21.2.07

Em seara alheia




ZECA AFONSO: TROVADOR
DA VOZ D'OURO INSUBMISSO



É de murta e de mar a tua voz
Com algas de canção estrangulada.
Aberta a concha da trova malsofrida
Saíste como sai a madrugada
Da noite, virginal e humedecida.

É de vinho e de pinho a tua voz
Com pranto de insofríveis flores banidas.
Mas é pela tua garganta que soltamos
As eriçadas aves proibidas
Que no muro do medo desenhamos.
Natália CorreiaIn: O Sol nas Noites e o Luar nos Dias, 1º vol.
Lisboa : Círculo de Leitores, 1993

20.2.07

A marginalidade da luz

Manuel Fazenda Lourenço

Tão inesperado como um assombro,
um coro de tragédia urde, em meu peito,
a travessia da noite. Um barco sem cais,
prevê a morte de peixes transparentes.
De tanto olhar o mar, um marinheiro
enlouquecido, dançou em meus olhos,
ensaiando-me nos pés uma valsa perversa.
Por isso, de tempos a tempos, parto e regresso,
clandestinamente, sulcando no rosto
a marginalidade da luz.
As histórias do assombro com que vestia a lua,
terminaram há muito.
O meu sorriso guarda, inteira,
a desavença de meus dedos.

Graça Pires
De Reino da lua, 2002

19.2.07

Um homem desertou



Um homem desertou da hipótese de amar.
Escolheu a curva perigosa de um remorso,
onde escondeu o brilho dos seus olhos.
As suas mãos desaprenderam os afagos
e perderam o dom de receber.
Então, nunca mais ninguém o viu chorar,
porque, da sua boca, apenas sai, agora, um longo
deserto, por onde rasteja a sua sede.
Mas, este rosto que se esconde,
não é de um homem.
É um amor perfeito coagulado no sangue,
ou qualquer máscara a disfarçar
distâncias do futuro e a rejeitar
a linguagem de um incêndio de vozes.
Com que penas se descreve
um pássaro transparente?
Com que asas se soletram
os voos de lonjura e solidão?
Há quanto tempo a terra se inundou
nas margens do olhar.

Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

17.2.07

Agora que amanhece

Edward Hopper

Agora, que amanhece, decidi regressar à infância,
para sobreviver ao luto dos pássaros de luz.
Sob a protecção de um útero de fantasia,
transmudo-me em ave perdida na noite.
Por favor, não falem de sombras e de ausências.
Não perguntem a razão de cansaços e remorsos.
Não refiram nomes, nem datas, nem lugares.
Deixem, apenas, que a meninice volte de novo
e se reparta em íntimos silêncios.


Graça Pires
De Reino da lua, 2002

16.2.07

Chegaram as primeiras chuvas

Olivier Meriel

Chegaram as primeiras chuvas
e deixaram de ser verdes
os laços com que se urdem os desejos.
As violetas, que ladeiam os meus pulsos,
irão resistir a outro inverno ?
Que sombras me perseguem, na nocturna
memória de um litoral de búzios ?
Serão aves rasteiras a pernoitar
em meu sangue, ou morri de solidão,
com um navio, em chamas, entre os olhos ?


Graça Pires
De Uma certa forma de errância, 2003

15.2.07

Reino da Lua

Pascal Renoux

Como se nada mais existisse além da noite,
debruço-me sobre o meu próprio instinto
e rasgo, nos lábios, um inquieto chamamento.
Tudo o que sei a sede mo disse,
quando a colheita dos frutos anunciou
uma seiva excessiva à boca das fontes.
Pelo lado mais denso das trevas,
aguardo a eclosão da luz em meu olhar:
subitamente urgente de ser dia.
Perdida diante das palavras,
uma profunda inquietude domina
os meus dedos, enquanto um pássaro errante
me traça, no rosto, a matriz de um rio intranquilo.


Graça Pires
De Reino da lua,2002

14.2.07

Repara




Li, no jornal, que as acácias incendiaram as ruas
e a manhã rebentou-me no peito. Deliberadamente.

