Seleccionar o ângulo de um rosto, sem lhe macular a luz, como se, a meia voz, pudéssemos reter os múltiplos reflexos do júbilo e das mágoas.
9.1.17
Em seara alheia
Acordo
e caminho na erva ainda tenra, húmida,
deixando pequenas marcas dos pés
cansados de caminhar no leito da noite.
Sinto a alma dos muros,
o canto dos ramos das árvores
e fico vazia de medos
longe das coisas redundantes
sem vida e sem cor.
Encontro rasgada a minha saia,
presa que ficou no bico de uma rocha;
levo-a à boca, salgada como as noites
tão etéreas e marinhas de Sophia.
Vem-me à memória que ainda
se demore a manhã no horizonte.
Dela chega-me este ar apetecido
a pousar na minha pele,
suave como um bando de aves.
Lília Tavares
In: evocação da águas. Desenhos de Carmo Pólvora. Porto: Seda Publicações, 2015, p. 55
2.1.17
A intimidade de uma súplica
Laura Makabresku
Às
vezes a grafia é escassa
no
desadorno do poema.
Ponho
no rebordo dos dentes
uma
ferocidade
que
estremece qualquer culpa.
Uma
farpa que deixa na pele
o
rasgão da cólera delineado
em
monólogos emudecidos.
E
abro, à liturgia da música,
a
incisão do peito
para
forjar no coração a nocturnidade
melódica
de chopin, derramando
das
teclas a intimidade de uma súplica.
Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015
20.12.16
Nem sempre os pinheiros são verdes
Olívia Marques
Nem sempre os pinheiros são verdes.
Nem sempre há pinheiros no Natal.
Nem sempre as folhas dos pinheiros
são perenes.
Nem sempre o que é perene é belo.
Por vezes o Natal é opaco como os
dias vulgares.
Por vezes, ainda, é mais triste do
que os amanheceres de Novembro.
Mas nem sempre a alegria é só
alegria.
E nem sempre Novembro é triste.
Virgínia do Carmo
Desejo-vos um Natal com Paz, Amor e Conforto.
Que o ano de 2017 seja um ano melhor
12.12.16
Uma esquiva chama
Georges de La Tour
Agarrada
a desafios sem freio,
a
minha voz arredondou o canto
e
removeu devagar o espelho
que
reflectia as aves abatidas
na
cesura alarmada do olhar.
Na
marginalidade do sossego
reacendo
o lume para que haja
colunas
de fumo a seduzir o vento.
E
soletro a oração que transporta
de treva em treva uma esquiva chama.Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015
5.12.16
Em seara alheia
Um rio, um nome
Na terra de meu pai corria um rio
e não era ainda o do tempo
nem eu nadara no múltiplo leito de Heraclito,
era um rio de claros seixos,
onde a sombra e o riso
acolhiam o nosso corpo
ainda intacto
no incêndio da manhã.
Na terra do meu pai havia laranjas
e chão, havia sol e murmúrios
e nós ouvíamos a respiração da noite
por dentro das raízes das árvores
e o rio falava com as pedras
e com a luz
e nó corríamos
ou éramos levados pelo vento
que acendia a folhagem.
Na terra do meu pai não havia medo
só um rio e as águas limpas
onde as mulheres lavavam a roupa
e cantavam ao som da terra.
Na terra do meu pai corria um rio
e os homens tinham lugar
era um rio por coração
era um nome
para um homem.
Maria João Cantinho
In: Do ínfimo. Lisboa: Coisas de Ler, 2016, p. 32
28.11.16
No meu coração litoral
Habita-me
o brilho dos areais
quando
a salsugem
tem
a densidade de um aceno.
A
navegação é inadiável.
Em
minhas mãos passa,
perfeito,
um navio.
Um
punho de vento leva-o para o sul
onde
a inquietude dos pássaros
se
insinua no meu coração litoral.
Graça Pires
De Espaço livre com barcos, 2014
21.11.16
Subversão
Francesca Woodman
das
liturgias iniciáticas mais severas.
As minhas mãos são agora as estremas
da
planura do vento de novembro.
Graça Pires
De Caderno de significados, 2013
14.11.16
Não tem limites
Jean Dieuzaide
Não tem limites a cúmplice desordem
das
cidades onde resistimos
ladeando
de argila
as
janelas das casas
para
que o ferrolho do ruído
não
abra uma ferida
nas
paredes brancas
em que um extenso silêncio se instalou.Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015
7.11.16
Em seara alheia
Ainda é cedo, sabes?
As pedras são maiores que as nossas mãos.
No ar pesa a espessura da tristeza.
As uvas estão verdes.
Não é tempo do vinho.
O grão já é farinha, mas
o fermento dorme.
Não é tempo do pão.
Pequenos os seios das mulheres.
Não é tempo do leite.
As abelhas zumbem, mas
a flor do rosmaninho é só botão.
Não é tempo do mel.
Amargos os lábios dos homens.
Não é tempo do beijo.
