25.5.09

Em seara alheia


Máscaras


ah! o imenso da possibilidade.

quantas rotas em tormentas?
quantas máscaras desejadas?

sucumbes à pressão dos momentos.

nada se transfigura nos espelhos,
e todos os dias és
mais do que a soma das tuas partes.

às vezes, os mares da realidade assim obrigam.

é nessas águas que também somos humanos.


Vicente Ferreira da Silva aqui

In: Interlúdios de certeza. Porto: Temas Originais, 2009

18.5.09

A múltipla sombra



Hoje soletro, no meu nome,
as sombras do passado.
Cito-me imitando um pássaro de luz
bebendo a própria sombra
para não morrer de cansaço.
À margem das palavras,
um fogo hereditário
ungiu-me a fronte
e pressagiou o rastilho
de um silêncio a muitas vozes:
a múltipla sombra no interior da boca.


Graça Pires
De Não sabia que a noite podia incendiar-se nos meus olhos, 2007

11.5.09

Memórias de Dulcineia XIV

Menez
Na penumbra me perco.
Surpreendida. Impaciente.
Como se uma reprimida dança
movesse o mais insólito enredo
nos meus passos.
Deito-me de bruços para cheirar,
na terra, o hálito do sonho que persigo
e o corpo cobre-se-me de ervas bravas.
Assim permaneço
até que uma lua de sangue me visite.


Graça Pires
De Uma extensa mancha de sonhos, 2008

4.5.09

Em seara alheia

QUE DIZER

Que dizer do tempo
hesitante de um poema
ou da forma magoada
de o escrever,
que dizer da voz
decidida do Poeta
ou do modo alterado
de o falar
e de o cantar,
que dizer de mim
e de ti
na noite de todos os poemas
dentro do tempo
dito de nós.

Maria Paula Raposo
aqui
In: Nevou este Verão. Lisboa: Apenas Livros, 2009

28.4.09

Desempregados

Dorothea Lange

Sabem de cor a raiva extenuada
com que se repete: trabalho, pão,
trabalho, pão, trabalho, pão
.
Nos seus olhos já não há, senão, um país
onde se nasce e morre, como quem cumpre
o exílio de uma pátria longínqua;
como quem conhece a orfandade do mundo;
como quem tropeça nas próprias cicatrizes.
Os seus pulsos sangrando de tanto desespero.


Graça Pires
De Ortografia do olhar, 1996

20.4.09

LEMBRAR ABRIL







AS PALAVRAS DO MEU CANTO


Palavras que não morrem. Nunca morrem
se um homem as disser sempre de frente.
Palavras que não morrem. Nunca morrem
porque são a razão de quem as sente.

Palavras. Todas elas do meu povo.
Amigas. Companheiras. Namoradas.
E são o canto antigo. O canto novo
de quem não as quer ver amordaçadas.

Palavras que são vento. E tempestade.
Palavras que são sol. E são abrigo.
Verdade. Amor. Poema. Liberdade.
E a palavra maior: palavra Amigo.

Palavras que são arcos. E são setas.
Com elas se defende uma canção.
As palavras são as armas que os poetas
devem fazer passar de mão em mão.
[ … ]

Joaquim Pessoa
In: Amor combate. Lisboa: Moraes, 1977

13.4.09

Enredos de fim de tarde

Manuel Fazenda Lourenço
À revelia de pretéritas lembranças,
um bafo de terra molhada
devolve-me enredos de fins de tarde
que me sugerem os panos coloridos
com que, em criança, fazia as saias das bonecas.
O verso e o reverso de um concêntrico imaginário.
A atmosfera impregnada do meu fascínio de viver.
E pego na fala de Zaratustra para perguntar:
Que temos de comum com o botão de rosa
que verga sob o peso de uma gota de orvalho?
De que matéria somos feitos
que nos torna comovidos e inocentes
perante a promessa da ternura?
Sei o difícil jogo de viver.
Os meus desejos são como as areias
que o vento levanta sem levar para longe.
Nenhuma linguagem explica o devir das paixões.