Repara como se encheu de pássaros a árvore
que desenhaste no meu peito. Repara como,
lentamente, anulámos a distância das mãos
e equacionámos a linguagem do afecto na curva
dos braços. Repara como nos emocionamos com a vida
e, em segredo, nos olhamos sem qualquer pudor.
Repara.


Graça Pires
De Reino da lua, 2002

13.2.07

As tuas mãos

Caravaggio


Para que saibas. As tuas mãos vogando
como barcos: incessante navegação
pela liquidez dos lábios.
As tuas mãos. Digo. Para que saibas.
Pássaros incendiados a sobrevoar-me
o sangue. Um tropel de luz a demandar meu corpo.
As tuas mãos : o arado, a terra, a fome, o celeiro.
Digo as tuas mãos. Para que saibas.
As tuas mãos tão próximas de tocar a lua.


Graça Pires
De Uma certa forma de errância, 2003

12.2.07

Em seara alheia



GEOGRAFIA

Chegavas ao anoitecer, dizia alguém,
ao fim de um porto,
à hora das valsas e dos crimes, a meio da
vida,
quando as hélices paravam e no convés se
ateava o lume das paixões que perduravam
no tempo dos navios,
quando, ao longo dos mapas,
os dedos procuravam as palmeiras e os
países,
neste ou noutro mundo,
onde os terraços pareciam navegar sobre o
próprio mar.

Partias ao anoitecer, dizia alguém,
e na cadeira vazia,
na cal sem mácula que decora as ilhas,
resplandecia a face das luas, com o farol
de outrora,
sobre os recifes por onde vagueiam os
fantasmas da nossa solidão.

José Agostinho Baptista

In: Agora e na Hora da Nossa Morte.Lisboa : Assírio & Alvim, 1998

11.2.07

Instantâneo



Com os dedos pintados de branco,
ela ajoelhou-se na terra,
para chorar a solidão dos homens.
Que anjo se movimenta
no discreto brilho que paira nos seus ombros?
De noite, as janelas de todas as casas
hão-de incendiar-se.
Um clarão perpassará os olhos
dos que avistam o sul
através da evocação das pombas
evadidas do inverno.
Ela continuará de joelhos,
longamente chorando a solidão dos homens.


Graça Pires
De Ortografia do olhar, 1996

9.2.07

Percorro os fonemas

Rene Magritte

Percorro os fonemas como se dançasse,
envolta numa túnica de água,
guarnecida de espelhos.
Sou Ariadne vestida de espanto.
Nos meus dedos cintilam longuíssimos fios
de um novelo de versos e de sonhos
com que me quero salvar.
Já não me lembro de que mitologia saí.
O meu labirinto tem a forma de um pássaro
conivente com a noite.


Graça Pires
De Labirintos, 1997

8.2.07

Sem nenhuma razão



Sem nenhuma razão,
a denúncia de um farol,
devolve-me o vulto improvisado de um navio,
e adormeço embrulhada em canções sentimentais,
confundindo a infância com o amor,
como quem se encosta ao vento,
se afaga no escuro,
e se queima nos pormenores da vida.

De Conjugar afectos, 1997

7.2.07

Nas horas mais nocturnas

Alvarez Bravo

Nas horas mais nocturnas, desenho um círculo
e rastejo, através dele, até à sede.
Bichos sonâmbulos ferem-me a garganta.
Um barco alado irrompe da noite
e mutila a lucidez das mãos.
Um grito único ressoa no meu peito.
Mas, a planície enrosca-se-me na voz
e não me devolve o eco, que só o coração ouve.


Graça Pires
De Quando as estevas entraram no poema, 2005

6.2.07

O perfil da minha infância

FoqStock

Meço o tempo na sequência de feições,
quase sem forma e avisto o perfil
da minha infância inventada.
Vejo-me no pátio de recreio
de uma cidade inocente.
Perco o pé na porta das surpresas
e corro, a toda a brida,
pelos segredos dissimulados
nos dedos que manejam
os papagaios de papel.

Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

5.2.07

Em seara alheia


Sobre esta terra me deito e digo sol
Digo-o na teimosia branda do casario,
onde à noite as mulheres,
todas de esperança vestidas,
enfeitam de pequenos búzios
a terrível margem do silêncio

Ah, ninguém já ousa semelhante Viagem!
Ou sequer, um frágil aceno,
como quem convoca, no rendilhado
das areias, a beleza de uma miragem;
espécie de visão fulgurante
onde uma porta auspiciosa se firma

Sobre esta terra me deito e digo sol
Digo-o com o feliz desalento que sempre trago,
com o desapego de duas mãos
na fértil aridez do DesertoVictor Oliveira Mateus
In: Pelo Deserto as Minhas Mãos. Sassoeiros : Coisas de Ler, 2004

3.2.07

A memória da ternura

Marc Chagall

A memória da ternura sobre o teu peito,
como um mel exótico.
Havemos de voltar à polifonia dos pássaros
com olhos de musgo e nenhum rumor
trairá em nós o silêncio das palavras
maduras, porque temos, rente ao rosto,
a límpida inclinação de um lago.
Morreremos apenas quando o amor
nos assustar mais do que a morte.
Agora, abrirei as mãos, para que possas ver
a passagem que vai dar ao rio da tua infância.
Mas, tem cuidado, amor,
porque não há nenhum deus dentro da lua cheia.


Graça Pires
De Outono: lugar frágil, 1993

2.2.07

Ignoro quantos navios partiram

Claude Monet


Ignoro quantos navios partiram,
ao primeiro sinal da estrela d’alba,
presos ao derradeiro sonho.
Venho de lugares onde me corrompi,
para tornar de pedra qualquer culpa.
Quero captar o brilho da sombra,
ou entender, apenas, a indecisão da luz,
com os olhos alagados de paixão.


Graça Pires
De Uma certa forma de errância, 2003

1.2.07

Vamos falar de poesia



POESÍA Y POEMA


La poesía es conocimiento, salvación, poder, abandono. Operación capaz de cambiar al mundo, la actividad poética es revolucionaria por naturaleza; ejercicio espiritual, es un método de liberación interior. La poesía revela este mundo; crea outro. Pan de los elegidos; alimento maldito. Aísla; une. Invitación al viage; regreso a la tierra natal. Inspiración, respiración, ejercício muscular. Plegaria al vacío, diálogo con la ausencia: el tedio, la angustia y la desesperación la alimentan. Oración, letanía, epifanía, presencia. Exorcismo, conjuro, magia. Sublimación, compensación, condensación del inconsciente. Expresión histórica de razas, naciones, clases. Niega a la historia: en su seno se resuelven todos los conflictos objetivos y el hombre adquiere al fin consciencia de ser algo más que tránsito. Experiencia, sentimiento, emoción, intuición, pensamiento no-dirigido. Hija del azar; fruto del cálculo, Arte de hablar en una forma superior; lenguage primitivo. Obediencia a las reglas; creación de otras. Imitación de los antiguos, copia de lo real, copia de una copia de la Idea..Locura, éxtasis, logos. Regreso a la infancia, coito, nostalgia del paraíso, del infierno, del limbo. Juego, trabajo, actividad ascética. Confésion. Experiencia innata. Visión, música, símbolo. Analogía: el poema es un caracol en donde resuena la música del mundo y metros y rimas no son sino correspondencias, ecos de la armonía universal. Enseñanza, moral, ejemplo, revelación, danza, diálogo, monólogo. Voz del pueblo, lengua de los escogidos, palabra del solitario. Pura e impura, sagrada y maldita, popular y minoritaria, colectiva y personal, desnuda y vestida, hablada, pintada, escrita, ostenta todos los rostos pero hay quien afirma que no posee ninguno: el poema es una careta que oculta el vacío, prueba hermosa de la superflua grandeza de toda obra humana!
[...]

Octavio PazIn: El arco y la lira, México: Fondo de Cultura Economica, 1992

31.1.07

Um novelo de rimas imperfeitas

Bea Danckaert

De rosto em rosto, a caligrafia do amor
implorou a memória das palavras encantadas
e, como se houvesse uma linguagem
de atravessar o tempo, acenderam,
sobre os dias, constelações sonoras.
Mas eu, que não adiro aos calendários,
nem acredito em vogais prometidas,
eu parti, de punhos febris,
enlaçando nos braços
um futuro marginal a qualquer lógica.
A posse da noite, onde me quero lua
em todas as fases, leva-me a glosar os medos
num novelo de rimas imperfeitas.
A cidade tem pombas
que me perseguem sem eu dar por isso.
Tenho um aqueduto modelado nos olhos
e um dilúvio vermelho no desenho do peito.


Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

30.1.07

Em silêncio

Manuel Alvarez Bravo

Em silêncio, sempre em silêncio,
as mulheres refazem o penteado,
que as mãos forasteiras
da noite desmancharam.
É a hora do romper do dia.
A cor da madrugada
quase que dói por dentro da pele.
E não fora a urdidura de mágoas
antigas, elas dariam, à paisagem,
o nome de um deus solar.


Graça Pires
De Quando as estevas entraram no poema, 2005

29.1.07

Em seara alheia



Estendo o braço até tocar
a sombra da tarde
- não quero outro exercício
enquanto fragmento de poema –
e é provável que as flores azuis,
que não sei identificar na berma
da estrada, amanhã já lá não
estejam, tão frágil é o meu
entendimento do mundo.
Sandra CostaIn: A Vocação dos Homens Silenciosos. Maia : Cosmorama, 2006

28.1.07

Entre um rosto e um nome

Stephen Alvarez


Entre um rosto e um nome
há bandos de pássaros em ascensão.
Exagero, quase sempre, a morfologia da noite,
no olhar mais que perfeito dos que têm no sangue
o país secreto das paixões.
Coexisto com a vertigem
de tocar a metamorfose da realidade visível.
Dou-lhe a forma de um tempo
que virá configurar o espaço iluminado do silêncio
e exorcizar a intimidade das palavras.


Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

27.1.07

A matriz sazonal da minha sombra

Steve Hanks

Intimidam-me os vestígios de inscrições,
citando o futuro, no muro da fatalidade.
Nos meus ombros há um campanário
de ironias invocando, desde que nasci,
os símbolos da imaginação.
A lápis de cor, desenho uma ilha,
onde me aprisiono até que amanheça.
Nas sobrancelhas do prazer,
construo um umbral à altura das emoções
e deixo que me coagulem na cintura
todas as formas de paixão.
Recapitulo, assim, a matriz sazonal
da minha sombra.


Graça Pires
De Labirintos, 1997

26.1.07

Detenho-me à porta de um parágrafo

Paul Strand


Detenho-me, à porta de um parágrafo,
como aprendiz de enredos.
Sou a personagem que teme a sua morte
ancorada na última página.
As letras, afiadas como lanças impiedosas,
são a única referência nómada
de uma cadeia de vocábulos no labirinto do texto,
onde soletro a intimidade de tudo o que amei.

Graça Pires
De Labirintos, 1997

25.1.07

Inverno

Robert Adams


A persistência da chuva catalogada
por quem nada sabe de paixões.

O vento e o silêncio emboscados
no mesmo rumor nocturno.

A diáspora de aves migratórias
a encher os dias de presságios.


Graça Pires
De Ortografia do olhar, 1996

24.1.07

De tanto chamamento

Alfredo Cunha


Caminho de encontro ao entardecer,
com a língua salgada de incendiar
a paisagem de quantos verões
me couberam na boca.
A curva do meu riso indicia o sul da mágoa.
Tenho um barco tatuado nos ossos
e os braços, quase enfermos,
de tanto chamamento.
No próximo verão, hei-de vestir-me de branco,
para que os veleiros avistem a solidão do meu olhar.


Graça Pires
De Uma certa forma de errância, 2003

23.1.07

Não desvies os olhos

Manuel Fazenda Lourenço

Não desvies os olhos: vejo neles a nossa casa,
virada a nascente, recolhendo a imprecisa luz
do amanhecer.
Deixa-me pintar, nas paredes, o canto
das andorinhas, que nos atravessam os dias
em pleno verão, ou, diz-me tu, o silêncio
das cigarras ao final da tarde.


