Seleccionar o ângulo de um rosto, sem lhe macular a luz, como se, a meia voz, pudéssemos reter os múltiplos reflexos do júbilo e das mágoas.
5.9.16
Em seara alheia
34.
Deixei o meu coração no forno,
é só aqueceres e tens jantar.
O que sobrar dá ao gato.
Eu sempre gostei do gato.
Raquel Serejo Martins
In: Aves de incêndio. Macedo de Cavaleiros: Poética, 2016, p. 50.- Desenhos de Ana Cristina Dias
29.8.16
O rio intocado de outros sonhos
Duarte Belo
Com
os lábios ornados de cristal
quebro
as razões mais sombrias
no
dorso das contradições.
Não
me reconheço em jogos encenados.
Disperso
as nuvens carregadas
de
abismo em duelo com a luz.
Projecto-me
num diálogo
que
rasga uma outra voz em espanto.
E
detenho, em mãos cegas, a sorte e o revés
da
biografia que me identifica.
Sei
que por dentro da dobra do passado
corre
o rio intocado de outros sonhos.
Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015
22.8.16
Todas as gaivotas me perseguem
Saul Landell
Sem embaraço vou arrancar, com as unhas,
os
pregos do barco que inventei.
Quero
afundar-me e medir o fôlego
em
que me salvo.
Enconcho
as mãos para transpor a maré
e o
litoral devassado pelo lodo.
Enrolo
os pulsos em redes de pesca
e todas as gaivotas me perseguem.Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015
15.8.16
Ungido com palavras antigas
Anselm Kiefer
Ungido com palavras antigas ele atravessou
uma brenha de arbustos em chamas e
disse:
Um dia as águas hão-de calar-se na
gruta maternal.
Os animais selvagens morrerão nas mais
íngremes
colinas onde a inundação nos olhos
das mulheres
ensandecidas os levará à procura
das nascentes.
Os homens caminharão na berma das
estradas
carregando os filhos: órfãos, já, do seu próprio destino.
Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2012
8.8.16
Vem, cadência da música!
Monica Stewart
Traço na areia uma linha em movimento
de onda e rodo sobre mim mesma
quando as marés me bailam nas ancas.
Esta dança é em mim errática sedução.
O interlúdio da seda perfumada
em que me envolvo.
O jogo sensual no chão do peito,
como grito erguido sobre a língua.
Vem, cadência da música!
Suspende o silêncio que escorre
em pausas onduladas como água.
Encena-me em rituais profanos.
Acrescenta-me à partitura
ou ao gesto ensaiado e cerzido
nas rugas do meu corpo.
Vem e desliza inteira no êxtase da
luz!
Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015
1.8.16
Em seara alheia
ESTENDO OS PULSOS
à lâmina da memória: cada gota que escorre é uma tempestade por
dentro, um copo de veneno sobre um piano esquecido, um mapa
truncado
de uma cidade perdida. Ardem sombras de rosas no desalinho do
tempo e um resto de cinza costura o teu retrato. O sangue da memória
não é a casa das coisas
é uma luz de estrela
por entre a poeira dos astros, um clarão de chamas no interior
calcinado dos livros. Abro as portas da manhã
que as noites há muito fecharam. Cega-nos esta vã glória de estar
morto e caminhar ainda, de ainda respirar, de amar sabe-se lá o quê,
cega-nos este desengano de sonhar ao relento
um lugar que não existe.
Nunca aprendemos a morrer de uma vez só. O sangue procura o
sangue mesmo quando se derrama sobre a aridez do chão. E a terra
que nos consome não nos subtrai ao vício de lançar sementes sobre as
pedras
das falésias.
O dia escurece a vaga moldura das coisas, as palavras escapam-se
pelas fendas a reclamar o silêncio. Resta um sussurro a nomear
animais extintos e uma luz inútil invisível que persiste
na ponta dos dedos.
In: O Rumor das Máquinas. Aveiro: Universidade de Aveiro, 2015, p. 36
25.7.16
Procuro a voz da inocência
Henri Matisse
No
insondável lugar das encruzilhadas
traço
os sons, acolho as formas,
corrijo
a dicção.
Evito
que as letras ignorem o lume
perturbante
onde podem arder os sonhos.
Procuro
a voz diferida da inocência
para
estilhaçar o verbo no centro do medo
e
espalhar o meu nome pelas pedras
tão
alheias a qualquer simbologia.
Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015
18.7.16
Eternidade
Norvz Austria
Em horas incertas há aves tão moribundas
como
o tempo breve que nos sufoca.
São artifícios que os calendários
não registam
porque o eixo da terra
é um lugar de eternidade
que, sem aviso, atravessa a
vida e a morte.
Graça Pires
De Caderno de significados, 2013
11.7.16
Um destino marítimo
Temos
um destino marítimo
na
memória, me ensinaram.
Por
isso gosto de seguir a linha
verde
da costa com a face exposta
ao
hálito da maresia e os pulsos
cravejados
de conchas.
Fixo
cristais de névoa no olhar
para
desvendar o átrio privado
onde
se escondem os barcos
quando
o êxtase das ondas
explode
dentro do vento.
