mãos
que acolhem todas as tempestades,
sem desviar os olhos da quietude de um abraço :
labirinto onde aceitamos ser felizes
sem qualquer condição.
Terra natal de todos os desejos.
Sudário das nossas solidões.
Graça Pires
De Labirintos, 1997
19.4.07
O primeiro sinal da tua ausência
Rasgo, nos pulsos, a veia onde guardei
o primeiro sinal da tua ausência.
Esvaio-me em sangue, ou em raiva,
como se a morte fosse o único modo
de resgatar os sentimentos
pelo percurso do coração.
É estranho como consigo amar-te,
mesmo quando em mim se quebram
todos os mares intranquilos
e o corpo se despedaça contra as fragas
de um pervertido monólogo.
É estranho como decidi partir, presa ao teu rosto,
contra a vertigem de querer encontrar,
na tua mão, a linha da minha vida. É estranho.
Há agora um lugar onde é perigoso o amor.
Sou a porta aberta a todos os pássaros
a caminho do sul e enrolo o pensamento
na revolta de não poder seguir-te,
de não poder querer-te,
de não poder esconjurar no teu abraço
todas as minhas culpas.
Graça Pires
Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997
18.4.07
Por dentro dos desejos
Chip Forelli
O entardecer tem ilhas no centro da noite.
O barulho da água cobre de música
a subtileza dos sentimentos.
De ponta a ponta da pele,
um arrepio de unhas ou de febre,
a mover-se por dentro dos desejos.
Não tarda um casulo de malícia na dureza do corpo
e o pulso à deriva pelo esquivo feno dos abraços.
Graça Pires
O barulho da água cobre de música
a subtileza dos sentimentos.
De ponta a ponta da pele,
um arrepio de unhas ou de febre,
a mover-se por dentro dos desejos.
Não tarda um casulo de malícia na dureza do corpo
e o pulso à deriva pelo esquivo feno dos abraços.
Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997
17.4.07
A cor controversa dos teus olhos
Para o Afonso, meu neto
Não sei se a rotina do criador ignorou,
por instantes, os limites da eternidade
e ordenou aos pássaros que voassem
mais alto que as estrelas.
As searas, porém, convocaram a luz
da madrugada, para envolver, nos teus cabelos,
o brilho das espigas.
Agora, por onde passas, o céu é tão azul
como a cor controversa dos teus olhos.
Graça Pires
De Quando as estevas entraram no poema, 2005
16.4.07
Em seara alheia

Coração Polar
1.
Não sei de que cor são os navios
quando naufragam no meio dos teus braços
sei que há um corpo nunca encontrado algures no mar
e que esse corpo vivo é o teu corpo imaterial
a tua promessa nos mastros de todos os veleiros
a ilha perfumada das tuas pernas
o teu ventre de conchas e corais
a gruta onde me esperas
com teus lábios de espuma e de salsugem
os teus naufrágios
e a grande equação do vento e da viagem
onde o acaso floresce com seus espelhos
seus indícios de rosa e descoberta.
Não sei de que cor é essa linha
onde se cruza a lua e a mastreação
mas sei que em cada rua há uma esquina
uma abertura entre a rotina e a maravilha
há uma hora de fogo para o azul
a hora em que te encontro e não te encontro
há um ângulo ao contrário
uma geometria mágica onde tudo pode ser possível
há um mar imaginário aberto em cada página
não me venham dizer que nunca mais
as rotas nascem do desejo
e eu quero o cruzeiro do sul das tuas mãos
quero o teu nome escrito nas marés
nesta cidade onde no sítio mais absurdo
num sentido proibido ou num semáforo
todos os poentes me dizem quem tu és.
Manuel AlegreIn Senhora das Tempestades. Lisboa: Dom Quixote, 1998
1.
Não sei de que cor são os navios
quando naufragam no meio dos teus braços
sei que há um corpo nunca encontrado algures no mar
e que esse corpo vivo é o teu corpo imaterial
a tua promessa nos mastros de todos os veleiros
a ilha perfumada das tuas pernas
o teu ventre de conchas e corais
a gruta onde me esperas
com teus lábios de espuma e de salsugem
os teus naufrágios
e a grande equação do vento e da viagem
onde o acaso floresce com seus espelhos
seus indícios de rosa e descoberta.
Não sei de que cor é essa linha
onde se cruza a lua e a mastreação
mas sei que em cada rua há uma esquina
uma abertura entre a rotina e a maravilha
há uma hora de fogo para o azul
a hora em que te encontro e não te encontro
há um ângulo ao contrário
uma geometria mágica onde tudo pode ser possível
há um mar imaginário aberto em cada página
não me venham dizer que nunca mais
as rotas nascem do desejo
e eu quero o cruzeiro do sul das tuas mãos
quero o teu nome escrito nas marés
nesta cidade onde no sítio mais absurdo
num sentido proibido ou num semáforo
todos os poentes me dizem quem tu és.
Manuel AlegreIn Senhora das Tempestades. Lisboa: Dom Quixote, 1998
15.4.07
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