Graça Pires
De Outono: lugar frágil, 1993

6.4.09

Na proa dos barcos


Na proa dos barcos reconhecemos
os ventos tropicais.
Um cais torna-nos marinheiros
de um destino sem remorsos.
Ninguém põe em causa a perfeição
do voo das gaivotas nos corpos dos meninos
que rebolam, pela areia, a inocência do olhar.
Há uma rota, plural de outras rotas,
que pressente naufrágios a poente dos afectos.
Sal que vicia os lábios e magoa
como um punhal de sede.
Braço de água-doce
comprometido com um mar inacessível.


Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

30.3.09

Em seara alheia


O passado dói como a dureza do mundo
João Rui de Sousa
Tenho saudades da tua voz,
desse rendilhado de sílabas
a desaguar lento no alvoroço
da tarde. Tenho saudades
da tua boca, onde eu, - náufrago
de antigas visões - todas
as noites ouvia a límpida melopeia
da ilha. Tenho saudades
das tuas mãos, sem convicções
fundeadas nas mais luminosas
águas. Tenho saudades
do ritual dos peixes, do rumor
inconsolado da brisa a soar
mansa no abandono dos búzios,
do emaranhado das algas
a envolver-nos a prontidão
dos passos. Tenho saudades
de mim nesses tempos,
quando não tinha saudades.

Victor Oliveira Mateus
aqui
In: A irresistível voz de Ionatos. Fafe: Labirinto, 2009

23.3.09

Houve noites

Alvarez Bravo

Houve noites em que sonhei
que o sol incendiava as pedras
que eu pisava.
Ou eram os meus pés
que ateavam o fogo?
À espera que as lembranças
me tranquilizem
cubro, com o véu do tempo,
o meu verdadeiro rosto.
Desfaço a bainha
dos panos que me vestem
com a farpa desta sede lenta
que se oculta na terra
sem retorno.


Graça Pires
De Uma extensa mancha de sonhos, 2008

16.3.09

No ângulo da escrita

Magritte


Contadas pelos dedos, as sílabas
parecem irrelevantes no poema.
Não fora a insuspeitada orgia

com que as letras se misturam
e o sentimento seria, somente, um polissílabo
mudo, imóvel, nado e morto no mesmo som.
Encosto as mãos à grafia de um verso
e enceno, ao redor dele, um calado aviso.
Sem rumo, ouço o meu vulto crescer
em direcção a um sobressalto masculino ou solar.
Um cheiro de relva aparada impõe um círculo
de recordações no ângulo da escrita.


Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

8.3.09

Mulheres

Gérard Castello Lopes

Ao som de canções de amiga,
revêem a geografia dos sonhos
na madeixa verde, que escorre
pelos seus cabelos, quando,
nem tudo é de pedra,
no exílio dos olhos.
Às vezes tudo o que têm,
está na memória
de um impossível discurso,
ou na visão alienada das paredes,
reflectindo pensamentos e esperanças.
São o culto onde o desespero
se desdobra em asas,
metamorfose de anjos negros,
criando clareiras nocturnas
para que a luz lhes devolva

o regozijo íntimo da vida.

Graça Pires
De Ortografia do olhar, 1996

2.3.09

Em seara alheia


Na esquina da tarde pintei
a barraca da feira dos teus olhos,

depois ali fiquei, feliz,
no gosto da obra consumada…

Ah, pudesse eu prender-te a limpidez que trazes
em delicados fios de ráfia e prata fina!
Pudesse eu lustrar-te o corpo e ferir o ar
com entusiásticos odores de limonete e rosas bravas!
Pudesse eu tecer-te essa terrível solidão
com êxtases e horizontes que só para ti inventaria!

Pudesse em tudo ousar para que fosses
arco dos teus olhos
que encostado a fontes múltiplas
ansiasse que eu pudesse.

Victor Oliveira Mateus
aqui
In: Nas águas a luz suspensa. Lisboa: Minerva, 1998

23.2.09

Memórias de Dulcineia XIII

Menez

Sem medo do perfil
em que me invento
procuro os ângulos
menos sombrios
do passado.
Viro os gestos do avesso.
Deturpo conceitos e preconceitos.
Esqueço os comportamentos comuns.
Imagino-me num castelo longínquo,
cativa e princesa.
Não quero adiar o destino
de me rever nos sonhos
que te chamaram de tão longe.
Eu, aqui, morrendo aos poucos,
sitiada do teu nome.