Graça Pires
De Quando as estevas entraram no poema, 2005

22.1.07

O chamamento da lua

Rolfe Horn

A norte da tristeza, deixo a memória
a meia haste, fazendo o luto
de futuros desencantos.
E entro pela noite: ilha de sonhos exilados,
onde me torno o único sobrevivente
de um enredo imaginário.
Tenho estrelas marinhas
fossilizadas nos pés,
promissores de aventuras.
Quando o mar se enfurece,
o meu cabelo ondula, devagar,
como quem maneja mal os equívocos,
ou tem uma pressentida alegria
a latejar no corpo.
Perturbante, é o silêncio
que se ergue a sul dos navios,
quando os peixes adivinham
o chamamento da lua.

Graça Pires
De Reino da lua, 2002

21.1.07

Em seara alheia



Fito-os porque se transformam. Eu estou
no atalho entre ondas. Apenas paro.
Não serei volúvel, de modo a despedir-me de símbolos de mar

e de terra. Estarei adormecida, atenta a ambos.
Tudo o que me corte ou se movimente como esse
alumínio de seres marinhos me faz arder do seu ardor.

Antecessores que modelaram as gáveas abandonaram-nas.
Fragas que desconheço. A minha contemplação estática
perante o mar. Desde o nascimento, sempre com a nau fixa
e o céu ocre, ondas que sobre mim se entrecruzavam.
A minha persistência no litoral. Ignoro, mas contemplo.
Fiama Hasse Pais Brandão
In: Novas visões do passado, Lisboa: Assírio e Alvim 1975

18.1.07

A alegria

Edward Hopper

A alegria :
gastei-a à procura
de argumentos para ser feliz.


Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

17.1.07

Hoje basta-me um muro de barro

Claude Simon


Hoje, basta-me um muro de barro,
para derrubar nele o som da minha voz.
Não sei se é de musgo ou de lodo,
o rumor matinal do meu rosto,
a reflectir a noite, longa de sossego,
por onde passou a luz sem me pressentir.
Neste instante pouco importa a vertigem do corpo.
O lado azul da vertente é a minha obsessão
e sinto os lábios porosos, como um chão térreo,
à doçura espessa dos morangos.
Eu sou o lugar onde, inadvertidamente, me refugio.
No fundo das ruas que percorro existe, agora,
a linha transversal do meu poema branco,
e posso ver a limpidez total do perfume
que as madressilvas entornam no ar,
quando roçam os cabelos das crianças.


Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

16.1.07

Entardecer

Stephen Alvarez


O ocaso retém o mar
por onde os olhos emigram,
sem bagagem, para lugares
onde a curva da luz dissimula
a treva, clandestinamente.
É perigoso pintar nas pedras
o direito e o avesso dos desejos.
Há seduções escondidas no vértice
da tarde, ardendo em fogo lento.
Caminhemos pela cintura do assombro,
até ao marginal pretexto de um grito
de alerta quase absoluto, que acordará,
nas costas da noite, bandos e bandos
de aves luminosas.


Graça Pires
De Ortografia do olhar, 1996

15.1.07

Em seara alheia



NOÉ

Pronto, pronto, eu faço. Dá um trabalhão
mas faço. Corto madeira, arranjo pregos,
gasto o martelo. E o pior também:
correr o mundo a recolher os bichos,
coisas de nada como formigas magras,
e os outros, os grandes, os que mordem
e rugem. Eu sei lá quantos são!
Em que assados me pões. Tu
gastaste seis dias, e eu nunca mais acabo.
Andar por essse mundo, a pé enxuto ainda,
a escolher os melhores, os de melhor saúde,
que o mundo que tu queres não há-de nascer torto.
Um por um, e por uma, é claro, é aos pares
- o espaço que isso ocupa.

Mas não é ser carpinteiro,
não é ser caminheiro,
não é ser marinheiro o que mais me inquieta.
Não é poder esquecer
a pulga, o ornitorrinco.
O que mais me inquieta, Senhor,
é não ter a certeza,
ou mais ter a certeza de não valer a pena,
é partir já vencido para outro mundo igual.
Pedro Tamen
In: Analogia e Dedos. Lisboa: Oceanos, 2006

14.1.07

A pão nos sabem as palavras

Duarte Belo


A pão nos sabem as palavras,
quando a brisa do sul nos roça a cara.
Seguro, nas duas mãos, as tuas mãos
e sob o peito (o teu, o meu), alastram ramos
transparentes, que sustêm, na casa,
a trave-mestra, como se a raiz
de cada árvore nos amarrasse,
as veias, ao destino comum do coração.


