22.4.10

A Poesia andou na rua




Os barcos têm sede: falta mar.
Os lenços não respiram: falta vento.
Que outro (a)mar das marés do teu olhar
me tragam ao país a que pertenço.

Os vidros têm fome: faltam cravos
assomados às janelas do futuro.
Da teia dos meus dedos farei barcos.

Serão velas as palavras que procuro.

Hugo Santos
In: Armas de (a)mar. Lisboa: Ulmeiro, 1988

15.4.10

Em seara alheia



sabes, mãe. uma asa não deixa de bater
porque cai do corpo de um pássaro.

o nome que nos dão, ao nascer,
fica nos retratos, nos envelopes intactos,
nos poemas que hás-de escrever.

às vezes, é o medo que escreve,
outras é o vento, quase sempre
é o vento que escreve, mãe,
quase sempre é o medo.


Alice Macedo Campos
In: Um cão em cada dedo.


Este poema foi-me carinhosamente dedicado pela Alice num momento irremediável da minha vida. Obrigada, minha amiga.

8.4.10

Alguém me disse

Ana Pires

Alguém me disse, um dia, que as aves
marinhas vão morrer (ou repousar)
no solitário coração dos barcos afundados.
Que sugestão de luz lhes indica
o inevitável caminho das águas mais azuis?


Graça Pires
De O silêncio: lugar habitado, 2009

2.4.10

Na data prevista


Maria Clarinda


Na data prevista, desfez-se a noite
em sombras autobiográficas.
Demandei, por isso, o mais distante navio
para alcançar a geografia das sílabas
e conquistar um silêncio
tão propício à evasão
como um planar de pássaros sobre o mar.


Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

25.3.10

Memórias de Dulcineia XVIII

Gustave Dore

A notícia se espalhava:
um cavaleiro andante
em doida cavalgada pelo vento,
ridículo, intruso de si mesmo.
A notícia corria de boca em boca:
um herói de batalhas não travadas,
excluído da sorte.
A notícia vinha e voltava com os pássaros.
Da notícia falavam.
Todos. Sempre.
Como quem ri da própria tristeza.


Graça Pires
De Uma extensa mancha de sonhos, 2008

18.3.10

Tão cúmplices, as palavras


Edward Hopper
Às vezes vêm de muito longe:
de fatigadas viagens,
de mortes prematuras,
de excessivas solidões.
Mas vêm.
E trazem a inicial pureza das fontes.
E a lâmina do silêncio.
E a desordem da noite.
E a luz extenuada do olhar.
Tão cúmplices, as palavras.



Graça Pires
De O silêncio: lugar habitado, 2009

11.3.10

Em seara alheia


Devia olhar o rei
Mas foi o escravo que chegou
Para me semear o corpo de erva rasteira

Devia sentar-me na cadeira ao lado do rei
Mas foi no chão que deixei a marca do meu corpo

Penteei-me para o rei
Mas foi ao escravo que dei as tranças do meu cabelo

O escravo era novo
Tinha um corpo perfeito
As mãos feitas para a taça dos meus seios

Devia olhar o rei
Mas baixei a cabeça
Doce terna
Diante do escravo.

Paula Tavares
In: Manual para amantes desesperados. Lisboa: Caminho, 2007

4.3.10

O buscador de pérolas


Era um buscador de pérolas.
Atravessou a mais densa escuridão
para abrigar na expressão do rosto
uma luz absoluta. Ficou cego.
Agora há uma ferocidade
suspensa nos seus olhos.
E dorme pelas praias
onde só as mulheres
vestidas de negro
escutam o grito das areias.


Graça Pires
De O silêncio: lugar habitado, 2009

25.2.10

Tiro a máscara

Rudolph Tegner

À queima-roupa, tiro a máscara
com que me desfiguro e transfiguro.
Desenho na cara o mirante
donde se avista a via-sacra das quimeras.
Transmuto o medo
e projecto na alma um pássaro solto,
volúvel e imprevisível como um rio.
Construo, no meu peito, o vaso baptismal
onde a minha orfandade se redime.