Graça Pires
De Uma extensa mancha de sonhos, 2008

17.2.09

Perto do meu corpo

D'Angelo

Conheço um rio sem destino,
confluência de mágoas e de sonhos,
onde os barcos navegam para o sul.

Perto do meu corpo nada é interdito,
a não ser um súbito verão
prolongado nas franjas da memória.

Amanhece na espessura dos desejos,
como se a madrugada descrevesse
a violência, em rotação azul,
ou crescessem papoilas nos olhos de quem ama.


Graça Pires
De Poemas, 1990

13.2.09

Para atravessar a noite

David Gray
Percorro, passo a passo,
os sulcos dos migradores
de sonhos.
Reaprendo o ritual
dos presságios
para atravessar a noite,
deslumbrada e breve.
Posso, assim, iludir os gestos
mais suspeitos e escutar
o silêncio e as palavras
mutuamente se inquirindo.


Graça Pires
De Uma extensa mancha de sonhos, 2008

9.2.09

A primeira palavra

André Durand
Sob o domínio de Minos,
habitei o fortificado castelo de Knossos,
onde as mulheres alternavam, em si próprias,
as múltiplas formas dos deuses
e honravam, com o corpo,
o seu compromisso com o cosmos.
Hoje sei que nunca se repetirá a intacta perfeição
da primeira palavra com que nomeei a vida.

Graça Pires
De Labirintos, 1997

6.2.09

Em seara alheia



NATUREZA QUASE


Eram mulheres à volta duma mesa.
Teciam conversas com linhas da voz.
Os olhos desviavam insectos verdes
a zumbirem memórias de outras mesas.
Deitavam cartas a convocar futuros.
No fruteiro, a natureza quase morta.
No retrato tinham pupilas vermelhas -
Como as feras no escuro.

Licínia Quitério
aqui

In: De pé sobre o silêncio. 2008

2.2.09

Nocturno

Magritte

À noite vou por aí,
ociosamente.
Percorro um ritual lilás
feito de violetas de pedra
e traço cada pausa
no retorno da lua inicial.
Aqui a memória é lenta
como as angústias.
Muitas vezes vejo árvores
com frutos azuis,
ou animais em nudez perfeita
respirando o vento.
A escuridão é o subterfúgio
inesperado do coração
quando o olhar aquece
e o orvalho é de cetim.
Há máscaras de búzios e limos
na cara de quem passa.
Nas suas vozes ouço o itinerário
das manhãs siderais
e nasce nos meus passos
o rumo da via láctea.
Ninguém me conhece.
Venho do arco-íris
e trago nos dedos
o ângulo transparente da noite.

Graça Pires
De Poemas, 1990

29.1.09

Memórias de Dulcineia XII

Claude Simon
Anoto nas paredes
o eco de teus passos,
mensageiro do mais remoto
assombro em que te sei.


Graça Pires
De Uma extensa mancha de sonhos, 2008

24.1.09

Em fuga

Gregory Lanq

Somos agora quase tudo no desconcerto da cidade
que nos proibe de ver crescer as flores
e constrói grades sobre grades
para esconder os nossos medos em fuga.
Não podemos explicar a passagem
do tempo no rosto dos dias porque há um túnel
sem espelhos a ocultar-nos a inocência.
Conivente com o círculo vazio
que me esconde de mim partirei amanhã.
Em volta do teu olhar não há sinais
de surpresa ou de suspeita.
Apenas um aceno tão lento como o teu ritmo de viver
me antecipa a anunciação de um silêncio absoluto.
Sim. Partirei amanhã para aprender o idioma

das nascentes e escrever o teu nome
na água dos meus olhos.

Graça Pires
De Outono: lugar frágil, 1993

21.1.09

Da chuva

Edouard Boubat

No contorno das pedras, se imagina
a impaciência das águas no inverno,
quando a terra se encharca
do lamento dos ventos.
Carrego, comigo, um pavor de relâmpagos,
incendiados na rama das oliveiras.
E ando descalça, no ribeiro,
a procurar indícios da infância.