Graça Pires
De Quando as estevas entraram no poema, 2005

13.1.07

A minha rua desce para o Tejo

Carlos Botelho



A minha rua desce para o Tejo.
Não é simbologia.
Há o rosto nítido dos barcos
na continuidade das pedras.
Em qualquer ponto se define
uma constelação entre proas.
Da janela avalio a inutilidade das âncoras.
Por isso, incluo no poema a escada irreversível
onde alieno os meus passos.
Confirmo a legibilidade da chuva,
ou da água oculta na concavidade dos olhos,
e nomeio o estremecimento das mãos
como um paradigma de amor.


Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

12.1.07

Dantes, pelos caminhos

Manuel Alvarez Bravo


Quando a noite renova a planura
das sombras sobre a terra, os cães
ladram à palidez da lua, fustigados
pelo ranger das portas.
Dantes, pelos caminhos,
havia pessoas apressadas,
de regresso às casas, agora desertas
e as mulheres chamavam os filhos
com a mesma voz com que rogavam
pragas à miséria.


Graça Pires
De Quando as estevas entraram no poema, 2005

11.1.07

Teseu não quis morrer



Teseu não quis morrer.
O seu olhar respirou sangue
sobre a garganta do touro.
O seu corpo era tão jovem
que confundiu a face da deusa da beleza.
E ela esvoaçou nua dentro do seu peito.


Graça Pires
De Labirintos, 1997

10.1.07

À boca das areias

Robert J. Ford

À boca das areias, ardem quilhas insuspeitas.
Uma tempestade amotina-me o brilho do olhar.
A cidade inunda-se de barcos e, dentro de mim,
pernoita um marinheiro comprometido
com marés desmedidas.
Podia esquecer-te para sempre,
não fora a vertigem da tua sombra
a cercar os meus olhos.

Graça Pires
De Uma certa forma de errância, 2003

9.1.07

Para preparar o inverno

Alfredo Cunha


Distingo, desde menina, as palavras
consumidas na voz das mulheres,
cúmplices de silenciosas madrugadas.
Conheço-lhes o circular gesto de disfarçar
desejos com astúcia, quando o destino
lhes antecipa um enredo desabrido:
a morder na boca, a arranhar nas unhas,
a queimar na pele.
Esquecem, então, deliberadamente,
os sonhos intranquilos e passam
a levantar-se antes do sol nascer:
para preparar o inverno, pensa toda a gente.

Graça Pires
De Reino da lua, 2002

8.1.07

Em seara alheia



A presença mais pura
Nada do mundo mais próximo
mas aqueles a quem negamos a palavra
o amor, certas enfermidades, a presença mais pura
ouve o que diz a mulher vestida de sol
quando caminha no cimo das árvores
«a que distância da língua comum deixaste
o teu coração?»

a altura desesperada do azul
no teu retrato de adolescente há centenas de anos
a extinção dos lírios no jardim municipal
o mar desta baía em ruínas ou se quiseres
os sacos do supermercado que se expandem na gaveta
as conversas ainda surpreendentemente escolares
soletradas em família
a fadiga da corrida domingueira pela mata
as senhas da lavandaria com um ‘não esquecer’ fixado
o terror que temos
de certos encontros de acaso
porque deixamos de saber dos outros
coisas tão elementares
o próprio nome

ouve o que diz a mulher vestida de sol
quando caminha no cimo das árvores
«a que distância deixaste
o coração?»

José Tolentino de Mendonça
In: Baldios. Lisboa : Assírio & Alvim, 1999

7.1.07

Indecifráveis sinais



Manchado de sal, o silêncio escorre-me na cara.
Os meus olhos tropeçam em raízes antigas
e movem-se-me, na memória, indecifráveis sinais:
marcas de nascimento, lugares e pessoas, gestos
e palavras. É madrugada. Os pássaros evitam
os voos rasantes, porque as últimas sombras
da noite lhes ferem as pupilas.