Graça Pires
De Labirintos, 1997

18.2.10

Diz o que quiseres

Marta López Vilar


Quando a imensidade das sombras
se acercar de mim promete que dirás
que fui com as aves matinais
pernoitar à boca das marés em busca
do sulco da lua pelas noites dentro.
Diz as coisas mais banais.
O que quiseres. Diz.
Nunca te faltam as palavras
para enganar as sombras.


Graça Pires
De O silêncio: lugar habitado, 2009

20.1.10

ATÉ SEMPRE, MÃE







Até sempre,
Mãe






Mãe

Mãe: Que desgraça na vida aconteceu,
Que ficaste insensível e gelada?
Que todo o teu perfil se endureceu
Numa linha severa e desenhada?
Como as estátuas, que são gente nossa
Cansada de palavras e ternura,
Assim tu me pareces no teu leito.
Presença cinzelada em pedra dura,
Que não tem coração dentro do peito.


Chamo aos gritos por ti — não me respondes.
Beijo-te as mãos e o rosto — sinto frio.
Ou és outra, ou me enganas, ou te escondes
Por detrás do terror deste vazio

Mãe:
Abre os olhos ao menos, diz que sim!
Diz que me vês ainda, que me queres.
Que és a eterna mulher entre as mulheres.
Que nem a morte te afastou de mim!
Miguel Torga
As rosas são do D'Ângelo

14.1.10

Em seara alheia


INDOLOR

Quando eu tiver
As mãos doridas
De tanto escrever
Invento uma forma
Indolor
E escrevo
Na parte de dentro
Das folhas
Onde não magoa
O poema
E onde as mãos doridas
Poderão
Descansar
Sobre a luz
Da memória.

Maria Paula Raposo
In: Marcas ou Memórias do Vento. Lisboa: Apenas Livros, 2009

7.1.10

O rumo das palavras

D'Ângelo


No fim da tarde, apenas é incerto
o rumo das palavras.
Divago entre verbos uma intriga qualquer
cruzando hipóteses sobre hipóteses,
escada de múltiplos sentidos
por onde vou e venho e volto
e me transformo num absurdo Sísifo
neste vai e vem inconsequente
que faz calar os deuses do efémero
e me arrasta o pensamento
até à criação de não sei que esperança,
de não sei que fantasmas do meu próprio sangue
onde todos os rostos são mortais
mas possuem a marca de almas
condenadas a um lendário paraíso.

Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

30.12.09

A passagem do tempo

Manuel Alvarez Bravo


Dantes a passagem do tempo deixava-se adivinhar
no contorno imperfeito das pedras que pisamos.
Os antigos conheciam os segredos dos caminhos
e dos muros e contavam velhas estórias
de sustos e de choro.
Agora, como marionetas cujo fio mágico
irrompe, giratório, à boca da cena,
assim a dança dos dias no calendário.
Com sinais de urgência.
Com movimentos apressados onde o caos se instala.
Com vozes que são águas tão fundas sob o peito
que perturbam o imenso silêncio das estrelas.


Graça Pires
De O silêncio: lugar habitado, 2009

18.12.09

NATAL

Michelangelo


NATAL

Leio o teu nome
Na página da noite:
Menino Deus...
E fico a meditar
No milagre dobrado
De ser Deus e menino.
Em Deus não acredito.
Mas de ti como posso duvidar?
Todos os dias nascem
Meninos pobres em currais de gado.
Crianças que são ânsias alargadas
De horizontes pequenos.
Humanas alvoradas...
A divindade é o menos.

Miguel Torga
In: Diário X, 24 Dez. 1966


Que venham os anjos que nos guardam refazer em nossas mãos um presépio de amor.

Que celebrem em nosso olhar o desejo da luz, a promessa da paz, a certeza do bem-estar.

Um Bom Natal e um Novo Ano Melhor !