Ainda é cedo, sabes?
Esperemos de mãos dadas,
sentados no caixote dos brinquedos,
bebendo os versos que havemos de escrever.
Verás que amadurece o tempo da saudade.
Licínia Quitério
In: Memória, Silêncio e Água. Poética, 2016, p. 58
31.10.16
Tantas vezes vida, tantas vezes morte
Agnieszka Motyka
Neste
momento dou ao meu perfil
a
configuração de uma haste
que,
ao primeiro sopro do vento,
adivinha
um fogo posto nas palavras.
Conheço
o rigor das noites
e o
alarmante traço
da
obsessão pelas trevas
que
me cingem os braços
quando
o reflexo do luar
incide
nas manchas do meu rosto
e
com os mais antigos olhos
posso
rever o passado:
tantas
vezes vida, tantas vezes morte.
Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015
25.10.16
A escrita das águas
Emerico Imre Toth
Olho em meu redor.
A chuva afaga as raízes das árvores
e agita seus ramos como se fossem
mantilhas de seda agasalhando
os pássaros no rodeio do vento.
Sei que o tempo não se detém.
Os muros mais severos assinalam,
sem dissonância, a escrita
repisada das águas que a idade
guardou na borda das pedras.
Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015
Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015
17.10.16
Quero inventar o mar de cada dia
Hoje,
que não escuto o mar
fujo
na crina de um potro livre,
sem
jugo, em veloz cavalgada.
Tenho
nos olhos um incêndio tangível
à
luz que se quebra no galope
ágil
e sonoro da fuga.
Irrompe
sobre mim o perfil dos montes
que
me diz a que distância deixei o mar.
Um
odor de poeira impede-me de gritar.
Doeu-me
a voz quando bradei,
sem
fôlego, o verso de neruda:
quero inventar o mar de cada dia.
Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015
10.10.16
Em seara alheia
Cantou cansado
Um hino ao desencanto,
Como se fosse possível
Tomar para a alegria
O caudal de impurezas
A deslizar da solidão.
Cantou com a fraca voz
Dos que olham para dentro
Dos poços à espera
Que a água transborde.
Rui Almeida
In: Muito, menos. Lages do Pico: Companhia da Ilhas, 2016, p. 36
3.10.16
Paz
Larry Burrows
Sobrepor a voz à dor sem pátria.
Estar
lá onde o olhar de todas as mães
procura o olhar de todos os filhos.
Ter um
nome de combate para dizer paz.
Graça Pires
De Caderno de significados, 2013
26.9.16
Bailado de gestos
Nijinsky
Aceito
que o olhar teça e desteça
o
contraste dos dias num bailado
de
gestos que se desdobram
e
prolongam para além da pele.
Quero-me no centro do espaço
onde tudo começa e acaba,
onde me uno e desagrego,
onde me deixo habitar
por uma quietude imensa.
Desvinculo-me de todos os enredos
para que a osmose das trevas e da luz
alcance o resgate do corpo
que se retalha roçando o chão
e se dissipa em pleno voo.
Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015
19.9.16
No outono
Susan Deerges
No outono a lentura entretece os dias.
Cada uva mordida é um crivo do vinho
escorrendo nas gargantas mais
sôfregas.
As aves sublimam a profecia das
distâncias
com asas ansiosas de desertos e
montanhas.
O mar, inclemente, afoga os navios e
ama,
de madrugada, a bruma salgada
que alarma o eco iluminado de um
farol.
Há uma espécie de desamparo
em cada árvore, abraçando
o vento rendida e desnuda.
As pessoas envolvem o desconforto da
pele
em panos de tecelagem grossa
e vigiam de perto a febre dos filhos.
Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015
12.9.16
Por amor
Ana Pires
Nasce-se
e morre-se todos os dias por amor.
Mesmo
aquele que se reinventa.
Como
uma oferenda
ou
um alarme que nenhum poema diz.
Da
fenda dos lábios deixo sair
a
linguagem cifrada dos enigmas
para
escandir a sombra desprevenida
das
sílabas em erótico tumulto.
Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015
5.9.16
Em seara alheia
34.
Deixei o meu coração no forno,
é só aqueceres e tens jantar.
O que sobrar dá ao gato.
Eu sempre gostei do gato.
Raquel Serejo Martins
In: Aves de incêndio. Macedo de Cavaleiros: Poética, 2016, p. 50.- Desenhos de Ana Cristina Dias
29.8.16
O rio intocado de outros sonhos
Duarte Belo
Com
os lábios ornados de cristal
quebro
as razões mais sombrias
no
dorso das contradições.
Não
me reconheço em jogos encenados.
Disperso
as nuvens carregadas
de
abismo em duelo com a luz.
Projecto-me
num diálogo
que
rasga uma outra voz em espanto.
E
detenho, em mãos cegas, a sorte e o revés
da
biografia que me identifica.
Sei
que por dentro da dobra do passado
corre
o rio intocado de outros sonhos.
Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015
22.8.16
Todas as gaivotas me perseguem
Saul Landell
Sem embaraço vou arrancar, com as unhas,
os
pregos do barco que inventei.
Quero
afundar-me e medir o fôlego
em
que me salvo.
Enconcho
as mãos para transpor a maré
e o
litoral devassado pelo lodo.
Enrolo
os pulsos em redes de pesca
e todas as gaivotas me perseguem.Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015
15.8.16
Ungido com palavras antigas
Anselm Kiefer
Ungido com palavras antigas ele atravessou
uma brenha de arbustos em chamas e
disse:
Um dia as águas hão-de calar-se na
gruta maternal.
Os animais selvagens morrerão nas mais
íngremes
colinas onde a inundação nos olhos
das mulheres
ensandecidas os levará à procura
das nascentes.
Os homens caminharão na berma das
estradas
carregando os filhos: órfãos, já, do seu próprio destino.
Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2012
8.8.16
Vem, cadência da música!
Monica Stewart
Traço na areia uma linha em movimento
de onda e rodo sobre mim mesma
quando as marés me bailam nas ancas.
Esta dança é em mim errática sedução.
O interlúdio da seda perfumada
em que me envolvo.
O jogo sensual no chão do peito,
como grito erguido sobre a língua.
Vem, cadência da música!
Suspende o silêncio que escorre
em pausas onduladas como água.
Encena-me em rituais profanos.
Acrescenta-me à partitura
ou ao gesto ensaiado e cerzido
nas rugas do meu corpo.
Vem e desliza inteira no êxtase da
luz!
Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015
1.8.16
Em seara alheia
ESTENDO OS PULSOS
à lâmina da memória: cada gota que escorre é uma tempestade por
dentro, um copo de veneno sobre um piano esquecido, um mapa
truncado
de uma cidade perdida. Ardem sombras de rosas no desalinho do
tempo e um resto de cinza costura o teu retrato. O sangue da memória
não é a casa das coisas
é uma luz de estrela
por entre a poeira dos astros, um clarão de chamas no interior
calcinado dos livros. Abro as portas da manhã
que as noites há muito fecharam. Cega-nos esta vã glória de estar
morto e caminhar ainda, de ainda respirar, de amar sabe-se lá o quê,
cega-nos este desengano de sonhar ao relento
um lugar que não existe.
Nunca aprendemos a morrer de uma vez só. O sangue procura o
sangue mesmo quando se derrama sobre a aridez do chão. E a terra
que nos consome não nos subtrai ao vício de lançar sementes sobre as
pedras
das falésias.
O dia escurece a vaga moldura das coisas, as palavras escapam-se
pelas fendas a reclamar o silêncio. Resta um sussurro a nomear
animais extintos e uma luz inútil invisível que persiste
na ponta dos dedos.
In: O Rumor das Máquinas. Aveiro: Universidade de Aveiro, 2015, p. 36
25.7.16
Procuro a voz da inocência
Henri Matisse
No
insondável lugar das encruzilhadas
traço
os sons, acolho as formas,
corrijo
a dicção.
Evito
que as letras ignorem o lume
perturbante
onde podem arder os sonhos.
Procuro
a voz diferida da inocência
para
estilhaçar o verbo no centro do medo
e
espalhar o meu nome pelas pedras
tão
alheias a qualquer simbologia.
Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015
18.7.16
Eternidade
Norvz Austria
Em horas incertas há aves tão moribundas
como
o tempo breve que nos sufoca.
São artifícios que os calendários
não registam
porque o eixo da terra
é um lugar de eternidade
que, sem aviso, atravessa a
vida e a morte.
Graça Pires
De Caderno de significados, 2013
11.7.16
Um destino marítimo
Temos
um destino marítimo
na
memória, me ensinaram.
Por
isso gosto de seguir a linha
verde
da costa com a face exposta
ao
hálito da maresia e os pulsos
cravejados
de conchas.
Fixo
cristais de névoa no olhar
para
desvendar o átrio privado
onde
se escondem os barcos
quando
o êxtase das ondas
explode
dentro do vento.
Graça Pires
De Espaço livre com barcos, 2014
4.7.16
Queremos um anjo de pedra
Vem
comigo, amor.
Vamos
contornar
as
margens azuis do adriático
e
trepar as escarpas
até
ao castelo de duíno.
Queremos
um anjo de pedra
nos
rituais do enlevo.
Eu
procuro de novo
o
princípio de tudo,
para
que me digas na voz de rilke:
as minhas emoções, que acharam asas,
voam, brancas, à volta do teu rosto.
Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015
27.6.16
Em seara alheia
1
Primeiro era o breu,
depois o silêncio!
Não existia nada
para lá do vazio.
Depois nasceu o verbo
que acendeu as luzes
e os poetas viram
que havia um mundo
imenso à espera
do seu olhar perspicaz
e das suas palavras.
Emanuel Lomelino
In: Génesis. Temas Originais, 2015, p. 5
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