Graça Pires
De Espaço livre com barcos, 2014
4.7.16
Queremos um anjo de pedra
Vem
comigo, amor.
Vamos
contornar
as
margens azuis do adriático
e
trepar as escarpas
até
ao castelo de duíno.
Queremos
um anjo de pedra
nos
rituais do enlevo.
Eu
procuro de novo
o
princípio de tudo,
para
que me digas na voz de rilke:
as minhas emoções, que acharam asas,
voam, brancas, à volta do teu rosto.
Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015
27.6.16
Em seara alheia
1
Primeiro era o breu,
depois o silêncio!
Não existia nada
para lá do vazio.
Depois nasceu o verbo
que acendeu as luzes
e os poetas viram
que havia um mundo
imenso à espera
do seu olhar perspicaz
e das suas palavras.
Emanuel Lomelino
In: Génesis. Temas Originais, 2015, p. 5
20.6.16
Um cântico solar
David Oliveira
Não era uma simples sombra a que recuava
no interior da claridade espelhada nos
lagos.
Incidia nas águas mais fundas
– onde a geometria dos seixos
se enrola nas raízes dos juncos –
e alongava-se pelas margens,
com a noite mais crua e molhada
a invadir-lhe os contornos.
Era a sombra do poente,
num horizonte que se olhava a pique,
tão incendiado como um cântico solar.Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015
13.6.16
Despojos antigos
Amandine van Ray
Enterro no chão a multiplicidade
de despojos antigos.
São de pedra como as casas
envelhecidas
onde as teias roçam todas as traves
e se cruzam com a poeira dos móveis.
São lobos vagueando pela noite
a farejar insónias.
São raízes enredadas nos artifícios
da idade, nas preces de cada dia,
nos retratos de família.
Procuro agora a fonte mais distante
para inscrever na água corrente
a sublime nudez da juventude.
E alinho contra os muros
os sonhos que morreram no meu peito.
Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015
5.6.16
Simplicidade
As nossas vozes cruzam-se pela casa
sem qualquer pressa.
Mais uma vez repito para não esquecer
o nome das flores que plantámos no canteiro
dos quartos: azáleas, alecrim, gardénias,
alegrias-do-lar, rosas brancas e vermelhas.
As violetas no parapeito da cozinha dialogam
entre si um silêncio vegetal e quase familiar.
Dão-se bem aqui as violetas, referiste
ajeitando os vasos com delicadeza
como se a posse antecipada do prazer
te inundasse as mãos.
Graça Pires
De Caderno de significados, 2013
29.5.16
Em seara alheia
Quando os rios secarem
Quando os rios secarem e as tempestades
Forem sopro e bálsamo sobre a gretada pele
E a mácula se erguer em flor de inocência
E os olhos magoados forem poema e bailado
E um sorriso límpido enfeitar as linhas do rosto
Como cinzel de límpidas palavras.
E o silêncio se abrir e a música for
Som de cristal. Dedos em movimento subtil
Na vibração da noite. E todos os enganos forem
Festivo encontro...
Inventarei então todos os nomes e
Deporei a pura essência dos dias peregrinos
Em que enlaço e colho o deslumbramento
Como dádiva, transgressão e fonte
Em que ardendo me digo...
Manuel Veiga
In: Do esplendor das coisas possíveis. Macedo de Cavaleiros: Poética, 2016, p. 27
22.5.16
A escrita não se fatiga das palavras
Para
o Poeta João Rui de Sousa
Quando
o dia oferece à paisagem
todas
as gradações da luz,
a
escrita não se fatiga das palavras.
O
poeta é então um artífice discreto
pressentindo
no olhar, sem explicação,
o
manejo das mãos enfeitiçadas
pelo
gesto acabado, a marginar um sonho.
Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015
16.5.16
Ato aos tornozelos o voo das aves
Katia Chausheva
Pela
respiração do mundo
sei
que a vida me cerca
com
mãos inesgotáveis.
Possuo
um deserto na garganta
e a
essência dos cardos
em
antigas sedes.
E
corro o perigo de ser
a
combustão das fontes,
ou
a vertigem de um brado,
ou
o som indeciso da mudez,
quando
ato aos tornozelos
o
voo das aves para que as pernas
sejam
colunas de santuário
onde
os pés descalços não têm ruído,
nem
rasto, nem forma.
Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015
9.5.16
Em seara alheia
Renasço-te em cada aurora,
nas manhãs voláteis carregadas de abrunhos maduros
das árvores perdidas em searas sem dono.
Preciso de ti,
do silêncio dos teus olhos nas manhãs solidárias
cheias de flores por ti amadurecidas.
Teresa Durães
In: Passos sem rasto. Lisboa; Chiado Editora, 2016, p. 33
30.4.16
Soletro as palavras maternas
Espreito pelos dedos a memória
mais longínqua da infância.
Procuro-a intensamente.
Nas árvores, nas latadas,
nos vãos de escadas,
nos telhados, nos rochedos.
E retalho a pele dos seios.
Rapo o cabelo.
Envolvo-me de fumo.
Soletro as palavras maternas.