12.12.09

Memórias de Dulcineia XVII

Claire Rydell


Porque os sentidos se furtam
a qualquer ausência sei
que nunca me aconteceu
a tua morte.
Teus gestos recordo.
Teu nome confundo
com os sonhos.
Em teu exílio
construo meus caminhos.
Diz-me o que perturbou teu olhar,
o que te devorou a inocência
do sorriso, o que esvaziou
tuas mãos de tanta sedução.
Diz-me que moinho de vento
te moldou, no corpo,
essa imprevista forma de loucura.


Graça Pires
De Uma extensa mancha de sonhos, 2008

5.12.09

Em seara alheia


É DAS FONTES QUE FALO!

Falo das casas de rosto contente virado para o mar,
da procura apaixonada das conchas raras
abandonadas na vazante,
do mistério nunca desvendado da canção dos búzios,
da postura majestática dos cactos com flores
vermelhas sobre as dunas,
falo da robusta madureza do teu corpo
aberto como um suspiro
liberto de cansaço no tempo certo!...
É das fontes que falo,
insubstituíveis, teimosas fontes
escondidas, esquecidas, não lembradas,
mas avidamente luminosas,
sequiosas nos olhos que procuram, se procuram,
no enleio confusamente inevitável
de quem caiu de borco das estrelas nos labirintos
e becos da cidade,
onde as crianças sabem
não haver fronteiras claras entre a vida e a morte,
entre o riso e a tristeza,
e acariciam silenciosamente, com mãos de jade,
as lágrimas que parecem tombar do céu,
mas que brotam violentamente da terra!...

Eduardo Aleixo
In: As palavras são de água. Lisboa: Chiado Editora, 2009

28.11.09

As flores tardias de maio


Obrigada, Maria Clarinda


Aqui, olhando as pessoas ao acaso,
vêm-me à lembrança aqueles dias
em que os nossos olhos se ajustavam
e tu lias, em voz alta, os autores
da nossa preferência.
Recordo isto, como um tempo
em que os pássaros vinham,
em grandes círculos, sobrevoar
a imprevisível alegria,
tecida por nossas mãos,
para iluminar, sobre a mesa,
as flores tardias de maio.


Graça Pires
De O silêncio: lugar habitado, 2009

22.11.09

Nada sei

Claude Simon
Nada sei da sedução da morte nos olhos
dos pássaros atingidos pelo trilho dos incêndios
no interior das searas.
Não sei que nome dar ao momento
exacto em que a luz pode ferir
a obscuridade da lua nova
dispersando as aves nocturnas.
Ignoro quais as palavras propícias
à vertigem das nuvens, em novembro,
quando as águas dos temporais
alagam os meus olhos.



Graça Pires
De O silêncio: lugar habitado, 2009


Agradeço, sensibilizada, a todas as amigas e amigos que estiveram na apresentação do meu livro e a todos os que desejaram estar e não puderam. Bem hajam!

7.11.09

Dois Convites

Para os que moram na Figueira da Foz, ou por perto:

Dia 12 de Novembro de 2009, às 18 horas, na Biblioteca Pública Municipal




Para os que moram em Lisboa, ou por perto:


Dia 21 de Novembro de 2009 pelas 17.30 na Livraria Trama
Rua São Filipe Nery, 25 B, Lisboa




Teria imenso gosto em que estivessem presentes no lançamento do meu novo livro de poesia:
O silêncio: lugar habitado.

1.11.09

Em sinal de luto

Ansel Adams

Conto, pelos dedos, o tempo de entardecer
cansaços. Um negativo de lembranças,
compulsivamente recortadas no coração,
transforma a brisa em rostos familiares.
Crava-se-me, na pele, um sangue-frio
de mortes solitárias e estremece-me
o corpo em sinal de luto. A noite cheira
a despojos de velhos monólogos.


Graça Pires
De Uma certa forma de errância, 2003

24.10.09

Todos os sinais do rosto

Dorothea Lange
Pelo vértice dos abismos
posso espreitar o fulgor inventado
da sombra que me precede.
Todos os sinais do rosto
se tornam tão palpáveis
como a paisagem dos dias,
em que a luz, trémula,
junto à fronte me deixou,
no fundo do olhar, para sempre,
uma ilha cercada por sombras,
tão cheias de orfandade,
que só um milagre me salvou
de uma solidão definitiva.