Graça Pires
De Quando as estevas entraram no poema, 2005

16.1.09

Em seara alheia


UMA CASA EM PEDRA
Uma casa em pedra é um lugar onde se fabricam
os utensílios mais fraternos, talvez o lugar próprio
para descobrir a nossa vocação para plantar lírios
à beira das veredas, no caminho interior do lar.

Nela se redescobre a teimosa mão do poder das cinzas
à lareira, um jarro de água sobre a mesa, o pão amassado
na véspera, ante o alvoroço anónimo das crianças
ao odor das leveduras ainda frescas, transfiguradas.

Dentro das pedras se erguem as vozes vindas da planície
como se viessem da própria casa, do mais íntimo da terra,
misturando-se o apelo das águas e as narrativas
de animais nocturnos, obscuros, na fronte das montanhas.

E é daí que se lê a premonição das estrelas circundando
o destino de ervas e bichos que se fundem aos processos
por onde o vento soa, geométrico, um tempo sem data,
uma verdadeira abstracção de objectos nus, imaginários.


Vieira Calado aqui

In: Itinerário. S. Mamede de Infesta: Edium, 2008

12.1.09

Memórias de Dulcineia XI

André Kertész

Com as árvores e com as águas
partilho os meus pensamentos.
Manuseio estas palavras
como se fossem minhas
para as usar como protesto,
como absolvição: a boca
devorando a própria fome.
Aguardo um sinal que decifre
o nomadismo da memória
e rompa a cumplicidade do tempo.


Graça Pires
De Uma extensa mancha de sonhos, 2008

7.1.09

A guerra



A morte vem em todos os jornais.
É a razão de ser das reportagens.
Morre-se porque se ousa carregar na pele
a marca de diferentes etnias.
Morre-se em nome de um topónimo
no mapa do mundo, em nome do poder,
em nome de planos de paz.
Morre-se para baixar o stock das armas,
para testar a perícia dos beligerantes.
Morrre-se à queima roupa, como se a vida
estivesse entrincheirada num contra-senso
onde a noção de dignidade se perde.
Os refugiados só têm a voz
das cidades bombardeadas.
O pranto e o terror cativos do mesmo olhar.
As mãos doendo desalentadas.
Os rumores da guerra na respiração dos meninos
sitiados no silêncio dos abrigos.
Toda a demonstração de um equívoco, ou de um logro
na parábola que fala da fraternidade dos homens.


Graça Pires
De Ortografia do olhar, 1996

2.1.09

Os pássaros

David Valle
Junto ao pelourinho da cidade
as gaivotas convivem com as pombas.
Que aventuras permutam entre si,
quando as manhãs de janeiro
se decoram de quantas viagens
nos cabem nos olhos?
Em seu lento voo, as gaivotas
transportam as habitações sem alma
para incendiar as quilhas
com que as pombas hão-de reinventar
a cúmplice peregrinação da luz.
Este é o tempo em que amamos
o desamparo das mãos.
Os mastros, donde avistámos o sul,
ainda são os mesmos.


Graça Pires
De Ortografia do olhar, 1996

28.12.08

Mãesagem


É possível que as arestas das montanhas
se arredondem de paixão pelo brilho da seiva,
quando a manhã se acende.
É possível que revoadas de pássaros
sulquem o céu, reinventando uma terra,
maternal e verde.
É possível.
Pode ser um recomeço,
uma promessa, um sobressalto,
um sinal da nossa inquietação,
neste planeta quase estrangulado,
em que nos vamos tornando forasteiros
assustados, não vá a morte surpreender-nos
na fronteira de qualquer negligência.
Pronunciemos, devagar, um acto de contrição,
até que a luz penetre, nua, o útero da paisagem,
e a fecunde, ou não teremos rio algum
que purifique a nossa sede.


Graça Pires
De Ortografia do olhar, 1996


Mãesagem é o nome de uma escultura de João Cutileiro

19.12.08

Em seara alheia

O Natal

Fotografia de Gisela Ramos Rosa: António Ramos Rosa a desenhar, Novembro de 2008


O campo que desdobro e rodopio é um corpo
que do meu corpo nasce, que do meu campo solto
António Ramos Rosa, Campo e Corpo

Nascerei sempre
que a palavra vier ter comigo
como a paisagem de uma manhã de
Natal
mesmo quando as pedras sem cor
me conduzirem por entre as calhas
e no horizonte só os barcos ausentes navegarem

nascerei sempre que as palavras amanhecerem
como fogueiras vermelhas de presença
e a tua voz incendiar o silêncio

ainda que minhas mãos
nem sempre encontrem uma janela
mas muros que crescem mesmo quando derrubados

mas nascerei, nascerei sempre que
na palavra encontrar o teu rosto


Gisela Ramos Rosa

07-12-08
Desejo a todos um Natal cheio de Amor e Luz...