Graça Pires
De Uma certa forma de errância, 2003

6.1.07

Onde está o cavalo pintado no teu peito?





Pergunto por ti, com raízes
de erva-doce presas nos dentes.
Colecciono espelhos,

à procura da tua imagem,
ou da minha identidade.
Onde está o cavalo pintado no teu peito,
em que galopei até ao epicentro

da cumplicidade?
Depois, um passáro hesitou nos teus dedos
e eu fechei as mãos

à lentidão de asas entreabertas.
Agora, entrelaço enigmas na garganta,
como um hábito acumulado

na espessura do tempo.
Pelo meu rosto correm gotas de água.
Inconsistentes. Sublimes.
Um sulco inviolável persiste entre nós,
como uma coreografia de personagens paralelas.


Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

5.1.07

O meu retrato de criança vai-se cobrindo de pó

Claude Simon



O meu retrato de criança vai-se cobrindo de pó.
Nada me pertence, salvo a memória
de trilhos luminosos nas encostas da noite.
A lua entra-me, inteira, na garganta,
rompe-me o peito de lés a lés e sublinha,
a cores, uma errância inscrita no destino.
Quem foi que ousou apagar, de meus pés,
os traços de impossíveis aventuras
e me deixou, na pele, tamanha rebeldia ?
Enterro os dedos, em dunas de areias
assombradas que me sufocam a alma,
até à dor, porque trago, na boca,
um imenso deserto traçado a sede.

Graça Pires
De Reino da lua, 2002

4.1.07

Vamos falar de poesia


POÉTICA

O acto poético é o empenho total do ser para a sua revelação. Este fogo de conhecimento, que é também fogo de amor, em que o poeta se exalta e consome, é a sua moral. E não há outra. Nesse mergulho do homem nas suas águas mais silenciadas, o que vem à tona é tanto uma singularidade como uma pluralidade. Mas, curiosamente, o espírito humano atenta mais facil­mente nas diferenças que nas semelhanças, esquecen­do-se, e é Goethe quem o lembra, que o particular e o universal coincidem, e assim a palavra do poeta, tão fiel ao homem, acaba por ser palavra de escândalo no seio do próprio homem. Na verdade, ele nega onde outros afirmam, desoculta o que outros escondem, ousa amar o que outros nem sequer são capazes de imaginar. Pala­vra de aflição mesmo quando luminosa, de desejo ape­sar de serena, rumorosa até quando nos diz o silêncio, pois esse ser sedento de ser, que é o poeta, tem a nostal­gia da unidade, e o que procura é uma reconciliação, uma suprema harmonia entre luz e sombra, presença e ausência, plenitude e carência.
Essa revelação do poeta, e dos outros com ele, essa descida ao coração da alma, de que Heraclito encon­trou a fórmula, essa coragem de mostrar o que achou no caminho - e nunca é fácil, nem alegre, nem irresponsável revelar o que se encontrou ou sonhou nas galerias da alma - é o que chamarei agora dignidade do poeta, e com ele a do homem. Porque é sempre de dignidade que se trata quando alguém dá a ver o que viu, por mais fascinante ou intolerável que seja o achado.
«O futuro do homem é o homem», estamos de acordo. Mas o homem do nosso futuro não nos interes­sa desfigurado. Este animal triste que nos habita há milhares de anos, cujas possibilidades estamos tão longe de conhecer, é o fruto de uma desfiguração - acção de uma cultura mais interessada em ocultar ao homem o seu rosto do que em trazê-lo, belo e tenebro­so, à luz limpa do dia. É contra a ausência do homem no homem que a palavra do poeta se insurge, é contra esta amputação no corpo vivo da vida que o poeta se rebela. E se ousa «cantar no suplício» é porque não quer morrer sem se olhar nos seus próprios olhos, e re­conhecer-se, e detestar-se, ou amar-se, se for caso disso, no que não creio. De Homero a São João da Cruz, de Virgílio a Alexandre Blok, de Li Po a William Blake, de Bashô a Cavafy, a ambição maior do fazer poético foi sempre a mesma: Ecce Homo, parece dizer cada poema. Eis o homem, eis o seu efémero rosto feito de milhares e milhares de rostos, todos eles esplendidamente res­pirando na terra, nenhum superior a outro, separados por mil e uma diferenças, unidos por mil e uma coisas comuns, semelhantes e distintos, parecidos todos e con­tudo cada um deles único, solitário, desamparado. É a tal rosto que cada poeta está religado. A sua rebeldia é em nome dessa fidelidade. Fidelidade ao homem e à sua lúcida esperança de sê-lo inteiramente; fidelidade à terra onde mergulha as raízes mais fundas; fidelidade à palavra que no homem é capaz da verdade última do sangue, que é também verdade da alma.