Graça Pires
De Não sabia que a noite podia incendiar-se nos meus olhos, 2007

17.10.09

Outono: lugar frágil

Edouard Boubat


Acendo as mãos para aquecer o olhar
de quem atravessa apressadamente o outono.
Um morno ruído desdobra o voo quebrado
dos plátanos obstruindo um caminho
desenhado a carvão por onde passeio
à beira dos acontecimentos e das sílabas,
alheia a tudo, como se pudesse passar
o resto da vida à sombra do pólen das palavras
e adormecer no confluir da transparência
e da luz, neste outono: lugar frágil.


Graça PiresDe Outono: lugar frágil, 1993

7.10.09

Em seara alheia



Fábula da Fábula

Era uma vez
Uma fábula famosa,
Alimentícia
E moralizadora,
Que, em verso e prosa,
Toda a gente
Inteligente
Prudente
E sabedora
Repetia
Aos filhos,
Aos netos
E aos bisnetos.
À base duns insectos
De que não vale a pena fixar o nome,
A fábula garantia
Que quem cantava
Morria
De fome.
E, realmente…
Simplesmente,
Enquanto a fábula contava,
Um demónio secreto segredava
Ao ouvido secreto
De cada criatura
Que quem não cantava
Morria de fartura.

Miguel Torga
In: Diário VIII, 1956

1.10.09

Por meio do fascínio



Os deuses reuniam-se de noite.
Debruçavam-se sobre os bosques
para sacralizar as árvores,
debaixo das quais os tocadores de lira
encantavam as serpentes
e os amantes justapunham os corpos.
Zeus exibia, então, a sua força mágica
aniquilando os homens por meio do fascínio.


Graça Pires
De Labirintos, 1997

24.9.09

Onde o outono aquece

Ana Pires


Aqui, na fenda da rotina onde o outono aquece
vou desenhar a sede, lentamente.
Já não falo de nós, peregrinos

das rotas que inventámos.
Por dentro das metáforas violo,

apenas, os limites do sossego e desfaço
todos os nós do medo no fulgor livre do verbo.
É morno o gesto com que percorro

os momentos inquietantes do quotidiano.
Imagens e sons são, quase sempre,

o fundo falso onde, de forma ambígua,
me escondo para representar todos os rituais,
sagrados e profanos, do dia a dia.
Aquém de mim acendem-se todos os mares

e, na voz dos marinheiros, pergunto ao sol
se pode ser eterna a sombra de um barco.

Graça Pires
De Outono: lugar frágil, 1994

18.9.09

Um silêncio obsessivo

Marthe


Há um deserto adiado no interior
das papoilas desdobradas
sobre o movimento dos dedos.
Aqui é a passagem
para um silêncio obsessivo.

Graça Pires
De Poemas, 1990

10.9.09

Memórias de Dulcineia XVI

António Quadros

Como calar a incoerente voz
do pensamento
para encontrar as palavras
com que me invento?
Demasiado cedo
me soube irmã da noite
porque a luz, indecisa,
perto do rosto me parecia
um pressentimento sombrio.
Com o tempo as emoções têm nome?


Graça Pires
De Uma extensa mancha de sonhos, 2008

3.9.09

Em seara alheia



A prontidão das sombras resume
Um simples corpo e resvala sinuosa.
Sei que recordo tudo em certos momentos.

Recordo-te até como se te chamasse,
Como se corresse através do caminho
Que vais preparando junto aos precipícios.

Mas a memória revela o que não sei,
Desfaz sequências de nomes até ti.

Repito a violência e seguro uma pedra
Com as mãos - tal como as tuas - já perdidas.

Repito toda a fragilidade que o teu peso insinua
E derramo a voz ao limite - ossos e carne
Que nos atiram ao chão com o afecto da dor.