12.12.08

Por onde se volta à infância

Inês Gonçalves

Que cilada flutua sobre a espuma
da língua enrolada em vocábulos?
Com que voz se rompe o centro da desordem,
para deixar passar o poema,
ansioso de uma rua larga?
No lugar em que os rios se cruzam
com os olhos dos poetas,
rodopia o tempo de uma fábula,
por onde se volta à infância,
com a noite dilatada nos olhos
e a boca legendada de contos de fada.


Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

8.12.08

Memórias de Dulcineia X

Degas

De tão longe me tocaste.
Ou foi a tua sombra
que dançou
na minha sombra?
Podia ser de júbilo
a linha do teu rosto
quando soletraste
a rebeldia dos sonhos
e te fizeste errante.
Agora o sonho
é também o meu exílio.
E muito mais me perturba
o luto do olhar
do que a boca
ferida de silêncio.


Graça Pires
De Uma extensa mancha de sonhos, 2008

3.12.08

Da tua ausência

Rachel Giese

Voltarei sempre às paisagens da tua sombra
enfeitada de madressilvas.
Gravarei o teu nome em todas as árvores,
sem marginalizar as razões da tua ausência.
Cantarei palavras sem espessura,
como moinhos de vento,
ou o frágil sabor da chuva.
Dançarei contigo na periferia da manhã
e direi onde começa e acaba
o secreto destino do silêncio.


Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

30.11.08

Em seara alheia



UM POEMA

Não tenhas medo, ouve:
É um poema.
Um misto de oração e de feitiço...
Sem qualquer compromisso,
Ouve-o atentamente,
De coração lavado.
Poderás decorá-lo
E rezá-lo
Ao deitar,
Ao levantar,
Ou nas restantes horas de tristeza.
Na segura certeza
De que mal não te faz.
E pode acontecer que te dê paz...


Miguel Torga
In: Diário XIII. Coimbra, 1983

26.11.08

O lugar interior

Mark Rothko

Queria descrever, ao pormenor,
o lugar interior onde o poema recomeça
o seu esboço de contornos invisíveis,
rodeando os pulsos.
A língua, distorcida pelo súbito tumulto
da água, engolindo a sede,
agrafa de gritos minha boca.
As letras enrolam-se-me na saliva,
como um choro, que torna sombrias
todas as definições de paixão.


Graça Pires
De Não sabia que a noite podia incendiar-se nos meus olhos, 2007

22.11.08

A casa


A minha irmã a trouxe: a foto da casa onde nasci,
como se fora uma gaivota de névoa.
Agora, a casa respira a meias com o longe
que nos separa da infância. As suas raízes
sobrevoam, tão cúmplices, tão subtis,
os nossos corações atordoados de menina.
Do fundo da tarde adivinhamos, sei lá,
o sótão pintado de pretéritas inocências,
a janelinha por onde as bolas de sabão
nos levavam, em estado de sonho,
por lugares que só o imaginário sabe.
Onde está o retrato do medo,
que sabíamos de cor, mesmo sem o olhar?
Onde está a outra menina
que connosco partilhava os frutos
de todas as estações e a quem,
também, chamávamos irmã?
Em vão, esperar a mais perfeita lágrima
para, em nome da sua ausência,
reconstruirmos a casa.


Graça Pires
De Ortografia do Olhar, 1996

17.11.08

Por dentro da noite

Magritte
As mulheres, de passo
travado de amargura,
espreitam no escuro
uma emoção perdida.
Na sua frente, a noite resolve
todos os problemas de ódio,
ou todos os equívocos
que lhes pesavam nas ancas,
impedindo-as de dançar.
Boca a boca se respira
um erotismo deslumbrante.
Há um mundo sensual
debaixo dos seus pés.


Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

13.11.08

Regresso

Claude Simon


Sacodes do corpo a poeira do exílio.
Os destroços de uma agonia,
duplamente perigosa, incharam-te nos pés.
Vem. Dir-te-ei o que mudou
neste lugar de ventos e de mastros.
Dir-te-ei como me senti intrusa,
sempre que um navio aportou neste cais.
São sombras familiares, as que precedem
o teu anonimato. Um cortejo de pássaros,
antecipa-te o regresso. E chegarás
cansado do rumor da morte,
que na boca dos deuses se ocultava.

De Uma certa forma de errância, 2003

10.11.08

Memórias de Dulcineia IX

Darlene Shiels


Há crisântemos
ao longo das estradas.
Um chão orvalhado
rebenta-me nos olhos.
Eu sei: não há lembrança
que o tempo não apague,
nem dor que a morte não consuma.

Por isso, vai perdendo sentido
a distância que me separa
de todas as esperas.
É mais nítido, agora,
o silêncio que me envolve.
Como se a morte
(ou apenas o pressentimento dela)
viesse, de mansinho, ao meu encontro.


Graça Pires
De Uma extensa mancha de sonhos, 2008

6.11.08

Em seara alheia



DERAM-ME O NOME


Deram-me o nome
da mãe
da avó
e de outras ancestrais que não conheci

a avó fez jus ao nome
e de Andaluzia onde foi menina
trouxe a espantosa solidão
da cama desabitada
dos filhos todos
perdidos
na guerra

a mãe foi artesã
da alegria
(da minha não da sua)
e passou breve
cisne ao sol
sacrificado

e agora
eu herança
no longe dos seus olhos.

Soledade Santos
Aqui
In: Quatro Poetas na Net. Maia: Sete Sílabas, 2002

3.11.08

Irremediavelmente

Alfredo Cunha

Talvez não valha a pena
amarfanhar palavras
para fugir do medo.
A vida não é um jogo.
É uma espécie de nudez,
onde se perde o pé,
irremediavelmente.


Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

30.10.08

Quem me disse?

Marco Somoni

Encostada às paredes interditas do futuro,
vou desenhando as memórias do caos
em que me escrevo, neste cansaço de pedra.
Como um exorcismo inadiável, tudo
o que aceitei sem reservas percorreu
a cor evasiva dos contrastes
que, nos meus joelhos descuidados,
linearmente se desfizeram.
A caminho de todas as fragilidades,
os fantasmas do amor acotovelam-se
na minha voz, condenados a um sonho
mudo, gravando no silêncio o eco
dos abraços que não deram.
E vêm todos calados, como se a morte
das palavras tivesse acontecido.
Quem me disse que nunca tinha fim
o tempo dos desejos?

Graça Pires
De Outono: lugar fágil, 1993

27.10.08

Inventar nascentes

Cartier-Bresson

A minha profissão era inventar nascentes.
Eu nada sabia da ressonância das ondas,
até que fiz dos sonhos um alibi
e arrisquei qualquer fuga,
com a manhã rebentada no peito.
Indiferente à respiração dos peixes,
sigo Ícaro até às profundas águas
de um amor em fogo,
enquanto me crescem, na garganta,
as raízes do delírio.


Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

26.10.08

PRÉMIO


Este prémio foi uma gentileza das Amigas e Amigos de:
Agradeço muito sensibilizada e ofereço o Prémio a todos os que visitam o "Ortografia do Olhar" e principalmente aos que gostam da minha poesia.

23.10.08

Memórias de Dulcineia VIII

Balthus
Repito as palavras.
Lentamente as pronuncio.
Tão límpidas que me dói dizê-las:
Ela batalha em mim
e vence em mim
e eu vivo e respiro nela.

Guardo as palavras,
secretamente,
como quem esconde,
com pudor, o lado
mais sensual do corpo.
Guardo as palavras.
Assombro-me com elas.
E choro a meio da noite
com os olhos carregados
de inocência.
Como se fora uma criança.