Mas um sopro invisível
dispersou o berço e os brinquedos
como um eco sem volta.
Coloco na ara sacrificial
a candura recortada
de um cenário imaginado,
para que me seja paisagem na
lembrança.
Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015
24.4.16
Para sempre ABRIL
Maria Helena Vieira da Silva
um grito abraçou o povo.
E o frágil coração da liberdade
reinventou o sonho.
Para sempre.
18.4.16
Em seara alheia
não foi este o tempo que pedi
bastava-me uma réstia de sol
na ombreira de uma porta habitada
um pouco de mar calmo e
compassivo
e um sopro respirável à luz
de um instante de sossego
não era mais deste sal a escorrer
da nascente onde a água se quer doce
e a corroer as pedras angulares
com que havia de reconstruir as margens
do sonho antes da ruína
do sonho antes da partida
se era para ficar
que houvesse um outro caminho
alto amplo e luminoso
por onde pudesse planar na contemplação
da vida a acontecer
mas se é para ser assim raso o caminho tão raso
que se engrandeça o coração
Rosário Ferreira Alves
In: Lunaris. Macedo de Cavaleiros: Poética, 2016, p. 27
11.4.16
Sorriso
Ferran Quevedo
A melancolia vem açoitar-me as margens
do
sorriso que resta nos meus lábios
quando busco um sulco de água doce
para chegar
ao restolho das palavras
em misteriosas bocas.
Graça Pires
De Caderno de significados, 2013
4.4.16
O delito azul
Helena Almeida
Amo a inquietante beleza
que legitima
o delito azul
colado ao desabrigo dos náufragos.
Atravesso o cabo das tormentas
até encontrar uma índia
a prometer-me a seda,
as especiarias, o espanto.
E só quando os meus lábios
sangram sal e sede
me deixo cegar pelo brilho das vagas
que volteiam a geometria do abismo.
Graça Pires
De Espaço livre com barcos, 2014
28.3.16
Em seara alheia
Evita sonhar, procura não saber
Dos sorrisos que se acendem
Ao longo da rua. Remete-te
À desordem moderada do teu
Coração silencioso, à ausência
De expressão, mesmo nos momentos
De sobressalto. Fecha, devagar
Muito devagar, as mãos e chora
De modo a que ninguém veja.
Há alegria a mais no mundo, há
Demasiado tempo perdido a roubar
A propriedade dos tristes.
Rui Almeida
In: A solidão como um sentido seguido de Desespero. Póvoa de Santa Iria: Lua de Marfim, 2016, p. 22
21.3.16
É Primavera
Amanda Cass
Começou
o ritmo da folhagem
ao
sabor da seiva.
As
árvores escolhem o tom de verde
que
o sol prefere dispersar nos troncos.
É
primavera.
As
aves regressam em bandos
e
os amantes ajustam a paixão
nas
grutas do corpo.
As
crianças trazem no olhar
uma
cintilação quase divina
e
os descrentes procuram um deus
no
claustro da morte.
Os
poetas ofertam-nos as primícias
com
os frutos a gretarem-lhes a boca.
Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015
14.3.16
Guerra
Para se abrigarem dos ventos contrários
o
abraço dos amigos lhes bastava.
Mas a guerra cercou-os
e deixou-lhes no
movimento do olhar
uma pátria ultrajada.
Em suas bocas pisadas de silêncio
sangram agora todos os afectos.
Graça Pires
De Caderno de significados, 2013
3.3.16
Convite - Figueira da Foz: Volto à memória do mar
Muito obrigada a todos os que partilharam comigo mais esta festa da poesia.
Gostava de contar com a presença de todas as minhas amigas e de todos os meus amigos que moram por perto da Figueira da Foz - a terra onde nasci.
Gostava de contar com a presença de todas as minhas amigas e de todos os meus amigos que moram por perto da Figueira da Foz - a terra onde nasci.
Volto à memória do mar,
ao fundo salgado do abismo,
ao sepulcro das cinzas,
ao meu chão de múltiplas névoas.
Muito longe serei ilha, ou rochedo,
ou pérola na fenda da concha.
Uma litania, um cântico,
um grito ao vento serei ainda.
Amarrando os barcos.
Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015
22.2.16
Em seara alheia
POEMA PARA UM VERSO DE FERNANDO ASSIS PACHECO
Se fosse Deus parava o sol sobre Lisboa
No instante da sua força ao meio-dia
Como se a cidade fosse uma pessoa
A entrar na eternidade da fotografia.
A preto e branco como são as colinas
No coração de quem amou esta cidade
Em encontros e mensagens clandestinas
Para o sonho que se perdeu e é saudade.
Este prédio já foi o Palácio Galvão Mexia
Ficaram os alicerces da antiga construção
As paredes contam a história de cada dia
A quem as souber escutar com atenção.
Depois é o ruído da água em surdina
Na fonte onde o garoto vende jornais
Descalço e de barrete chega à esquina
Duma vida feita de horas sempre iguais.
José do Carmo Francisco
In: Poemas de Lisboa e Borda de Água, Lisboa: Apenas Livros, 2014, p.59
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