Rui Almeida aqui
In: Lábio Cortado. Torres Vedras: Livrododia, 2009
Prémio Manuel Alegre 2008

27.8.09

Agosto

D'Ângelo

Recorta-se um agosto lento
na mutação da página em branco
onde conjugo o verbo amar.
A inquietude enrosca-se no texto
e contamina as frases sem nexo.
Redijo os contornos de um abraço.
Soletro um nome.
Um vento morno rasga, na minha boca,
um alfabeto alegórico com que revelo o futuro.


Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

20.8.09

Itinerário do silêncio

Ana Pires

À espera de um momento de luz
retorno, sem hesitar, ao itinerário
secreto do silêncio e cultivo a solidão

multiplicando as sombras.
Peregrina de outra luas,
resgato a música
que me restou da infância,
como um sobressalto,
ou uma canção de embalar,
ou água fresca a ferir-me a boca,
de tanta sede.


Graça Pires
De Não sabia que a noite podia incendiar-se nos meus olhos, 2007

13.8.09

Fuga

Harry Callahan

Pinto na janela a tormenta
de um mar imaginado.
De costas para a lua
preparo a minha fuga.
Enrolo à volta do corpo
a primeira onda:
a derradeira âncora
para roçar na boca
o lamento verde das marés.


Graça Pires
De Uma extensa mancha de sonhos, 2008

5.8.09

Reconheço-me

Dorothea Lange


Reconheço-me em todas as paisagens
anunciadas pelos profetas, ou pelos mágicos,
fascinada com o impulso que me faz arriscar
uma paixão sem aviso prévio.
Plagio sem restrições
a vida de heróis fantasiosos.
Procuro em todas as definições
acerca da vida e da morte
a síntese perfeita
e transcrevo-a nas cordas vocais
para a citar a propósito das coisas que acontecem.
Ninguém me diga o caminho onde se equivalem
os dias e as noites de um roteiro de verão.


Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

28.7.09

Em seara alheia



a primeira vez que tive vinte anos
esperavas por mim naquele café com nome
de porto grego que faz a Grécia
no meio do bairro alto dizias muitas vezes
mexendo o café que sempre bebias sem açúcar


depois descemos até ao rio e prometeste
um barco por cada dia em que
os meus vinte anos voltassem
às tuas mãos naquele lugar


nessa altura envelheci muito depressa
ao ritmo das cartas em que prometia odiar quem

junto de mim dissesse
-como era moda-
que os vinte anos tinham sido o melhor tempo
das nossas vidas


e o meu coração era então tão grande
que todos os que passavam

se serviam dele

Alice Vieira
In: O que dói às aves. Lisboa: Caminho, 2009

21.7.09

Um estranho signo

Carlos Gutierrez

Pelo lado mais intranquilo da luz,
há vozes alheias
que me inquietam as mãos.
Um estranho signo
risca-me no ventre
a feminina morte
de todas as infâncias
em que, sílaba a sílaba,
me procurei na mais espessa
das noites, sem medo de emergir
de qualquer sombra.


Graça Pires
De Não sabia que a noite podia incendiar-se nos meus olhos, 2007

14.7.09

Não sei por que motivo

Walker Evans

Às vezes
não sei por que motivo
afogo o olhar
em trágicos silêncios.
Para encontrar a luz
me bastava enfrentar
a noite, porque possuo
nos olhos o apelo
errante das sombras.
Pequenas traições
tatuadas na pele
são apenas pretextos
para disfarçar os medos.
Um remorso
germinando na lembrança
devolve-me o temor
de múltiplas solidões.


Graça Pires
De Uma extensa mancha de sonhos, 2008

3.7.09

A mais clara palavra

Manuel Fazenda Lourenço


A mais clara palavra lança a sua sombra
sobre os muros caiados de fresco.
O reflexo da cal incide em nossos olhos:
o mesmo aceno da luz, o mesmo brilho,
o mesmo pressentimento de júbilo.
Sobre o peito fatigado da terra
refazemos a casa.
Dói-nos, no olhar, a intensa floração
das árvores e podemos sentir,
no clamor das antigas oliveiras,
o vento que nos trouxe.