Graça Pires
De Uma extensa mancha de sonhos, 2008

20.10.08

Em seara alheia


tinha a sopa a arrefecer e a mãe chamava.
tremiam-me as pernas no complicado anseio
de saber se ela estava. já não me lembrava do nome.
rosalina seria. era quase um instante quando o lençol
era aconchegado no pescoço. eu não sabia.
poderia ser maria ou carmo ou antónia.
mas não. acho que era rosalina e de mãos atadas
no silêncio da mesa, eu achava que era morna
a lembrança. sabia que o momento não era próprio.
e eu ainda com as meias até ao joelho
e uma fita nos cabelos. descia a mão
até ao princípio do dia.
e a luz chegava para cegar de medo o meu sono.
e os dedos aconchegavam as pernas.
e as mãos no destino húmido do desejo.

Maria Quintans
aqui
In: Apoplexia da ideia, il. João Concha. Lisboa: Papiro, 2008

16.10.08

Sabor a romãs

Manuel Fazenda Lourenço

Fico à entrada do outono cativa de hábitos estivais.
A palidez do sol arde nos beijos dos adolescentes
e tem um acentuado sabor a romãs.
Apetece cantar até à extenuante cor
dos campos lavrados e nenhum calendário
mudará o clima que os meus olhos reclamam.
Sei hoje que o amor e a morte são a matéria
preferida dos que pernoitam debaixo
de roseiras bravas e sabem
que tanto as garças como os papagaios de papel
voam sempre mais alto no outono.
Vou no vértice desses bandos
numa migração de risos transparentes.


Graça Pires
De Outono: lugar frágil, 1993

13.10.08

Alguns apontamentos

Paul Strand


Antes que a memória me apanhe desprevenida,
tomo alguns apontamentos de lavoura:
os cestos de vime escondem os sobressaltos
do vento de outono, no meio do azinho
cortado no verão;
os sulcos de trigo inquietam-se
com as chuvas estivais, quando os guizos
das cabras soam de nordeste;
um temporal pode explodir no bico dos melros,
se o tempo das cerejas sair do calendário,
ou o sol não brilhar no mês de março;
na próxima floração acenderemos o forno
e o pão que comermos será caseiro.


Graça Pires
De Quando as estevas entraram no poema, 2005

9.10.08

É possível

António Carneiro

É possível que já não haja pássaros
a esvoaçar em torno das palavras
com que calei
o desespero das manhãs
quando tinha do cosmos
uma visão romântica.
Hoje nasce-me no olhar
uma luz quase cruel
com que ilumino
a linha de sombra
que me cerca as mãos.


Graça Pires
De Uma extensa mancha de sonhos, 2008

6.10.08

A cidade

André Kertész

A cidade designa-se pelo desassossego
impregnado de histórias errantes.
Multidão anónima, individual, insondável.
Geografia de uma orfandade interior.
Paradoxal labirinto de aves migratórias.
Nenhum caminhante se esquiva à nitidez
da noite sitiada pela própria sombra.
Pé ante pé, a intimidade refugia-se
nos olhares povoados de afeição
e desdiz o rumor do medo
com um gesto de aconchegar palavras.
A cidade é o epicentro de uma confidência
partilhada por quem sabe manipular o silêncio.


Graça Pires
De Labirintos, 1997

2.10.08

Em seara alheia



ARCANO

As altíssimas torres
foram trespassadas por pássaros
alucinados. Um deus ofendido
pelos povos terem inventado
os dicionários, para fugir
ao castigo de Babel,
fez explodir essas formas
de arranhar o céu, sacrificando
milhares de vítimas. Algumas lançaram-se
das alturas, na fuga às chamas
para a enganosa respiração
da manhã. Consta que deus,
disfarçado de mortal
se escondeu nas montanhas.

Inês Lourenço
In: A Enganosa Respiração da Manhã. Porto: Asa, 2002

29.9.08

Memórias de Dulcineia VII

Goya

Quero que me devolvam o meu riso.
Inocente ou perverso, pertence-me.
Ouço-o, ainda, pela infância
fora quando ecoa na remota
memória da alegria.
Ouço-o na hora
de desocultar segredos,
golpeando palavras
ou inesperados silêncios.
Ouço-o, mesmo sabendo
que já não é possível
forjar, na voz, o breve instante
que vai do espanto
à original pureza do olhar.


Graça Pires
De Uma extensa mancha de sonhos, 2008