Eugénio de Andrade
In: Poesia e prosa [1940-1986], 3º vol.
Lisboa: Círculo de Leitores, 1987

3.1.07

Tu, distraído de mim

Peter Ardito

Disponho, na mesa, o bolo de canela,
o chá de camomila, os frutos secos,
as flores acabadas de colher. Tu,
sentas-te ao meu lado, distraído
de mim. Os livros vão ganhando espaço,
disseste. O chá ficou morno, de repente.


Graça Pires
De Quando as estevas entraram no poema, 2005

2.1.07

Sei os caminhos da água

Manuel Fazenda Lourenço

Nos meus olhos, povoados de aves nocturnas,
recapitulo a nomenclatura dos ventos.
Sou nómada. Sei os caminhos da água,
por minha boca, nada sóbria, em plena sede.
Sem qualquer pretexto transcrevo,
linha a linha, o perfil emotivo desta cidade,
onde piso todos os caminhos procurando o rio
e o corpo me estremece à proximidade da água.
E, como se escavasse no coração
a promessa de uma pátria planto,
entre as unhas, heras de palavras,
que constroem a morfologia dos nomes que amei.

Graça Pires
De Reino da lua, 2002

1.1.07

Em seara alheia



Não: devagar.
Devagar, porque não sei
Onde quero ir.
Há entre mim e os meus passos
Uma divergência instintiva.
Há entre quem sou e estou
Uma diferença de verbo
Que corresponde à realidade.

Devagar...
Sim, devagar...
Quero pensar no que quer dizer
Este devagar...

Talvez o mundo exterior tenha pressa demais.
Talvez a alma vulgar queira chegar mais cedo.
Talvez a impressão dos momentos seja muito próxima...

Talvez isso tudo...
Mas o que me preocupa é esta palavra devagar...
O que é que tem que ser devagar?
Se calhar é o universo...
A verdade manda Deus que se diga.
Mas ouviu alguém isso a Deus?

Álvaro de Campos

31.12.06

No rasto de memórias

Cartier-Bresson


É quase um voo,
a harmonia da música
que trauteamos em surdina,
por aí, sem nenhum destino,
de corpo iluminado,
no rasto de memórias
que só o coração guarda.
Impacientes. Tão impacientes.


Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

Bom Ano de 2007 !

30.12.06

Rente à inocência

Honor C. Appleton

As primeiras mimosas marcaram a fronte
da menina saída do livro de aventuras,
que foi largado a um canto da inocência :
graciosa personagem a crescer para a memória
como um feitiço ; íman sagrado que resgata
a fantasia e desenha um berço nas mãos
dos que são da mesma estirpe dos poetas.
A morada dos gnomos situa-se na estrofe
da cantiga que fala dos moinhos de vento,
ou ao rés da magia do mais minucioso gesto
com que se adornam os cabelos e as mágoas.


Graça Pires
De Ortografia do olhar, 1996

29.12.06

É tempo de acender o fogo

A. Galasso

No encalço de pequenas alegrias,
faço do corpo um barco.
Amarro-o nas margens do silêncio
e divago, com urgência,
por dentro de um impulso incontrolado.

Tomo em meus olhos a transparência dos teus.
Quero sentir a tua noite a rondar-me o sangue,
quando dizemos: é tempo de acender o fogo.
Quero conhecer a excessiva inclinação da luz,
quando, desarmado, o coração, aguarda
que aconteça aquele fascínio de garotos,
à espera da festa prometida.

Graça Pires
De Reino da lua, 2002