Graça Pires
De Quando as estevas entraram no poema, 2005

27.6.09

Perto do Tejo



Mais perto do Tejo, há palavras
que tocam o sossego dos lábios
para dizer o sul da mágoa,
no voo convergente das gaivotas,
quando os barcos se abrem
ao argumento ondulado das marés.

Graça Pires
De O Tejo e a margem sul na poesia portuguesa: antologia, 1993

21.6.09

Em seara alheia


Anjo

Acreditei num anjo que vivia
no parapeito granítico do quarto.
Não tinha altura, a única medida
eram as asas abertas
como as das borboletas sobre
o milho. Uma asa quebrou-se
no entanto continuava asa
às vezes mais forte do que a outra.
Fascinava-me o anjo da janela.
No alvoroço dos meus sete anos
contei-lhe um namoro de meninos
e amoras. O anjo caiu.

Maria Augusta Silva
In: Dança de Matisse. Vila Nova de Famalicão: Quasi, 2004

14.6.09

Memórias de Dulcineia XV


Todos me falam de ti
com palavras ambíguas.
Fui, eu sei, uma suspeita
de luz em teu olhar.
Virados a levante,
os meus cabelos
eram labaredas em teus dedos.
Na hora do combate
me nomeavas,
como se rezasses.
Pinto-a na minha imaginação
como a desejo, tanto na beleza
como na nobreza
, disseste.
E vejo a minha expressão
na cor dos teus olhos.
Tão cúmplice, eu,
de tamanho assombro.


Graça Pires
De Uma extensa mancha de sonhos, 2008

7.6.09

Não abdico da luz

A janela: fotografia de Gisela Ramos Rosa



Por detrás do olhar, só a escultura das palavras,
no hálito profano das manhãs, me perturba.
Não abdico da luz, mesmo quando, de olhos
no chão, invoco a humidade das sombras.
Um relógio de sol, na ponta dos dedos,
calcula o tempo de cada gesto,
com que abri mão dos sonhos da infância.

Graça Pires
De Quando as estevas entraram no poema, 2005

31.5.09

Outras crianças

Claude Simon

Começa na rua o seu desamparado destino.
Têm, na certidão de idade,
os anos mais convenientes,
para quem as inicia na droga,
na oficina, na prostituição.
Sem histórias de encantar na hora do sono,
brincam ao acaso, indefesas,
orfãs que são de afectos verdadeiros.
Lutam pela sobrevivência
com a mesma habilidade com que manejam
o canivete, a bola, a rixa, o berlinde.
Cómodo se torna acreditar
que, as suas vozes infantis,
fazem delas crianças iguais às outras.


Graça Pires
De Ortografia do olhar, 1996

25.5.09

Em seara alheia


Máscaras


ah! o imenso da possibilidade.

quantas rotas em tormentas?
quantas máscaras desejadas?

sucumbes à pressão dos momentos.

nada se transfigura nos espelhos,
e todos os dias és
mais do que a soma das tuas partes.

às vezes, os mares da realidade assim obrigam.

é nessas águas que também somos humanos.


Vicente Ferreira da Silva aqui

In: Interlúdios de certeza. Porto: Temas Originais, 2009

18.5.09

A múltipla sombra



Hoje soletro, no meu nome,
as sombras do passado.
Cito-me imitando um pássaro de luz
bebendo a própria sombra
para não morrer de cansaço.
À margem das palavras,
um fogo hereditário
ungiu-me a fronte
e pressagiou o rastilho
de um silêncio a muitas vozes:
a múltipla sombra no interior da boca.


Graça Pires
De Não sabia que a noite podia incendiar-se nos meus olhos, 2007

11.5.09

Memórias de Dulcineia XIV

Menez
Na penumbra me perco.
Surpreendida. Impaciente.
Como se uma reprimida dança
movesse o mais insólito enredo
nos meus passos.
Deito-me de bruços para cheirar,
na terra, o hálito do sonho que persigo
e o corpo cobre-se-me de ervas bravas.
Assim permaneço
até que uma lua de sangue me visite.


Graça Pires
De Uma extensa mancha de sonhos, 2008